Maria Tartaruga semicerrou os olhos. Não era um tique, longe disso, nem visava qualquer propósito sexy. Sabia bem que qualquer tentativa sua nessa direção – da sensualidade e do chamamento do sexo oposto com maneirismos femininos –, era desastre garantido. Mais do que isso, era humilhante, para si e para quem assistisse. Era desprovida de toda e qualquer ferramenta de marketing sexual e absolutamente inapta no que aos princípios básicos do sex appeal diz respeito. Não que os desconhecesse, ela bem via os meneares de cabeça das suas amigas mais atrevidas, a forma como mexiam e remexiam no cabelo, sempre que perto de um macho que lhes agradava, os risinhos e as brincadeiras sempre prontas. Parecia que, de repente, o corpo delas ganhava uma autonomia e uma forma de estar e agir em tudo distinta daquela que lhes era natural no quotidiano, quando a vida segue em velocidade cruzeiro. Ela entendia bem todos esses mecanismos, mas sempre que os acionava – enfim, aquelas três vezes em que se sentiu solta o suficiente, para avançar por aí –, ela própria percebia o despropósito, a falta de jeito e os acidentes daí decorrentes. Certa vez, tentou balançar o cabelo de forma sensual e conseguiu apenas mergulhar quase a cabeça toda numa bandeja de cocktails e este era apenas um dos casos reproduzíveis, os restantes eram demasiado embaraçosos para que a própria os armazenasse na memória, de tão humilhantes e desastrados. Tinha isso bem resolvido na sua vida. Não tinha nascido com essa opção e nunca se dedicara a desenvolver esse extra. Há coisas que têm de vir de série, têm de ser naturais.

Posto tudo isto, sim, Maria semicerrava os olhos apenas porque se tinha esquecido de trazer os óculos de ver ao perto e, quase perdida na imensidão do corredor de cereais do hipermercado, não atinava com aquilo que pretendia, pelo que cerrava e semicerrava os olhos arritmicamente, numa espécie de abandono a uma qualquer síndrome de Tourette ou equiparado. Já bastante cansada de todo aquele exercício ocular, deu à vista uns segundos de descanso e olhou noutra direção e para longe, já que a distância lhe trazia acuidade visual. Talvez por ter estado a divertir-se ao pensar na sua falta de jeito para a sedução, achou que, junto da zona dos detergentes, do outro lado do corredor central do híper, julgou mesmo ver, acreditava, Anabela Lebre, precisamente a miúda mais popular e atrevida que conheceu na escola, nos anos do secundário, conhecida apenas por A.Lebre. As histórias que se contavam d’A.Lebre. Tantas e tão escabrosas que, na sua inocência de miúda-nada-popular, senão mesmo de miúda-menos-popular-da-escola, chegou a achar que apenas inventavam coisas desagradáveis sobre A.Lebre por ser mulher, desinibida e livre, adjetivos que, de resto, Maria Tartaruga sempre desejou associar à sua pessoa. Acima de tudo, liberdade, autonomia, capacidade para decidir tudo acerca da sua vida sem interferências alheias, presa que se sentia a tantos e tão castradores ditames da geografia social. Cedo percebeu que ser mulher não era simples e que viver e expressar abertamente a sexualidade sendo-se fêmea era deveras complexo no apertado espartilho machista de que a escola era apenas um dos primeiros recintos de manifestação. Nada precoce nas aventuras do coração, calmo e quedo até bastante tarde, Maria Tartaruga, não obstante, era uma miúda empática que sempre soubera colocar-se no lugar dos outros, o que, de resto, era até uma forma de viver outras vidas, de pensar coisas outras que não apenas aquelas que cruzavam o seu caminho direto. Embrenhava-se nos becos de outros argumentos e sentia que, a fim de mudar o paradigma, o que a beneficiaria a si própria, cabia-lhe sentir na pele o estigma que recaía sobre A.Lebre.

