Amesterdão, a Mulher da Minha Vida e a Canção Mais Gay do Planeta

Vou contar-vos como, desgraçadamente, perdi a mulher da minha vida, por causa da canção mais gay do planeta. E não, não é ‘I Will Survive’, de Gloria Gaynor. Isto tudo somado a um estúpido mal-entendido, um vídeo viral e à minha habitual falta de intuição ou, como lhe chamo, avaria no radar principal. O pior de tudo é que apenas o descobri agora, anos mais tarde, quando tudo já estava irremediavelmente comprometido, até mesmo aquilo que julguei um dia sentir por aquela mulher. Mentira. Sei que se houvesse a menor chance, ainda correria atrás dela, com as mesmas certezas com que corri naquele primeiro dia em que a vi. Sim. Tudo o resto pode ser invenção da memória, uma construção mal-amanhada do guião do destino, que uma mão qualquer pode voltar a rescrever, mas aquilo que sinto ao pensar nela, isso não mudou. Quando muito foi exacerbado pelo tempo passado a imaginar como poderia ter sido. Claro que a manifesta ausência de interesse da parte dela terá, seguramente, arrefecido o caldeirão das minhas emoções e sentimentos, nem o mais apaixonado dos homens aguenta por muito tempo o desprezo de uma mulher, mas o caldo manteve-se sempre em banho-maria.

Ontem, um feliz acaso, colocou-a de novo à minha frente, numa mesa de pequeno-almoço em Amesterdão, onde nos encontrámos, mais uma vez, lamentavelmente no meu último dia de estada na Holanda, após 15 dias hospedados no mesmíssimo hotel, sem que nunca nos tivéssemos cruzado antes. Na minha vida, Deus é uma figura inacreditavelmente ausente. Logo eu, que até sinto em mim uma certa predisposição para acreditar. Para a fé. A existir, Deus simplesmente faz vista grossa e limita-se a olhar invariavelmente para o lado. Sinto sempre que estive a apenas um número de fazer Bingo, mas sem nunca, sequer, alinhavar uma linha.

Genuinamente feliz por me reencontrar, após largos anos incontactáveis – da minha parte nem vale a pena falar do nervosismo e entusiasmo, crente ainda de que estava ali a minha segunda oportunidade de conseguir o número que me faltava para levar o prémio para casa –, ela tudo quis saber sobre mim, desde a última vez que estivemos juntos. Lá fiz um rascunho da minha vida profissional, dedicada à escrita desde sempre, como ela bem sabia, e sobre a qual, na verdade, só tenho motivos de orgulho pessoal. Porém, porque desprovido que sou de qualquer tipo de vaidade, lá dei por mim a fazer o que sempre faço: baixar a fasquia e a omitir glórias e prémios, um dos quais me levara precisamente a Amesterdão, cidade contemplada num preambulo de três meses por alguns países europeus. Dava sempre a mais pobre versão de mim mesmo, como se receasse que o ‘comprador’ recuasse com medo do valor de um artigo de melhor qualidade, cujo preço, na verdade, nunca era mostrado. Nunca consegui mudar isso na minha personalidade, não obstante a dedicação que sempre dispensei à psicanálise e o efeito meta-reflexivo que a escrita proporciona também a esse nível, ao de me pensar a mim mesmo, ao de melhor me compreender. Não admira que Deus vire a cara, pois se tenho todas as ferramentas e não as sei utilizar…

 

Resolvida a parte profissional, de ambas as partes – ela continua a lecionar Português, agora na Holanda –, lá vieram as QFA – Questions Frequently Asked – da praxe. Com um novelo no estômago, e os olhos presos à boca sedutora daquela mulher que ainda amo, ansioso por ouvir a resposta, lá perguntei se estava com alguém. Como se fosse possível aquela mulher atraente, inteligente e sedutora não ter encontrado alguém disposto a dar-lhe o sol, o sal e o lado sul de uma vida de sonho. Pois ela tinha conseguido tudo isso. Não apenas alguém, mas a felicidade ao lado desse alguém. Filhos. Três. Todos do mesmo pai, um holandês que a ama perdidamente, que por ela cometeu todas as loucuras e mais meia dúzia de seguida, e que percebi ser riquíssimo. Não que ela o dissesse, mas não precisou. Uma professora, mesmo universitária, mesmo na Holanda, não ganharia o suficiente para tudo aquilo que percebi. Uma ilha, algures no Pacífico Sul foi apenas uma das coisas que deduzi fazerem parte do património familiar. O que justificava ainda a permanência de toda a sua família naquele luxuoso hotel de todas as estrelas – uma inédita estravagância da minha editora holandesa –, transformado em segunda residência, enquanto não terminavam as obras na nova moradia que o marido, conceituado arquiteto de obras que incluíam aeroportos e outras alarvidades das obras públicas mundiais, queria ter pronta para lhe oferecer dentro de cinco meses, quando completariam dez anos de casamento. Sim. Um pesadelo. Tudo atirado de rajada à cara de um homem apaixonado. Pior. Não tardou a surgir o marido, um tipo com boa figura, alto, absolutamente descontraído e simpático, e as três crianças louras de olhos azuis mais encantadoras que alguma vez vi juntas. Se Deus existe, ele existe naquela família. A família dela punha os Von Trapp da vida num cantinho escuro da existência e da estética.

