O que não mata, engorda?!

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By Diane Arbus

Desculpe, importa-se de repetir? Em rigor – porque o rigor exige-se em situações destas e noutras que agora não ocorrem –, o que é que isto quer, de facto, dizer? Indo por partes.

Primeira: O que não mata. Esta entende-se e é clara, porque, à exceção de viver – o ato em si, uma longa caminhada em direção ao precipício –, há outras coisas que não matam. Respirar quando o ar é puro, diz que não mata, por exemplo. Um bom livro – atenção ao adjetivo bom – também não. Dizer mal do próximo, julga-se até que funciona bem, desde que respeitando a posologia recomendada, a qual, como é sabido, é de duas a três vezes por dia. Enfim, há um sem fim de coisas relativamente inofensivas e até ‘panaceicas’ que estão para a saúde como a atração física está para o sexo (de alguma qualidade). Avancemos para a última parte desta estranha equação.

Segunda: engorda. Tudo certo. Assim, isolada de outras considerações, seja tida como forma verbal (terceira pessoa do singular do verbo regular engordar) ou entendida enquanto substantivo (a engorda de algo ou alguém), a palavra é pacífica. Agora, tudo junto, primeira e segunda partes somadas, é que tudo se complica.

O que não mata… engorda. Como assim? Não temos hipótese alguma? Nem sequer um mísero plano Z, que seja? À exceção de alguns extremismos e outras tantas doenças psicóticas, acredita-se, pacificamente, que ninguém quer morrer, não obstante termos de o fazer. Um pouco como a sopa, quando temos cinco anos, ou os pezinhos de coentrada para o resto da vida. Mas sermos forçados a optar entre um ou outro… É desumano. É como ter de comer a sopa, caso contrário lá vêm os pezinhos de coentrada. (Pausa para vómito). Quererá isso dizer que os gordos, por sua vez, não morrem? (Bom, o Pai Natal é gordo e não há maneira de marcar encontro com o Senhor Todo Poderoso, mas deve ser uma rara exceção, certo?) Mesmo para quem sofra de ‘gordofobia’ (podem baixar os dedos que levantaram no ar), pensar que nem Deus os quererá receber, é um pensamento cruel (parem com isso), e inimaginável para todos aqueles que carecem de criatividade.

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By Diane Arbus

Tudo isto para deixar claro que, sim, concordamos que, por norma, ninguém quer morrer por dá cá aquela palha (até porque há muitas bebidas servidas em inúmeros recipientes, que podem ser facilmente ingeridas sem palha). Mas que, para que não se morra, se tenha de engordar… Meus amigos! Isto é de uma crueldade tortuosa. De um lado, a morte, do outro, a gordura, como se esta fosse uma alternativa. Não é. Condenados, por lei divina, à morte ou, por um ditado popular, à obesidade? Então, onde fica a liberdade individual? Onde está o privilégio da escolha, o livre arbítrio e tudo o mais? Não há lugar a um pouco de sorte? Ficamos, desde logo, sem vidas para ir gerindo, como nos videojogos? Não podemos viver algum tempo e ser magros indolentemente, sem ditados e aritméticas? Nem todos temos apetites vorazes. Não nos dão hipótese? Dizem os médicos que a gordura também mata, e muito, pelo que, em que é que ficamos? Morremos ou… morremos? Não temos recursos a bandas gástricas filosóficas? Que a galinha do vizinho seja mais gorda do que a nossa, quem nem sequer temos galinhas, ainda é como o outro. Absolutamente indiferente. Maravilha. É até para o lado que dormimos melhor, o lado do vizinho, entenda-se. Agora que, em alternativa à morte, nos forneçam quilos de gordura extra e inestética, já é assunto sério a ser debatido em hasta pública. Convenhamos que é uma injustiça ‘calimérica’ (Google it). E nem sequer faz muito sentido. Vejamos o álcool, apenas para ilustrar a coisa. O álcool mata e engorda, sem alternativas. É um fulminante dois em um, mas, pelo menos é honesto, nada promete no que toca à gordura e, no entrementes, ainda se esforça por trazer algum bem-estar, algum humor, uma certa alegria. É simpático. A gordura, não. É de uma antipatia que roça o inadmissível.

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By Diane Arbus

A continuar tudo assim, nesses termos, em testamento, já dei conta de que prefiro morrer do que ser gorda. Assim. Sem mais. De que serve ser gorda e, no final, que a nós não nos enganam, morrer na mesma? Não caímos tão facilmente, como outros, em teorias da conspiração, mas que este ditado tem mais dedo de medicina estética do que de popular, não restam muitas dúvidas. A gordura era formosura há séculos. Hoje, é apenas uma doença moderna, das mais letais que se conhecem. Viver entre a morte ou a gordura é bem pior do que estar entre a espada e a parede, porque é menos digno. Até porque, exceto em caso de derrocada, as paredes não matam, apenas as espadas, o que sempre nos dá uma hipótese de escapar ilesos. Se bem que, entre a espada e a parede, tanta sorte de sobrevivência tem um gordo como um magro. O primeiro pode ter a sorte de a espada furar apenas os tecidos adiposos (que nojo!), enquanto o magro pode trepar pela parede. Se o Homem-Aranha consegue, imagine-se o Homem-Desesperado! Pode até conseguir voar, saltar, desaparecer, dançar até embriagar a espada, ou mesmo engoli-la, como fazem nas feiras, ou ainda… tanta coisa!

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By Diane Arbus

Não nos venham por favor, com esta história de que aquilo que não nos mata nos pode engordar. Não faz sentido, e quando faz, não tem sentido algum, porque ficando o bicho come, fugindo, o bicho pega, o que é sempre desagradável. Só digo isto: para ditado popular, este é deveras impopular.

Agora, que o acordo ortográfico já está revisto, não dava para reverem os ditados populares e, talvez, trocar a gordura por caipirinha, por exemplo? É uma ideia que aqui deixo.

 

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