Curiosamente, A.Lebre não parecia experimentar as coisas da mesma forma. Talvez mais inteligente, ela usava o seu poder sexual com assertividade, conseguindo manipular o mundo em seu redor. Mas aquele era um pequeno pedaço de mundo, um quase nada. Uma migalha de universo que mal valia tal esforço. Cedo, todas elas seriam trucidadas pelo mundo real, engolidas pelo preconceito, moldadas as suas vidas por aquilo que os homens entendiam ser o seu espaço. Uma área bem reduzida, de resto. Por tudo isso que já sentia e pelo muito mais que adivinhava – os livros, a música e o cinema bem lho lembravam a cada segundo –, Maria Tartaruga sabia que a chave ao seu alcance para abrir outras portas, para entrar em zonas que outros achavam não lhe estar reservadas, era o conhecimento. Sabia-o tão bem! Foi precisamente esse o seu caminho, o do estudo, o da ciência. Mas aceitava que outras, como a precoce A.Lebre, com o seu corpo cheio de curvas e encantos femininos, se servisse do que tinha à mão (e ao pé, e ao corpo e…), para vingar e compreendia que A.Lebre não suspeitasse que aquilo que julgava estar a salvá-la era precisamente aquilo que a condenaria. Que o rapaz mais popular da escola, com quem A.Lebre namorava em regime de intermitência e escandaleira, para inveja de todo o universo feminino escolar, já na altura com carro para a passear e namorar, acabaria preso a uma seringa, que o porco do professor de Matemática, a quem ela prestou alguns ‘trabalhos de casa’ (forçados ou não, quem sabe?), afinal, não lhe daria a nota que lhe poderia salvar o ano, no derradeiro terceiro período, altura precisamente em que A.Lebre dava pela falta do seu segundo período consecutivo. Por sorte, as férias, um discreto aborto e novo recomeço em setembro.

 

Ainda que tivesse para si planos que não incluíam qualquer um desses dissabores de gente adulta, nem o seu corpo sentisse ainda as urgências do sexo, Maria Tartaruga, cujo apelido também não facilitava qualquer tipo de sucesso perante os imberbes possíveis interessados de então, manteve sempre uma admiração secreta por A.Lebre e a ânsia e velocidade com que esta absorvia aqueles que eram boa parte dos melhores anos de um corpo são. A juventude no seu auge, a desbravar caminho no corpo e coração de uma rapariga que não encontrava motivos para resistir aos seus próprios ímpetos. Uma alma selvagem, surda aos sons do preconceito, e com coragem para enfrentar a sordidez dos pequenos pensadores do universo. O que seria dela? Casada com um ricaço, seguramente, mais velho, talvez, que essas mulheres precoces são ambiciosas e prematuramente maduras, se assim se pode dizer, para endiabrarem a vida de um homem mais velho. Um futebolista, era outra das hipóteses. Qual quê! Talvez empresária, dada a sua lábia para levar avante um ou vários negócios em simultâneo. Uma loja de roupa, por certo. Sim, imaginava-a no mundo da moda, a servir de modelo – e que modelo, o seu corpo era mítico em todos os concelhos das redondezas –, às suas criações ou às de outros. Lendárias eram igualmente as suas minissaias. Pois eram! Há quanto tempo não pensava nisso. Não eram mais do que cachecóis, ou cintos com alguma ambição.

A.Lebre chegaria longe. Longe e depressa, pois nela percebia-se a impaciência, o ímpeto e a urgência de deixar tudo aquilo para trás, para mostrar ao mundo as suas capacidades, o seu corpo, o seu desejo de vingar. Era outra forma de preparar o futuro, entendia Maria Tartaruga. Ou a escola, ou a vida, ambas serviam as mulheres que a elas se soubessem agarrar com a tenacidade da dentada de um daqueles cães de raças perigosas, imunes à dor e ao sofrimento. Apenas morder até que do outro lado cedessem, jamais elas. Recordava tantas histórias de A.Lebre, a frequentadora mais assídua do escuso corredor nas traseiras do pavilhão desportivo da escola, que se distraiu e perdeu de vista aquele vulto que, ao longe, vigiando a zona dos detergentes, lhe parecera esse rosto do passado. Não se reteve com mais memórias de anos já tão distantes.

