Maria Ribeira não sabia muita coisa ainda. Adivinhava-se quase que não viesse nunca a saber muito de nada. Mas também isso Maria não sabia. O pai, sim. Maria Ribeira olháva-o cheia de orgulho, uma palavra cujo significado o próprio pai lhe tinha ensinado. Maria Ribeira não sabia, mas o pai sim. O pai sabia tudo. Sabia até acordar todos os dias à mesma hora da madrugada, ainda noite cerrada, mesmo sem relógio, no instante em que as corujas deixavam de piar. O pai sabia coisas sobre o tempo e as estações. O pai sabia ainda tudo sobre o rio que lhes servia de casa e sustento. O pai era moleiro, transformava em farinha os grãos dourados que enchiam as sacas que serviam de colchão à família, quando à noite se deitava a ouvir as estrelas. Mas não em todas as noites. Por vezes, a fúria do rio era tal que só se ouvia a sua voz enlouquecida explorando as entranhas da azenha, pois disso se tratava, mas isso ela ainda não sabia. Isso ela nem queria saber. Maria não tinha medo. O rio era tudo para eles. Todos juntos à noite na mesma barriga do moinho, sua casa. As sacas de grão dourado, e a farinha branca que a mãe transformava em pão louro como o sol.

 

O moinho era o seu belo pedaço de mundo, junto ao rio onde tudo fazia sentido. O rio era tão mágico que até um irmão lhe trouxe, pelo menos assim o tinha percebido Maria, quando num rigoroso inverno, a água entrou pelo moinho dentro e a cama, a única cama, ocupada pela mãe na altura, tinha água a cobrir-lhe mais de metade dos pés altos. Sem que Maria tivesse dado por nada, o pai chamou-a para mais perto e, ao lado da mãe, Maria viu um bebé. Era seu irmão. Redondo, rosado e belo como nenhum outro bebé que Maria tivesse visto. Não que Maria tivesse visto muito. Na sua cabeça para sempre ficaria a ideia de que o irmão tinha sido um presente do rio, que lhe tinha chegado com o excesso de água. A mãe, muito a propósito, como entendeu anos mais tarde, chamou-lhe Moisés. Não que a mãe soubesse dessas histórias antigas, mas Deus acaba por estar sempre presente. Maria e Moisés. O mundo estava completo. Aquele rio longo, onde sozinha, no meio da aflição, aprendeu a nadar, quando entrou num fundão perdendo o pé, tratava-a como uma verdadeira princesa. Abrigava-a, dáva-lhe o pão e presenteáva-a.

Certa vez, enquanto saltava à corda com os juncos que cresciam à porta do moinho, e que faziam as vezes das sardinheiras e eram as buganvílias de gente pobre, mas mais rica por certo do que Maria Ribeira, o pai chamou:

– MariR’bêra! Ó MariR’bêra, chega aqui!

Correu esbaforida.

– Olha! Olha o que vem ali, junto à berma do rio!

Maria olhava, mas nada via. O pai sim, distinguia algo. Porque o pai sabia tudo. O pai via tudo. Maria apenas via troncos e ramos aos molhos. Procurou formas e cores diferentes, mas assim nunca se descobre o óbvio. Temos de deixar que este nos entre pelos olhos. O pai corria com as pernas dentro de água. A mãe, se visse, é que não ia gostar nada que o pai andasse a estragar as calças boas daquela maneira.

– Olha! – repetia o pai, agora já com um tronco na mão – É uma noguêra. É uma noguêra!

Faltavam-lhe as nozes, mas Maria jamais duvidaria das certezas do pai. O pai sabia tudo e era forte. O pai dominava as águas do rio, fazendo-as girar as mós e com alquimia sabia traduzir em pó branco os grãos pesados que o burro carregava a contragosto. Todo molhado, o pai estava já junto dela. E foi a ela que o pai perguntou onde plantariam a nova riqueza. Maria inspecionou, avaliou as possibilidades e apontou o sítio. Bem junto ao moinho, para terem alguma sombra onde dormir as sestas de verão, quando a calma apertasse. Um irmão e uma árvore. O seu querido rio. Maria não cabia em si de felicidade.

