“Juro-te que não durmo nem dormi com quem quer que seja. Acredita, pois é a verdade.” Não sabia que mais fazer para o sossegar. Para o convencer da verdade. Para que ele, tal como ela, aceitasse o que realmente acontecera. O que era verdadeiramente verdade. Que ela jamais dormira com qualquer outro homem, desde que o conhecera. Desde que estavam juntos. Desde há nove anos, altura em que aquele amor sereno e tranquilo entrara nas suas vidas. Sim, ambos tinham um passado. Uma vida anterior, plena de inquietações, sobressaltos, traições, vontades insatisfeitas, revolta, trovoadas e ventania, solidão e tristeza. Um pretérito nem sempre perfeito, mas do qual guardavam igualmente momentos de ternura e afeto, de exaltação sexual e realização afetiva.

Um misto de tudo aquilo de que a vida é feita e na qual é perita. Ainda que em possível desequilíbrio, em eventual desnivelamento, com garantido prejuízo para a felicidade, ambos tinham para trás, na paisagem do seu retrovisor pessoal, um mesclado e intrincado enleio de vivências, uma trama de experiências variadas, que lhes permitiram perceber a raridade do que haviam encontrado, quando as suas vidas se abraçaram. Não se cruzaram em carência ou desespero. Nada havia de traumatizante ou particularmente infetado nas suas vidas. Nada a purgar, nada a lamentar, nada a sarar. Apenas olhos postos no horizonte, no que estava para vir, naquilo que o futuro traria, e ambos acreditavam que traria muito e muito bom. Essa chama era-lhes comum e servia-lhes de motor de arranque e assegurava uma boa velocidade de cruzeiro. Conheceram, então, a felicidade segura, aquela que não oscila caprichosamente, aquela que garante, de forma constante, um nível mínimo de felicidade, de tranquilidade, de segurança. Uma espécie de pasmaceira alegre: constante, mas satisfatória. Sem grandes picos, quer em direção ao êxtase, quer em direção ao escuro abismo, de quando nos falta a felicidade que julgávamos garantida. Apenas uma bem nivelada linha de amor permanente. Tinham encontrado, um no outro, o seu certificado de aforro afetivo, que garantia a verba investida e ainda um acréscimo anual. Um bom investimento, portanto. Ações seguras. Ações que não defraudavam quem nelas se aventurava.

Agora, ele desconfiava. Apontava o dedo. Vestia-se de paranoias várias. Tinham, desde logo, apostado num elevado grau de liberdade. Se a um deles apetecesse um fim de semana a solo, tê-lo-ia sem dramas. Uma noite com amigos até de madrugada, não levantavam ondas nem ondinhas. Vontades desencontradas de fazer isto ou aquilo não eram assunto: cada um avançava para aquilo que mais lhe apetecia. Sempre assim fora e sempre resultara. Razão pela qual, ambos mantiveram as suas casas, aquelas em que cada um vivia antes de se juntarem. Sempre que necessário – por questões que podiam ir desde o volume de trabalho (ele era autor de DB e ela tradutora), quer apenas por precisarem de estar no seu espaço, sem interferências –, anunciavam apenas que não se encontrariam nesse dia, nessa noite, nesse fim de semana. Sempre funcionara. Agora, porém, algo mudara. Ele duvidava. Assegurava que ela dormia com outro homem. Uma certeza, dizia, que lhe vinha das entranhas, que lhe chegava pelo olfato, que era percetível pelo tato. Uma coisa que ele sabia. Sabia, e pronto. Nada do que ela dissesse ou fizesse adiantava. Não que ela estivesse disposta a dizer ou a fazer demasiado para garantir o que quer que fosse.

Quando a nossa palavra não basta, algo está profundamente mal. Está mal porque, principalmente em amor, aquilo que dizemos deve ser aceite como verdade e, também, porque aquilo que dizemos, em amor, deve ser sempre a verdade. Assim era. Ela jamais tinha dormido com qualquer outro homem desde que se conheciam. Desde que se amavam. Já lho dissera olhos nos olhos. Já lho fizera saber por gestos e ações. Já lho tinha assegurado com o seu corpo. Já lho tinha gritado em fúria. Mas a certeza dele era uma âncora que continuava a puxar o barco para o fundo, a mantê-lo fixo naquele pedaço de areia. Ela tentava ser corrente, mover as areias que o fundeavam, corroer e oxidar os grossos elos de ferro que ligavam a âncora daquela mentira ao navio do seu amor. Sem efeito prático. Sem grande sucesso.

Ele deixou de a olhar, para a vigiar. Deixou de a ouvir para a escutar. Escrutinava-a à lupa. Cada palavra que ela dizia, cada ausência, cada atraso, cada sorriso ou falta dele. Cada gesto de carinho era avaliado em função de um possível complexo de culpa. Se faziam ou não amor, também era analisado à luz do possível comportamento traiçoeiro e adúltero. Tudo era suspeito e suscetível de dúbias e paranoicas loucuras. Ele vigiava-a. Essa era a nova realidade das suas vidas. Chegou a dar com ele a bisbilhotar o seu telemóvel. Ela achou que era a gota de água. O fim da linha.