Precisava apenas de cereais, que não encontrava – acabou mesmo por desistir deles – e avançou em busca de lixívia, deveria ser bem mais fácil, da qual necessitava a pedido da sua nova empregada. Ainda não se conheciam, mas logo pelo telefone foi dizendo a Maria Tartaruga tudo aquilo de que necessitava: luvas, amoniacal e muita lixívia. Como médica legista, Maria Tartaruga tinha rido para dentro ao ouvir aquela enumeração. Parecia que a empregada se preparava para fazer desaparecer cadáveres e limpar a cena do crime, a área onde decorrera um múltiplo assassínio ou coisa do género, fazendo desaparecer potenciais provas e qualquer resto de vestígio ou indício que pudesse denunciar o seu ou os seus autores. Trabalhando diretamente com alguns departamentos da judiciária, estava habituada a olhar para as coisas com olhos de detetive e a interpretar cenas corriqueiras do quotidiano numa perspetiva policial. Podiam faltar os cereais, mas lá encontraria um garrafão gigante de lixívia pura ou equiparado, amoniacal e anticalcário, é verdade, também seria preciso isso, anticalcário. Seria de ver mal ao perto que não daria conta de calcário nos sanitários? Onde teria a mulher visto calcário e sujidade entranhada na sua casa ao ponto de exigir tudo isto logo de rompante? Quem lhe mostrou a casa tinha sido o marido de Maria Tartaruga, um conceituado cirurgião, com um currículo internacional, mas que, no que à vida doméstica dizia respeito não passava de um cientista meio louco. Teria ele entendido tudo bem? Ele garantiu que sim, que tinha até tomado notas, para que ela não lhe colocasse essa mesma questão. Sempre achou que Dora, a antiga empregada limpava às mil maravilhas, mas, enfim, a verdade é que nem Maria nem o marido passavam muito tempo em casa e aquele que passavam era dedicado à investigação e à leitura e não à caça de calcário ou manchas do que quer que fosse. Tranquilizava-a o facto de o marido ter achado que ela era uma mulher despachada. Despachada e melosa, meio dengosa. Como assim? Questionou logo Maria, já interessada naquele possível enredo doméstico? Ele não sabia explicar bem, mas achou que a mulher conduzira a conversa em direção a subentendidos brejeiros de gosto abaixo de duvidoso, que a sua narrativa lhe lembrava refrões de canções pimba e que agia como se fosse uma qualquer imperatriz da sedução. O que aquilo os divertiu. E é gira? ‘Buena’?

O marido disse-lhe que não iria estragar-lhe a surpresa, ela veria por si própria. Pois bem, aguardaria, e não seria preciso muito já que a substituta da doce Dora – que abandonou chorosa a sua casa, para se ir dedicar aos netos, poupando aos filhos dinheiro de creches e amas – começaria já nessa semana.

Que maçada ter-se esquecido dos óculos no carro, ou teria sido no avião (acabava de chegar de uma viagem de trabalho, um colóquio onde tinha sido oradora principal)? Isso é que era grave, pois a confirmar-se, acabava de perder o par de óculos suplente. Sorriu. Entre ela e o marido, qual dos dois seria mais despistado? O pior é que não conseguia ler as letras pequenas e perceber qual a percentagem de cloro da lixívia. Paciência, levaria uma qualquer e a empregada que se arranjasse até que ela voltasse a ver bem ao perto. Devia ser uma empertigada das limpezas e das arrumações. Isso não era bom, já que Maria e Manel, o marido, viviam num confortável caos de pastas, livros, anotações espalhadas, lembretes e outras ‘desarrumações’ habilmente catalogadas com centenas de post-its fluorescentes que pareciam iluminar aleatoriamente qualquer zona da casa.

E se a mulher desatasse a esconder tudo em sítios estúpidos como dossiers e gavetas e armários… Nem queria pensar nisso. Lá teria de tentar convencer a adorável Dora a voltar. Ela que levasse os netos. Estava a sentir-se aflita. Na sua cabeça tudo era ordem, tudo era tabelado, engavetado e organizado, mas em seu redor sentia-se perdida se não estivesse tudo sob os seus olhos ainda que em modo errático. Ela que usasse lixívia, amoniacal e anticalcário no que quisesse, mas que fosse gentil com o pó e os papéis. Nada se podia perder numa qualquer ordem estranha. A investigação não se compadecia com arrumações domésticas e o seu cérebro, por certo, não sobreviveria ao pânico da ordem.