– Mas… e as nozes, pai?

– As nozes vêm com o frio, mas já não devem vir este ano. Talvez para o próximo Natal, anunciou o sábio pai.

Os meses passaram. Chegou a geada e o frio. Muita geada e muito frio. Era o tempo do caramelo e do Natal, quando Jesus deixava sempre de presente rebuçados num cartuchinho de papel. Papel igual àquele onde vinha a magra tira de bacalhau que dividiam entre todos. O cartuchinho era deixado no sapatinho. Mas a expressão não fazia sentido lá em casa, onde sapatos era coisa que não havia. À excepção do irmão mais velho, que já andava calçado. Na maior parte das vezes, Jesus deixava-os na meia. Mas nesse ano Maria tinha uma enorme preocupação: todas as suas meias estavam rotas e já sem possibilidade de reparo, de tão remendadas. Jesus não poderia deixar o seu cartucho num sapato que não existia nem numa meia rota. Peço depois alguns ao Moisés, pensava. Mas não se sentia bem a pensar que seria Moisés o sacrificado. Não precisava de rebuçados. Afinal, era mais velha. Já era crescida. Até já ajudava a mãe a lavar a roupa dos patrões no rio e a estendê-la sobre os pastos secos. Estava decidida. Ela tinha o irmão e este teria os seus rebuçados. Também nunca os irmãos mais velhos lhe tinham tirado os seus rebuçados. Quem sabe, Jesus não lhos deixava num sítio novo? Ou mesmo equilibrado no buraco da meia?

Para isso rezava Maria, nesses últimos dias. Afinal, não seria a primeira vez que o Menino deixava prendas em sítios inesperados. A mãe tantas vezes lhe dizia que na casa do senhor Fidalgo, onde servia desde que tinha memória de gente, as prendas, que eram sempre caixas grandes cobertas de papel às cores, eram deixadas na lareira ou debaixo da árvore de Natal. Maria tentava imaginar ambos os cenários e os dois lhe pareciam tão absurdos quanto uma meia rota. Na lareira? No meio do lume? No seu caso só se fosse pela chaminé da casa da sua avó, que vivia na aldeia. Mas como é que Jesus passava com os cartuchinhos de rebuçados por entre os chouriços – quando havia dinheiro para engordar o porco –, que aguardavam no fumeiro? Ainda para mais porque Jesus não tinha roupas, era pequenino e andar pelo ar seria difícil. E debaixo de uma árvore de Natal? O que seria isso? A mãe explicava que era em bico e tinha luzes e Maria escancarava a boca. Assim adormecia à noite, com tamanhas preocupações. Os dias encurtavam-se e a ânsia aumentava. O Natal chegava amanhã e Maria já nem fome tinha. Nesse dia, foi com o pai à aldeia levar a farinha o que, para si, era já uma espécie de presente, mas dado pelo pai. No regresso, quase noite, o pai exclama entusiasmado, acordando-a dos seus pensamentos, que oscilavam ao ritmo dos solavancos do burrito, que agora, sem sacas nos alforges, transportava a pequena.

– Maria, olha a noguêra, Maria!

Maria olhou. Não queria acreditar. A lua já iluminava os parcos galhos da mirrada árvore, que na ponta tinham umas pequenas bolas que podiam ser de luz, brancas como neve, brancas como farinha, mas isso Maria não jura, ou apenas pingos de geada, mas isso Maria nem quis saber. Bolas claras, como os olhos dos lobos, como estrelas do céu dependuradas, que enfeitavam de ilusão aqueles magros braços de nogueira, que generosa tinha dado, literalmente, à luz muito antes do seu tempo. Era Natal! Era magia! Maria aprendeu nesse instante duas coisas: aprendeu que Jesus deixa os seus presentes em qualquer pedacinho de fé e aprendeu, finalmente, o que era uma árvore de Natal com luzes.

– Obrigada rio –, disse à noite em segredo, quando já tarde de excitação se deixou adormecer à porta do moinho, debaixo das luzes da sua nogueira de Natal. Afinal, a mãe enganara-se. A árvore de Natal não é em bico.

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