Num ato de loucura, daqueles que jamais se imaginou a cometer, ela aventurou-se num move desesperado. Um gesto derradeiro. Depois disso, não saberia que mais fazer para o convencer da verdade. Da sua verdade. Apenas da sua verdade, já que, sendo a verdade aquilo em que acreditamos, e acreditando ele noutra coisa, estavam perante duas verdades bem distintas e inconciliáveis. Ele sabia que ela dormia com outro, ela sabia que jamais dormira com outro desde que ele existia na sua vida. A sua louca manobra consistiu num gesto dramático, uma prova de amor desesperada. Inscreveu-se num programa televisivo onde as pessoas eram submetidas a um polígrafo, um detetor de mentiras, a fim de assegurar a sua versão dos factos e, assim, tranquilizar dúvidas e antagonismos. As pessoas podiam mentir, mas o detetor revelaria a verdade, ou a mentira. A máquina falava a verdade. Eram quase sempre dramalhões familiares. Casos de heranças, de desvio de património, de traições várias, de adultério também, claro, de vinganças… Um degredo. Ao que chegam as relações interpessoais. Ao que chegam os laços de sangue e de amizade. Ao que se presta o amor. Mas ela foi. Sem pudor, vergonha ou receio de humilhação. Agarrou nele e, durante uma tarde – sim, o programa fazia render bem o peixe da podridão humana e alongava-se para lá do necessário ou desejável – sujeitou-se a todo o tipo de indignações. Pessoas que falavam a seu favor, outras que nem tanto e a pertinente e constante dúvida dele de que ela passava noites com outra pessoa ou, pior ainda, ou nem por isso, que trair é apenas trair, com outras pessoas. Com outros homens.

Ele próprio já se sentia incomodado com todo aquele clima, com os constantes e longos intervalos, em nome da publicidade, com o público presente, com a agressividade com que a tratavam, a ela, que se tinha prestado a tudo aquilo, a toda aquela gigantesca, colossal humilhação, para lhe provar, a ele, que não havia outro homem na sua vida. Ele jamais teria coragem para tal. Aquilo, só por si, já era prova de amor suficiente. Por outro lado, ele sabia. Ela tinha alguém. Esse tipo de certeza, vinda das mais profundas entranhas do cosmos, dos mais recônditos interstícios do ser, não se deixa convencer com câmaras de televisão e ansiava, secretamente, pelo resultado da máquina. Uma máquina que garantia detetar mentiras. Ao que tinham chegado. Mas já que aí tinham chegado, ele não conseguia arredar pé. Ainda mais secretamente, uma pérfida parte de si satisfazia-se com o desconforto dela, com um certo medo que, por vezes, lhe detetava no olhar, congratulava-se com aquela sempre presente pitada de humilhação que recai sobre quem se senta na cadeira. Desconfiar já é saber, já é ter a certeza de algo, nem que seja apenas de que alguma coisa não está bem. Por isso, todos olhavam sempre com mais benevolência o acompanhante, aquele que necessita de tirar algo a limpo, do que o outro, aquele sobre quem recaem dúvidas e suspeitas. Esse, quando chega, já é um pouco culpado. Quando ocupa a cadeira, é-o ainda mais um pouco e raros saem de lá isentos, sem mácula, completamente purgados e absolvidos.

Abreviando aquele dia de horrores vários, a máquina estava pronta a dizer a sua verdade. O veredicto estava concluído e disponível para ser divulgado. Lá veio mais suspense, mais intervalos e eles sempre separados. Gráficos que eram estudados, pseudo-especialistas e analistas que os avaliavam, comentadores que opinaram, amigos de um e de outro que se manifestavam… Um horror! Ainda assim, o coração dele ansiava que o acalmassem, que o esclarecessem. Fá-lo-iam de verdade? Tranquilizar-se-ia se a máquina a ilibasse? Estarem ali não era já uma garantia de que ele jamais aceitaria outra verdade que não aquela em que ele acreditava piamente? Que merda! Que grande merda que tudo aquilo era. Colocou a cabeça entre as mãos e sobre os joelhos, como quando não aguentamos uma dor ou apenas quando nos recusamos a ouvir algo. De repente, parte da plateia aplaudia. Olhou. Tentou compreender. Ela séria. Mais séria do que quando entraram. Branca. Cansada. Saturada e, ao olhá-lo, ele percebeu uma ponta de ódio. De escárnio. De desprezo. Fora ela quem se quisera submeter a tudo aquilo. Mas talvez ela o culpasse a ele por ter permitido que tudo aquilo acabasse por acontecer. Bastaria uma palavra sua para ter impedido tudo aquilo. Para lhe dizer que, e ainda que continuasse sem acreditar nela, que não permitiria tal vexame público. Tamanho disparate televisivo.

