Dizem Que Viver Mata

Corra, pela sua saúde. Corra e muito ou, como por aí se diz agora, faça running. Parece que é muito mais moderno fazer running do que apenas correr – o jogging também já era, dizem que morreu com o walkman –, e o comboio da contemporaneidade é aquele que não podemos mesmo perder. Coma legumes, muito mais legumes, pela mesma razão, desde que orgânicos, biológicos e sem pesticidas. E fruta, desde ‘bioagradável’, e ingira sumos detox e faça curas de líquidos e deixe de fumar. Pela sua saudinha, deixe de fumar, já!

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Se conseguir, deixe mesmo de respirar, pois a atmosfera está poluída. Tenha igual atenção com a água que bebe, deve fazê-lo em quantidades industriais, mas apenas da boa, da pura, daquela que quase já não há. Tenha igual cuidado com a água onde mergulha, seja do mar ou dos rios, pois também ela está cheia de mercúrio e químicos e lixo e toxinas inomináveis que nos matam. Atenção com as carnes que consome e o peixe que ingere. As primeiras estão cheias de antibióticos e hormonas e coisas que se desconhecem fora dos laboratórios químicos, criadas com precisão clínica para que a engorda seja mais célere e as reses rendam mais dinheiro à indústria agropecuária. O segundo, devido aos níveis de toxicidade e poluição das águas, também suscita cuidados redobrados. Veja o que come e a quem compra aquilo que come. Saiba distinguir orgânico de biológico. E faça exercício, muito exercício, físico, preferencialmente, pois os cálculos para fazer esticar o dinheiro até ao fim do mês, para quem ainda tem fim do mês, não entram nesta equação e não são tidos como saudáveis. Tire tempo para meditar, faça de conta que o stress é evitável e, assim, evite-o. Ande mais a pé, beba de forma responsável, quando o mais responsável, segundo nos dizem e a publicidade contraria, é não beber álcool, de todo. As drogas estão completamente interditas, mas apenas as recreativas, as outras, as que, tantas vezes sem eficácia alguma, nos impingem para as mais diversas maleitas, ficcionadas ou não, essas são legais, pois apenas é legal quem alimenta a máquina voraz dos laboratórios químicos – máfia organizada e legalizada – e dos amigos dos governos, de todos os governos do planeta. Mas, então, como esquecemos o mundo neurótico e patético em que vivemos?

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By Diane Arbus

O ideal, dizem os entendidos, seria conseguir viver apenas de oxigénio puro e muito running, com equipamento giro. Sim, não se lembre de ir para a rua correr que nem um louco apenas de t-shirt monocromática em tons mate, calções confortáveis e as velhas sapatilhas que já conhecem, à légua, todos os odores e calosidades dos seus pés. Ser saudável é também ser novo, giro e ter conhecimentos de moda e distinguir o lurex do spandex. Por amor de Deus! Não vai, agora, dizer que não reconhece as fibras modernas, os tecidos inteligentes!? É, ainda, saber quais as melhores lojas macrobióticas e os centros de ioga mais na berra, ou, como por aí se diz, mais in do momento. É render-se à ayhurveda e às tascas gourmet. É ter conta no Instagram, Facebook, Pinterest, Artstack, Skype, Twitter, Snapchat, saber o que é o Shazam e aplicar-se bem em tudo o mais que há e que esteja para vir. É preferir um chef a um cozinheiro. Já percebeu que ser saudável é igualmente sinónimo de perfeito domínio do inglês. Se só tem a quarta classe, o atual quarto ano, lamentamos, mas isto não é para si. Ainda está a correr, sem fumar ou beber álcool, no seu fato de elastano flúor, enquanto trinca uma cenoura biológica? Continue, então, mas não descanse, pois o cancro e as doenças mentais, como a depressão e as demências são o novo Deus. Elas estão em todo o lado. É a ameaça constante sobre a sua cabeça. Faça o que fizer, elas observam-no de perto. Matreiras e sem pressas, elas observam os seus passos, imiscuem-se na sua alimentação, em todas as consultas de rotina a que não vai, em todas as palpações de mamas que não faz. Sim, vá antes pela palpação, já que as mamografias, sabe-se agora, também matam. Inúmeros médicos as desaconselham. É toda uma nova era. Se tiver o azar de ir parar a um hospital, de preferência não apanhe uma bactéria assassina. Pode ir apenas com um resfriado e volta com um caixãozinho à sua medida, que, faça atenção, não será nunca oferta da casa.

