O Flautista de Hamelin, O Hacker e Um Caso de Falta de Escrúpulos e Outros Crimes Hediondos

O anúncio era claro e irresistível e andava, há semanas, a circular na internet, por tudo quanto era sítio da especialidade, sendo desmesuradamente postado e replicado nas redes sociais de gente daquele restrito e secreto meio. “Procura-se génio em programação especializado em vírus e firewalls. Cem milhões de euros a pronto, para trabalho pontual.” Inicialmente, aquilo mais não parecia do que um vírus, pelo que todos receavam abrir a mensagem, menos ainda dar-lhe resposta, segundo algumas encriptadas indicações, nas quais os mais leigos nem sequer reparavam. Para os entendedores, a mensagem era clara: procuravam um bom hacker. Ora, quem se acusaria de o ser, respondendo àquela inusitada, mas bem choruda, proposta? Podia ser um isco, uma rasteira da própria secção da Polícia Judiciária, de combate a crimes informáticos. Quem se denunciaria? Quem colocaria o primeiro dedo no ar? Cem milhões? Só poderiam querer entrar nos sistemas defensivos de uma NASA ou Pentágono, violar as barreiras protetoras do governo russo ou de um qualquer Julian Assange ou Edward Snowden da vida. A ser verdade, estava-se perante caça grossa. Nada de lebres ou perdizes. Nada de montarias ao javali. Nada de caça clandestina em África. Aquilo era caça ao homem.

Músico de profissão, insuspeito hacker por paixão, com milhares de alias e um curriculum imbatível, nas lides da pirataria informática e da espionagem cibernética, X – chamemos-lhe assim, já que outra coisa não lhe poderemos chamar sob pena de desaparecimento eterno à face da Terra –, andava há dias a matutar no assunto. Dizem que o dinheiro fala mais alto. Nem sempre será assim, mas quem pode virar a cara à possibilidade, que seja, de ganhar cem milhões de euros? Euros! Não são dólares nem bitcoins, ou ienes, são euros. Facilmente convertidos em ouro… Um sonho, mesmo para ricos. X não era rico, menos ainda segundo os seus exigentes padrões, mas também estava a milhas de distância da pobreza ou do simples ‘remediado’. Vivia bem, mas preferiria viver ‘em bem’, o que é diferente do que um mero capricho semântico. Cem milhões poderiam significar que o seu ‘bem’ de vida passasse, finalmente, a ser antecedido por esse quimérico ‘em’. Tinha consciência das suas capacidades e dos múltiplos recursos que possuía na esfera virtual. Achava mesmo que tinha nascido mais para ser um errante aventureiro no universo virtual, do que um exímio flautista, que também o era. X, já se percebeu, não tinha pendor para a humildade, mas a verdade é que há anos que era o mais bem-sucedido hacker do mundo, sem que nunca tivesse sido descoberto ou sem que houvesse o menor indício de qual era a sua verdadeira identidade. Com tantas novas gerações de iluminados e prodígios da informática, ele mantinha-se inderrotável. Algum mérito tinha de dar a si próprio, e X dava.

Não menor sucesso tinha alcançado na sua outra vida, a oficial, a pública. Era flautista numa das melhores e mais conceituadas orquestras da capital, para não dizer do país, o que se traduzia em êxitos e honrarias várias e – não menos importante para si – numa vida de itinerância que lhe era muito conveniente. Inclusive, para transportar informação em qualquer fronteira. Claro que revistam as malas dos músicos, mesmo de grandes orquestras, mas também é fácil ocultar microchips e pens – X, da velha guarda, não se sentia particularmente atraído pela ‘nuvem’, sítio que, como ninguém, sabia ser igualmente violável –no meio dos instrumentos sem que um funcionário aduaneiro perceba, sequer, aquilo que está a ver.

X sempre se sentira imensamente feliz com esta vida dupla. Uma, de total exposição, incluindo mediática – entre concertos, concursos e prémios –, outra, vivida no submundo, numa espécie de BackOffice da vida, cave da realidade, alter ego de si próprio, submarino do seu mais profundo eu. Era um paraíso que tinha construído à sua imagem e medida. O lado mais negativo é que vivia numa espécie de sobressalto permanente, num desconforto interior, dominado por uma desconfiança persistente. Mais do que perscrutar, X auscultava cada personagem da sua vida como um médico colado ao pulmão de um paciente, tentando dar sentido a cada sopro, a cada batida cardíaca, a cada inspiração, a cada ruído suspeito na cavidade toráxica. Melhor ainda: como ladrão expedito em torno de um cofre cujo código pretende descobrir. A menor informação, já é informativa, desde que bem lida e interpretada. Toda esta acuidade e receio latente tinham uma óbvia consequência. X, não obstante um certo estrelato dentro dos meios mais eruditos – música clássica é ainda de e para elites –, vivia sempre na semiobscuridade, o que resultava numa visível solidão.