Maria Tartaruga estava de saída quando ouviu uma chave na porta. Mas que raio, o marido ainda estava em casa, quem… Era o primeiro dia da nova empregada, lembrou-se de repente. Ainda bem, assim ainda se conheceriam. Precipitou-se pelos corredores, a fim de chegar à entrada antes da empregada e dar um ar profissional e atento. Só em alturas como essa é que percebia como a casa era grande. Pobre mulher, teria muito que limpar. Já que não conseguiria chegar ao mesmo tempo, abrandou o passo. Não queria parecer uma miúda excitada por conhecer um novo professor de ciências. Colocou uma postura séria e inquisidora. Desceu as escadas calmamente e dirigiu-se para a cozinha, onde percebeu que a mulher arrumava as suas coisas. Como testemunhou depois, a mala e uma lancheira, com o almoço, seguramente. Era previdente, gostava disso. E tinha uma garrafa térmica, também traria café? Dir-lhe-ia que podia beber quanto café quisesse lá em casa, não precisava de se preocupar com sumos, café, chá ou mesmo comida. Se bem que a comida que existia em casa era quase toda crua, já que a culinária não era a alquimia mais apreciada lá em casa. Tanto Maria como Manel, não nutriam particular afeto pelos tachos.

A mulher já tinha corrido as amplas portas de vidro que davam para o jardim, desnudando toda uma frente da casa… Arejar a casa era importante, sim, concordava, desde que a papelada não voasse. Avisá-la-ia acerca desse risco. De costas para si e ainda sem notar a sua presença ou conseguir ouvir os seus passos, até porque estava de ténis, a mulher falava já com os cães. Isso também era bom, gostava de animais. Era uma matrona, excesso de peso nas ancas e escassez de tecido na roupa, o que resultava em bolas de carne a avistarem-se um pouco por todo o lado. A minissaia era igualmente escusada, não parecia ter o corpo indicado para mostrar tanta pele. Estava a ser preconceituosa, que mal tinha.

Mas, na verdade, tinha mal, porque era um pouco patético. Poderia ter uma muito melhor figura se não mostrasse tantos pneus desnudados. Era como ver o rabo aos homens gordos quando se agacham… Não era agradável, só isso. Colocou os óculos. O cabelo denunciava um arco-íris de diversas colorações de diferentes tons sobrepostas. Outra desgraça. Coitada! Tal como ela teria tempo zero para esses disparates de cabeleireiros, manicuras, depilações… Bem vistas as coisas, as mulheres necessitavam de um dia extra por semana só para fazer frente a essas fúteis exigências sociais das quais, mais uma vez, os homens estavam dispensados. Pensou que, se quisesse ser mesmo mazinha, ou se não estivesse à espera da chegada da nova empregada, diria que uma pobre prostituta de rua tinha aterrado no seu jardim. Tudo o que aquele corpo denunciava era decadência, excesso de uso, diria mesmo. Uma vida de treta.

A mulher vira-se, finalmente. Encontram-se de frente. Olhos nos óculos. Cumprimentam-se. Maria meio paralisada, nunca teve muito jeito para primeiros encontros ou qualquer tipo de sociabilização, fora dos seus ambientes de estudo e trabalho. Mas não era tudo. Sentia-se colada ao chão porque à sua frente tinha a mulher que achara ver no hipermercado e essa mulher era mesmo A.Lebre. Emocionou-se. Bastante. Saiu dali a correr e pensou que, de verdade, de verdade, as mulheres têm mesmo poucas hipóteses de vingar. A própria biologia trata de castigar, de forma mais cruel, uma vida mais desregrada num corpo de mulher. O seu único consolo era que A.Lebre jamais se recordaria de si, a nerd, marrona, caixa de óculos, em quem jamais terá reparado durante todo o secundário. Poupá-la-ia a isso. Inventaria outra escola, caso o assunto algum dia chegasse a ser assunto.

Moral da história:

Uma mulher verdadeiramente livre paga um preço alto pela sua ‘leviandade’. Porém, e ainda que injustamente caro, depois de pago qualquer artigo é nosso. Ergam a cabeça e sigam em frente, depressa ou devagar… pouco importa!

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