Senti-me a personagem pateta de uma comédia de qualidade duvidosa, pautada pela inadmissível reunião de todos os clichés românticos numa única película. Ela tinha a família mais encantadora, educada e civilizada em que jamais coloquei os olhos e os ouvidos. Tudo aquilo já me começava a irritar. Apetecia-me começar a atirar ovos mexidos e tiras de bacon, à cara e roupa limpa de toda aquela gente quando ela faz a pergunta. Desculpem, mas tenho de recuperar o fôlego, pois ainda a consigo ouvir com limpidez na minha mente magoada:

– E tu? Conta-me tudo. Sempre deu certo entre ti e o Francisco?

Juro que achei que ela estava a falar para alguém atrás de mim que eu não tinha visto ainda. Virei-me. Devo ter feito a mais estranha e estapafúrdia das expressões, pelo que ela tenta acalmar-me, com a única frase que eu não podia ouvir, mas que quase adivinhava.

– Não te preocupes, sempre soube que eras gay. Nem sei porque nunca te abriste comigo sobre o assunto, mas se te ofendo, não te preocupes, falamos de outra coisa.

O que era falar de outra coisa quando um homem apaixonado, que acaba de perceber que não há second life nem ‘Querido Mudei a Casa’ que salve o seu casebre afetivo da mais pura miséria e orfandade amorosa, ainda é confundido com uma troca de interesse sexual? O que falta? Dizerem-lhe que, por engano, lhe removeram o pénis, na véspera, durante aqueles exames de rotina oftalmológica? Quase levei a mão à braguilha, mas não conseguia mesmo que o tentasse, pois estava paralisado. Findo um tempo que me pareceu absolutamente desadequado, quase desarticulado perante a fluidez de toda a conversa, consigo dizer:

 

– Qual Francisco?

Despertei um pouco mais daquele torpor e acrescentei de rompante, receoso de perder o timing, ciente que estava que Deus não mexeria um pelo do braço esquerdo para me auxiliar.

– Mas eu não sou gay!! Nunca. De onde vem isso? Sempre achaste que eu era gay? Mas como?

– Não brinques. Mas… Desculpa. Pela tua cara, é-me agora óbvio, que disse um enorme disparate. Espero que me desculpes. Nem sei… Sempre pensei que… Mas, então o que fazias como acompanhante do Francisco naquele seminário gay?

– Mas qual seminário gay? Do que falas?

– Aquele em que nos conhecemos. Talvez não te recordes, já foi, de facto, há imenso tempo. Eu era uma das intérpretes, aquele era um mega encontro europeu de autoajuda, que visava a comunidade gay e, quer dizer, tu foste apresentado perante as centenas de participantes como o ‘parceiro’ do Francisco, um dos promotores do evento e que era um homossexual assumido, com um enorme e meritório trabalho feito na conquista de direitos da comunidade gay portuguesa. Desculpa, mas não fui a única a compreendê-lo daquela maneira, na altura. Julgo mesmo que à exceção de alguns tradutores e jornalistas, todos os presentes eram homossexuais. Homens e mulheres.

– Mas eu passei o tempo todo atrás de ti, nem isso percebeste?

– Sim, mas não o entendi da maneira que agora percebo que o fizeste. Achei apenas que estavas aborrecido e que gostavas da minha companhia… Não sei.

– Quer dizer que de todas as vezes que nos encontrámos depois disso, sempre saíste comigo como sendo o teu ‘amigo gay’?

– Percebo que te vou magoar, mas, sim. Para mim, foste sempre homossexual até há uns minutos.

– Mas, pareço-te gay?

– Não há uma maneira de se ser gay, quer dizer, há estereótipos, mas muita gente não se rege por eles. Felizmente! São apenas homens ou mulheres que gostam de outros homens ou mulheres, sem plumas e gritinhos de um lado e sem camisola de manga cava e cuspidelas para o chão do outro. Somos todos pessoas, não rotulo pessoas pela maneira de agir, de andar, de vestir, mas… O que fazias tu com o Francisco?

– O Francisco é gay? Aquilo era um seminário gay?

– Mas onde é que tu tens andado? Em que planeta vives? Aquilo era um seminário de autoajuda exclusivamente desenhado para a comunidade homossexual. Achaste que era um encontro da tupperware?