Esta, como é óbvio, ia bem com a sua personalidade, a sua maneira de estar e de viver. Ninguém escolhe música clássica ou os meandros da virtualidade informática se tiver um perfil extrovertido e um género boémio de se entregar à vida. Gostava de palco, é certo e sabido, mas discreto. X não era exceção. Sabia bem que jamais poderia revelar a quem quer que fosse a sua outra atividade. A sua outra vida. Nem a amigos, nem a amantes ou mesmo a uma possível mulher. Toda a gente tem um melhor amigo ou um momento de fraqueza. Todas as relações têm brechas por onde se pode esvair confiança e fidelidade. Umas são conscientes, outras são abertas pelo tempo e a normal erosão e polimento dos afetos. Ciente disso, tudo guardava para si. Como um bom avarento. Por falar em avareza, aqueles milhões todos poderiam fazê-lo baixar um pouco a guarda ou até permitir-lhe pensar numa reforma antecipada. Dedicar-se-ia, então, apenas à música, com possíveis e esporádicos trabalhitos clandestinos aqui e ali, mais ali do que aqui, para não deitar tudo a perder, e poderia até partir em busca do amor, de uma família… Tudo ficaria em aberto, se tal quantia entrasse nos seus cofres.

Antes de responder, mas já consciente de que o faria, X reinventou-se virtualmente. Criou uma personagem fantasma, filha de algoritmos mágicos. Talvez por ser flautista, e num rasgo de afetividade, chamou-lhe Hamelin. Disfarçou-a e camuflou-a, inventou-lhe uma vida e um espectro, que dariam a sensação de realidade a quem a investigasse. Rodeou-a de labirintos e becos sem saída, para os mais persistentes. Quando se deu por satisfeito, voltou a encriptar tudo mais umas quantas vezes e, por fim, enviou uma mensagem, mostrando-se disponível para saber mais sobre o pretendido naquele trabalho, pelo qual alguém ou alguma entidade estaria disposta a pagar cem milhões de euros. Criaram-se senhas e contrassenhas. Ele percebeu que entraram e investigaram o seu computador, aquele que ele tinha preparado para ser ‘revistado’. Ele acedeu ao dos outros. Em menos de nada, até ‘olhos’ conseguiu instalar no terminal que o contactava.

Sabia que o assunto teria de ser sério, para não dizer desonesto, mas jamais achou que acabaria na sordidez do mundo da pornografia infantil. O que lhe passou pelos olhos, mais do que enojá-lo, entristeceu-o, enraiveceu-o, dilacerou-o. O pretendido era a criação de uma barreira de proteção inexpugnável, que permitisse criar, a adultos perversos, um largo e abrangente ‘recreio’ onde pudessem ‘navegar’ sem ondas ou tempestades vindas do exterior. Um ambiente protegido, por onde circulassem todo o género de crimes e atentados aos direitos humanos. Uma cerca virtual para um esterco de pedófilos.

Uma imagem, em especial, gravou-se-lhe na memória. Nem sabe bem porquê essa em especial, no meio de tantas e tantas outras tenebrosas. Era a imagem de uma menina. Faziam-lhe as coisas mais horrendas, enquanto ela simplesmente fixava a câmara. Como se desejasse que do outro lado, alguém pudesse ler o seu pedido de socorro e avançar em seu auxílio. X leu essa mensagem nos olhos da criança, viu a lágrima que teimava em não cair no canto escuro de um dos olhos negros daquela criança. Olhou-a como se fosse sua, o rosto era-lhe até familiar. Tinha-se afeiçoado àquele rosto de dor e súplica.

X não é perfeito, Hamelin tampouco, mas nenhum deles, se é que os podemos dicotomizar, é desprovido de moral. X lutou com a sua consciência. Momentos havia em que aqueles cem milhões pesavam tanto ou mais do que o prazer de desmascarar toda aquela gente. Gente onde se incluía todo o tipo de pessoa, de curriculum, de profissão, de classe social, de extrato económico… Era um universo em que todos os tipos e géneros de humanos estavam representados. Nomes mais ou menos sonantes, novos, velhos, criminosos, beatos, homens, mulheres… Parecia um auto de Gil Vicente, com todas as personagens-tipo de que se recordem. Uma barca do Inferno. Uma rede a nível mundial, cujos tentáculos chegavam a todos os pontos cardeais. Todos! Do Vaticano à Mongólia. Do Burquina Faso ao Arzebeijão. Sentiu-se um verdadeiro hipócrita. A situação de onde julgava os outros era caricata. Um criminoso que fazia considerações morais sobre outros criminosos e os seus crimes. Entendia, todavia, que havia hierarquizações, mesmo na atividade criminal. Crianças e animais eram sagrados.