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By Josef Koudelka

Nesta insana panóplia de medos e produtos assassinos, químicos e receios e palavreado estrangeiro, veio à luz este pequeno ensaio sobre a morte que aqui lhe deixo. Trata-se do mais promissor e esclarecedor parecer científico que encontrará e nem sequer requer entendimento clínico para descortinar o que diz. Sabe-se agora que, muito simplesmente – está preparado para a brutal revelação? – Viver Mata. É verdade! Verdade, verdadinha.  Este estudo, tão recente que está a ser editado no exato momento em que o lê, deixa clara a evidência que todos, sem exceção, Einstein e padre Borga incluídos, fingiram e fingem não ver. Um segredo que ninguém se atreve a revelar e que é tão simples quanto óbvio. Trata-se de uma evidência que dispensa testes atómicos em túneis aceleradores de partículas, ou designações obtusas como bosões, ou nomes pomposos quanto Partícula de Deus, ou teorias metafísicas de qualquer espécie, e que dá conta de que apenas os vivos morrem.

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By Neal Slavin

Nenhuma experiência, até à data, contrariou este dado, mas quanto a isso, silêncio. Ninguém ousou falar. Um facto corroborado por todos os deuses do planeta, cientistas e calistas incluídos. Não há notícia de pessoas que tenham morrido que não tenham antes estado vivas. Pense bem nisto. Já assimilou a grotesca simplicidade desta dedução? Depois de todos os credos em que nos fizeram acreditar, depois de toneladas de preocupações, recomendações e medos que nos incutiram, agora, também a vida mata. A vida, simplesmente, mata, logo, vida é morte. Uma é condição da outra e assim reza este estudo que aqui publicamos, numa estreia interplanetária que haverá de dar brado e levar bravos a todos os universos da coisa cósmica. Há, inclusive, registos documentados de pessoas que toda a vida praticaram desporto, sempre cuidaram com esmero da alimentação ao ponto de nem saberem qual a forma de uma boa alheira, jamais tocaram num cigarro ou, sequer, inalaram fumo alheio, verdadeiros hippies do vegetarianismo e da vida saudável que – um novo qualquercoisaliks acaba de o revelar – morreram. Isso mesmo. Tanto cuidado, tanta cautela e, um belo dia, ou apenas um dia qualquer… morreram. Tal e qual como todos os outros, os rústicos da vida simples, os easy going, ou apenas seres comuns, com as suas bifanas no pão e cervejas para acompanhar, mais os cinco cafés diários e stress para acompanhar. Tal e qual. Todos eles, assim ou assado, acabam por morrer. O que é que isto prova? Que, no final, tanto modismo e lifestyle, tanta regra e recomendação, tantos espartilhos e condicionalismos, tanto faça e não faça, e tudo é verdadeiramente indiferente. O final do jogo é sempre o mesmo, para uns e outros: morte certinha.

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By Peter Lindberg

Assim, deixe o running e o lurex para outro dia qualquer. Viva em paz com a sua consciência, evite mexericos, julgamentos precipitados sobre os outros e suas vidas, não se meta em preconceitos, aceite a diferença, tome lamelas de tolerância, não se preocupe tanto com modas e modismos, não seja imbecil, fuja de boçalidades, corra apenas porque lhe apetece, quando lhe apetece, não se encha de gorduras, mas também não as combata como se fossem filhas do demo, não se preocupe tanto em agradar aos outros e centre-se em estar bem consigo. Faça o amor e não a guerra, preferencialmente com alguém de quem verdadeiramente gosta. Borrife-se literalmente para as aparências, mas não caia na obesidade. Se cair levante-se, porque ninguém consegue levantar um obeso, além de que os muito, muito gordos não suscitam muita simpatia, tal como os demasiado magros ou extraordinariamente feios ou estupidamente giros. Tudo na medida certa, a sua medida, lá está, desde que não exagerada e patológica. Seja vegetariano mas não fundamentalista, humano e não estúpido, e não se esqueça de que a coisa que mais mata neste mundo é… a vida. Por isso, faça com que a sua seja bem vivida, agradável e prazenteira. Não perca tanto tempo com estupidezes. Não seja intransigente. Não guarde prazeres para depois, já que o depois é muito incerto. Não se preocupe muito em viver até aos 100 se isso implicar fraldas e falta de memória para apreciar aquilo que lhe dava prazer e que, então, já nem conseguirá nomear. Divirta-se horrores, sempre que consiga. Sempre que possa. Faça por isso. Coma o que lhe apetece, na justa medida. Use de moderação, para não adoecer por razões estúpidas, já que outras razões virão, por certo, faz parte desta coisa toda. Deste pacto de vida que temos com o Diabo. Faça de tudo um pouco e de pouco tudo. Seja esperto, mas não deixe de experimentar viver a seu gosto, à sua maneira, sem incomodar os outros ou o planeta. Não há necessidade. Respeite os animais. Você não passa de um deles. Por último: tenha lá paciência, mas não se leve demasiado a sério. É só mais um entre nós. E nós temos mais o que fazer.

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By Vivien Maier

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1 Comment

  1. Eu ja dizia isto enquanto fumador e todos a minha volta me diziam: é melhor parar porque isto, o fumar, mata e eu respondia: viver mata mas não é por isso que vou deixar. Não estas sozinho, esta grande matador ja foi identificado! Mas gosto dele na mesma.

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