Mas ele não foi capaz. Ávido que estava de mais uma achega. De mais um parecer que acalmasse os cavalos à solta que lhe cavalgavam o peito, já desfeito de tantos cascos a toda a hora. Os cavalos cavalgavam ainda, sem o menor sinal de cansaço. Rédea solta, sem cavaleiros, apenas aquela vontade louca de correr em campo aberto. Estaria ele a enlouquecer, como ela sugeria? Uma depressão, tão em voga? Uma persistente ansiedade a ser tratada? Esse era um disparate ainda maior. Ele sabia bem o que sabia e isso precisava de esclarecimento cabal. Consegui-lo-iam ali? Isso eram outros quinhentos. Mas as suas desconfianças tinham aquele ingrediente extra, sub-reptício, aquela certeza infundada que apenas uns finos e soltos fios interligam, de forma pouco racional, prescindindo de factos, apenas aquele faro dos amantes, aquele qualquer coisa sem nome que vale mais do que uma foto a cores dos infiéis amantes no leito, numa impossível posição sexual. Essa certeza, meus caros, é perniciosa, é indelével e é trágica.

Como dar por encerrado um caso, por falta de provas, quando cá dentro se sente o cheiro do outro, a presença invisível, mas indelével do outro? Como aceitar a verdade de outros, quando a nossa continua no ativo e dentro do seu prazo de validade? Mesmo que nos digam que tudo isso não existe fora da nossa cabeça, sendo que é com esta que temos de viver, de que adianta isso? De que adiantaria, afinal, tudo aquilo? Saberia ela isso? Sabia-o, seguramente. Seria um ato desesperado? Não a amava um pouco menos ainda por esse gesto, que se revestia de amor, mas que não passava de um passo inconsequente, dispensável? Lamentável, mesmo? Não teria sido preferível que ela, simplesmente, lhe tivesse virado costas no momento exato em que percebera que ele já não acreditava em si? Que já não confiava. Não seria mais nobre da parte dela? Não teria sido a prova de amor que ele procurava? Uma mulher que, dizendo amá-lo, preferisse deixá-lo a pensar, sequer, que ele já não acreditava nela? Naquilo que ela dizia e jurava ser verdade? À luz dessa tomada de consciência, ele entendeu tudo aquilo que o rodeava naquele momento, como puro e desprezível folclore. Queria fugir. Não conseguiu. Estava colado ao chão. Àquele chão onde se dançava o vira e o malhão, perante uma plateia exultante, ávida de sangue e divórcio.

By Irving Penn, Girl In Bed (Jean Patchett) 1949

Uma vez que não saía do lugar, tentou perceber, finalmente qual o veredito. O detetor de mentiras dizia… Sem perceber como, os seus pés moveram-se. Dirigiam-se para a porta do estúdio, que alertava, com uma luz vermelha, que se estava a gravar. Que não se podia sair. Mas ele, com gestos bruscos e uma ânsia que dava velocidade aos seus passos, com que já corria para a dita porta, e aos seus gestos, com os quais empurrava os assistentes que teimavam em placá-lo. Evitar que ele saísse. Mas ele saiu. Saiu antes de saber que a máquina a tinha ilibado. Que ela, afinal, falara verdade. Falara mesmo? Que ela não tinha outro homem com quem dormir. Seria? Que lhe era fiel. Verdade, mesmo? Saiu antes mesmo de a enfrentar uma última vez. Sem antes a ouvir explicar-lhe que não havia razões para as suas paranoias, como a máquina provara. Mas provara a quem? Ele não estava disponível para outra verdade que não a sua. Ele sabia. Ela mudara. Até o verde dos olhos dela mudara de tom. Ele sabia que estavam em tom de mentira. Saiu antes de saber aquilo que jamais saberia, pois que não voltariam a trocar palavra. Que ela falava, de facto verdade. Jamais dormira com um homem. Que dormir, tranquila e serenamente ao lado de outro corpo inerte e também ele em repouso absoluto, era o derradeiro gesto de amor e de paz. Que isso só o amor puro permite. Ele não chegou a saber que ela apenas praticara sexo, puro e solitário, sem o antes e o depois. Sem outra fisicalidade que não aquela que o sexo exige. Que logo após o sexo, se libertava desse outro corpo e voltava para ele. Que tinha tido sexo, sim, com outro corpo, é verdade, mas não se tinha aninhado. Que jamais se aconchegara, em conchinha, noutro corpo. Que apenas se entregara à volúpia. Que não passara de sexo, jamais sono, menos ainda sonhos a dois. Que o corpo dela jamais se permitira dormir junto a outro corpo que não o dele. Que era mesmo verdade.

Ela não dormira com outro homem além dele, desde que estavam juntos. Que ela, com toda a honestidade, não lhe mentira. Não lhe mentira a ele nem à máquina. Que ela tinha, afinal, uma amante. Que já tinha tido algumas ao longo daqueles anos. Que sempre as tivera ocasionalmente. Que precisava disso para se libertar nem sabe bem do quê. Que nem sequer se sentia bissexual, apenas, por vezes, não resistia ao apelo, à diferença que era amar uma mulher, de vez em quando. Que isso era libertador, mas que nunca fora amor. Nunca amara sinceramente uma mulher. Nunca dormira com qualquer uma delas. Ele saiu sem saber que ambas as verdades, a dele e a dela, eram mesmo verdade.

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