Qualquer minoria desfavorecida e discriminada era intocável. Tinham de ser tratados com cuidados cirúrgicos, com atenções extra, com respeito múltiplo, por cúmulo de razões. Entre adultos, era maior o número de coisas possíveis e consentidas. Repugnava-o a sordidez de quem abusava de crianças ou animais. De quem secundarizava a segurança, bem-estar e felicidade destes, em função dos seus desejos depravados. Pornografia, sim. Desde que entre adultos e consentida, claro está. Crianças? Não podia ficar simplesmente indiferente a tudo aquilo. Mas cem milhões calavam-lhe tantas razões que o dilema estava difícil. O ideal, seria conseguir ambas as coisas: os milhões e desmascarar aquela rede infame. Não esquecera ainda o rosto daquela menina que fixava a câmara, solicitando auxílio. Não esquecia os seus profundos olhos pretos.

Demorou, mas X tinha-se finalmente decidido. Preparou um vasto dossier que estava prestes a colocar nos servidores dos serviços secretos e da Judiciária, em simultâneo, o qual dava acesso aos investigadores a todo aquele mundo de sordidez, com pormenores e provas concretas e incriminatórias, que facilmente seriam aceites em tribunal. De repente, vindo do nada, ou da sua ganância, estava, de novo, na dúvida. Nisto, muda de ideias. Era mais simples. Mais prático. Muito melhor. Faria vista grossa. Mudou de ideias. Garantiria a vinda do dinheiro e, depois, então, faria isso. Claro que temia ser descoberto, que fosse revelada a sua identidade. Um caso destes levaria a que muito dinheiro circulasse, bem mais do que cem milhões, em busca do hacker. Do delator. Do criminoso que aponta o dedo a outra criminoso. Quer por parte dos maus, como dos bons. O que mais abominava e aquilo que mais temia não era ser apanhado e ficar relacionado a um crime informático, mas ao universo da pedofilia, o mais recriminável dos crimes. Pior do que homicídio, é condenar à morte um vivo. É decretar uma morte diária a alguém que para sempre viverá dentro do trauma. Uma criança traumatizada e abusada, seja de que forma for, mais ainda sexualmente, é um ser incompleto. Uma promessa que jamais se cumprirá. Uma folha em branco que mais não permitirá do que horrendos gatafunhos. Mesmo que se entendesse qual tinha sido o seu papel – o de indivíduo que, à distância, e sem envolvimento outro, tinha ajudado a camuflar todo um planeta de misérias dentro da esfera virtual –, ainda assim, ele seria sempre mais um dentro daquele escândalo. Era inconcebível.

Não obstante o risco – entre prisão efetiva e humilhação havia um vasto território de horrores pelo qual poderia vir a passar –, X já se tinha decidido. Correria todos os riscos. Tinha tomado a sua posição final. Ou tudo, ou nada. Primeiro, ajudaria os criminosos, depois, incriminaria todos eles, sem exceção. Eram dois trabalhos hercúleos, mas até já sentia o nervoso miudinho de quem está prestes a deliciar-se com algo que o faz feliz. Um novo puzzle por concluir. Um novo jogo para ganhar. Um novo monte para escalar. Submergiu em algoritmos durante uma eternidade, finda a qual exigiu o pagamento na íntegra. Por medida de segurança, tinha colocado a imposição de que o pagamento fosse uma troca direta e única. A coisa pela coisa. Num único momento. Houve reticências. Queriam comprovar a segurança do serviço. Queriam garantias. Queriam e queriam, mas era tarde demais. X já sabia tudo, logo após o primeiro contacto. Mais do que eles achavam possível. Não havia volta a dar. Seria como Hemelin determinara. X estava ciente de que esse tipo de troca era um risco para ambos os lados. X pretendia que aqueles miseráveis pagassem por tudo aquilo que fizeram, se é que isso é possível. Ratos de esgoto. Teriam de pagar tudo o que havia para pagar: os seus cem milhões e outros tantos anos de cadeia efetiva. Pensou, pela primeira vez, que teria de fugir para o resto da sua vida. Que aquela era uma espécie de pacto com o Diabo. Que estava a vender a sua paz. Eram criminosos com dinheiro e múltiplos recursos. Tudo fariam, a partir do momento em que o trabalho estivesse concluído, para o matar. Para o eliminar.