– Eu encontrei o Francisco na internet. Estava, na altura, a escrever o ‘Guru de Marraquexe’ e o homem era visto como o rei da autoajuda e entrei em contacto com ele para saber se o poderia acompanhar durante algumas das suas apresentações, apenas para apanhar os tiques de linguagem, o tipo de abordagem, para tentar perceber a aura, o carisma, se quisermos, dos indivíduos que, de alguma forma, centenas ou milhares de outras pessoas seguem e ouvem religiosamente. Nunca percebi a vertente gay, nem do Francisco nem de qualquer um dos encontros que presenciei. Mesmo agora, olhando para trás, nada me diz que aquilo era apenas para homossexuais.

– A homossexualidade não era tema, apenas tinha sido organizada em torno das comunidades gay. O Francisco é um espertalhão. Segmentando o mercado por fatias, de repente tem o mercado todo, porque as pessoas, sentindo ter mais do que uma única afinidade com o tema ou orador ou restante plateia, sente-se mais compelida a participar. Ele costuma reunir grupos de interesse, profissões… O homem vende-se e sabe como fazê-lo. Como é que não percebeste? E o teu livro, sabe-lo bem, fez um enorme sucesso junto da comunidade gay, pois toda a gente do meio te reconhecia. Repara, o vídeo com aquele final alucinante tornou-se viral na comunidade gay e não só. Foi visto em todo o planeta um zilião de vezes. Procura vídeos de apoio à causa gay e vais dar com ele. E lá estás tu, no centro do palco, abraçado àquela corus line de fervorosos adeptos internacionais da causa LGBT a cantar a canção mais gay do planeta, já traduzida para qualquer língua viva.

– Qual canção gay? Não foi um tema do Variações?

– Exato. Chama-se ‘Gelado de Verão’ e cada um interpreta a coisa à sua maneira.

Ela parecia já divertida com a minha ingenuidade, ou, pior, falta de inteligência e tato, mas eu estava cada vez mais ‘petrificado’ – agora, sim, Gloria Gaynor vinha a calhar –, e não resisti a espremer um pouco mais a borbulha daquela infeção que me minava o órgão cardíaco.

– Quer dizer que… Não leves a mal, mas… Se não to perguntar agora, jamais será oportuno. Não sei sequer se voltaremos a encontrar-nos…

– Claro que sim, agora já sabemos um do outro…

– Por favor, não me interrompas, senão ainda perco a coragem.

– Desculpa, continua.

– Achas que, se, noutras circunstâncias, ou seja, se não tivesses partido do princípio de que eu era gay – ainda me custa dizer isto, tu que também és tradutora não interpretes mal, não discrimino quem quer que seja, exceto eu e a minha habitual cegueira, nem sei como sou escritor tão incapaz que sou de ler o mundo –, mas, julgas que, com outro background, num outro contexto, terias olhado para mim de forma diferente? Eu teria alguma oportunidade contigo? É isso que preciso de saber, pois tu és o grande ‘Se’ da minha vida. Preferia que não o soubesses, mais ainda agora que conheço a tua felicidade. Preciso que sejas sincera.

– Claro que sim. Terias todas as oportunidades. Nem preciso de pensar. Estive um ano apaixonada por ti, mesmo sabendo da impossibilidade ou talvez por causa dela, sabes que por vezes sentimo-nos atraídos pela impossibilidade não pela possibilidade. É mais seguro. Depois, conheci o Adriaan…

Estaria ela a mentir para que eu me sentisse melhor, ou, pelo menos não tão pessimamente? Não. Impossível. Só podia estar a ser sincera. Doía muito mais assim do que se me tivesse dito que jamais poderia haver algo entre nós. Mesmo que tivesse calculado a resposta… A não ser que, depois de me ter chamado gay, e me tivesse revelado que, sem o saber, eu era uma espécie de mentor gay de todo o universo homossexual do planeta, ela achasse que a resposta que me deu fosse a mais acertada. A menos dolorosa. Não sabia o que pensar, a não ser que o mundo tinha acabado. Simplesmente acabado. Até já via a placa a assinalar: Fim do Mundo, zero quilómetros.

Nesse momento, voltou-me a vontade de atirar ovos mexidos e tiras de bancon, mas num outro alvo: eu, aquele que poderia ter sido o ‘gelado de verão’ e de todas as restantes estações do ano, o gelado de toda a vida da mulher mais espetacular do planeta. A única mulher que amara daquela maneira. Eu, aquele que não vê. Eu, aquele que Deus traz ao colo e se queixa dos balanços e da velocidade do passo. Eu, o ‘gelado de verão’. Ó, Gloria, Will I survive?

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1 Comment

  1. Muito bom! No seguimento de todos os outros contos maravilhosos. Continue…:) essa estrada que percorre irá leva-la onde você quiser.

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