X tinha razão. Tinha razão em tanta coisa. Nem ele próprio estava ciente de quão certo estava. Tinha razão em relação a todos os seus receios. Tinha razão ao recear pela própria vida, ao pensar que o mandariam matar logo depois de concluído o trabalho. Gente daquela, numa rede mundial organizada, jamais se daria ao luxo de deixar testemunhas, ou casos ‘pendentes’. Mas X acreditava que conseguiria fugir, que jamais associariam X a Hamelin. Que estava protegido pela sua enorme e indestrutível Muralha da China, como chamava ao seu complexo e sofisticado sistema de segurança. Além de que deixara algumas ‘armadilhas’ em vários locais, as quais, mesmo à distância, com meia dúzia de passes de mágica, acabariam por fazer explodir tudo aquilo no colo dos criminosos, acionando pastas com todos os rostos e nomes, cuja veracidade conseguiu apurar. E eram  milhares em todo o mundo. Eles que tentassem. Veriam como era.

Eles não se limitaram a tentar. Eles fizeram-no. X foi inexplicavelmente encontrado morto em casa. Ensaiava ‘A Flauta Mágica’, de Mozart. A autópsia e peritagens ao apartamento dariam como provado que tinha sido envenenado com uma substância química altamente tóxica, que tinha sido colocada no porta-lábios da sua flauta. Não apenas sabiam quem era Hamelin, como tinham chegado a X. Estavam bem informados.

X já não tinha como saber como o conseguiram apanhar tão rapidamente. Não tinha como descobrir que tinha tido um deslize, há uns anos. Que tinha cometido uma falha. Com uma miúda de olhos escuros a que não resistiu numa noite. Uma noite que ficou lá atrás, no tempo, mas que guardou no coração. Uma miúda a quem mostrou algumas das suas habilidades de nerd, para ajudá-la a conseguir um lugar numa elitista escola de artes. Que anos mais tarde, voltaria a encontrar essa miúda, já mulher. Que em poucos anos ela se tornara numa exímia e conceituada maestrina, que agora o dirigia na orquestra em que X também brilhava, o que os inibia de manterem qualquer tipo de relação extraprofissional.

Que essa mulher era a menina daquela imagem que pouco antes de morrer o atormentava, enquanto, dorida e violada, se limitada a pedir socorro à lente de uma câmara, ciente de que essa ténue possibilidade era a sua única possibilidade. Que essa menina tinha feito parte de um plano bem engendrado, planeado com tempo e sossego. Que a maestrina fazia parte da rede que X pretendia desmascarar, logo que se sentisse a salvo. Que fora ela a sugerir o nome de X. Que toda a campanha tinha sido desenhada para ele aceitar o serviço, o qual aguardaria a sua resposta, não obstante outras que viessem a surgir. Que no meio de todos aqueles milhares de rostos que o seu dossier secreto denunciava, estava, sem que disso tivesse dado conta, o rosto desta mulher de olhos negros, os mesmos olhos que o fixavam naquela imagem perturbadora, os mesmos olhos que em tempos ajudara. Olhos que tinham visto o Diabo de frente, durante tanto tempo que se tornara sua discípula. Não tinha percebido as pistas que lhe indicavam que não se pode ter tudo.

Mas também nenhum dos outros tinha como prever o que se seguiu. No dia de estreia de ‘A Flauta Mágica’, que acabara por ser fatal para X, e sob a regência da conceituada maestrina, logo aos primeiros acordes de flauta, todos os terminais de computador do mundo, todos os ecrãs e televisores, todos os placards digitais, todos os smartphones do planeta passaram, um a um, os nomes e os rostos daquela vasta rede de pedofilia, alternadas com imagens dos abusos. Que durante semanas, milhares de milhões de equipamentos não tiveram como impedir que tal acontecesse, devido ao complexo sistema que os comandava e à azáfama mundial que mantinha os mais competentes a tratar do assunto. Hamelin não se tinha calado, mas o concerto tinha chegado ao fim. Aquele era o derradeiro solo de X.

Moral da história:

Porque é que há detergentes que lavam mais branco e não há detergentes que lavem mais preto? Porque há um lado negro que, de quando em vez, merecia uma boa lavagem que não desbotasse.

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1 Comment

  1. António Armando da Costa

    Fevereiro 9, 2018 at 10:05 am

    Uma história perturbante e maravilhosa que bem reflecte os dias de hoje, infelizmente.

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