Os outros são chatos.

São mesmo. Com as suas vidinhas e assuntos. Os seus sentimentos e emoções. A acharem-se a coisa mais central e importante do universo. A imporem-nos a sua presença e os seus direitos. A lembrarem-nos a cada instante as suas necessidades e afetos. A ocuparem o nosso lugar nos transportes públicos, ou a passarem uma das suas nádegas gordas para a nossa parte do assento. A roçarem o traseiro. A chegarem antes do que nós às filas. Aliás, a formarem as filas onde não necessitaríamos de estar se os outros não as formassem antecipadamente. A usurparem o lugar de estacionamento, único naquela zona, que nos estava destinado…

Não queremos verdadeiramente saber dos outros. Os outros são a fonte dos nossos problemas e frustrações. Os outros sobejam nas nossas vidas. São maçadores e enfadonhos. Impõem-se-nos. Confrontam-nos. Questionam-nos. Criticam-nos. Perguntam-nos coisas direta e indiretamente. Mas quem são eles? Quem se julgam? O que fazem? Mais importante ainda, o que os leva a pensar que queremos conhecer pessoas, conviver com elas, responder-lhes? Os outros são os estranhos e sempre nos ensinaram a não falar com eles. Porque teimam, então, em sorrirem-nos de forma patética? Em abordarem-nos, como se residisse neles e nas suas maneiras de ver o mundo e todas as suas coisas, uma qualquer salvação para o nosso dia. Como se, de facto, nos interessassem. Como se tivéssemos mesmo de os olhar e escutar. Pior, de os cheirar e sentir por perto. Não há qualquer tipo de obrigatoriedade. Não nos apetecem conversas ou novidades. Seres novos são sempre problemas novos. Mais assuntos e delicadezas para resolver. Porque os outros são sensíveis. Exigem determinado trato a diferentes horas do dia e consoante as diferentes circunstâncias ou meramente em função do clima atmosférico. Ora impõem formalidades obtusas e rigorosas, que exigem de nós um certo equilíbrio no bico dos pés, para não nos descuidarmos. Para não derraparmos ou tombarmos, ou, drama dos dramas, não apenas cairmos, mas cairmos em desgraça, que a desgraça não adora que lhe caiamos em cima. Mais o escárnio e a risota dos outros, quando nos vêm no chão, para onde fomos atirados precisamente por sua causa. Ora avançam para intimidades inesperadas e extemporâneas. Aquele abraço intimista que arrepia a espinha.

Aquela lágrima cúmplice e inexplicável, que aciona todos os nossos alertas vermelhos e de outras cores, e que nos cola ao chão, por uma qualquer razão que se prende com regras e educação, mesmo quando apenas nos apetece ir para casa desencasquear tachos tranquilamente. O cúmulo são as confissões pessoais e absolutamente íntimas, que nos calam e assustam de morte. Porque é óbvio que não nos vamos revelar aos outros. Contar-lhes os nossos segredos e intimidades. O que pretenderão ao certo, quando entram por esse caminho? O que os leva a crer que é por aí que seguiremos? Se nós não optamos por esse grau de intimidade confessional, porque é que eles entendem que podem dar o primeiro passo nesse sentido sem saída? Confissões?! É o cabo dos trabalhos. Os nossos problemas são apenas os outros. Sem outros tudo era bem mais simples e descomplicado. Os nossos problemas são precisamente eles. Os outros.

Os outros em proximidade, então, é do pior que a vida tem. Eles são os vizinhos e as suas eternas e inexplicáveis queixas a propósito do que não faz sentido. Eles são os condutores de táxi com as suas idiossincrasias e odores. Eles são os funcionários dos serviços onde nos vemos forçados a ir, tratar de assuntos e obrigações, apenas porque os outros, outros de entre os outros, decidiram que o tínhamos de fazer. É tudo muito inconcebível. Dentro desta categoria, a dos outros em proximidade, a gradação do insuportável culmina no pequeno poder: a secretária que não passa a chamada – graças aos céus que vinga o e-mail –, o polícia de trânsito, o enfermeiro que encarna o médico que não conseguiu ser, o padre que decide como se deve viver e agir, o empregado de mesa que nos ignora…

Os outros são emotivos. Melindram-se. Magoam-se. Sensibilizam-se com coisinhas. Choram. Exigem-nos coisas. Mas sabem ofender. São peritos em chatear. Em pedir favores e compreensão. Em ligar fora de horas com conversas que não interessam. Assuntos que são apenas deles, mas para os quais acham que temos de mergulhar com racionalidade e salvação. Com conselhos certeiros e panaceias milagrosas. Os outros acham, de verdade, que nos preocupamos. Que eles e os seus assuntos nos interessam. Não é verdade. Tudo isso é uma maçada. Desenrasquem-se. Resolvam-se. Não incomodem. Não queremos saber da vossa falta de dinheiro ou de amor. Da traição matrimonial ou do irmão toxicodependente, nem dessa depressãozinha que já assoma à janela. Vão às vossas vidas.

Que paz e serenidade não se conseguiria sem a presença dos outros. Os outros são muito irritantes. Deles, quanto mais longe melhor.

As crianças dos outros são irritantes.

Não há forma delicada, nem isso aqui nos reuniu, de dizer isto. A verdade é apenas essa. As crianças dos outros incomodam. Exigem atenções e tempo de que não dispomos. Já não brincamos, nem temos espírito docente, para ensinar e mostrar coisas novas, giras e divertidas às crianças dos outros. As nossas crianças chegam-nos, muito obrigada. Além de que é muito raro serem giras e verdadeiramente inspiradoras. São apenas seres pequeninos, a necessitarem de ser assoados, com vozes estridentes e pontapés afiados. Não falam. Gritam. Não pedem. Exigem. Com a agravante de que ninguém pode tocar numa cerda que seja de uma criança que não seja sua (e mesmo assim…). Se a criança grita, esperneia, baba, cospe ou pontapeia terá lá sempre as suas razões, os seus motivos psicossomáticos, esclarecidos em manuais que explicam a estupidez dos zero aos cem anos. Teorias que tudo desculpam, com nomes técnicos inventados, ou mesmo com nomes de doenças contemporâneas, apenas para esconder a má educação dos mini-humanos e a falta de capacidade dos pais.

A verdade é que deveria haver restaurantes para os outros e as suas criancinhas e restaurantes para nós e as nossas. Isso e um plano de avaliação parental, com pontuações e diplomas para quem realmente sabe educar as suas crianças. Para pais que sabem impor um Não até ao fim. Pais que não cedem à chantagem infantil e básica das pequenas pestes, apenas para fugirem à vergonha de uma birra com direito a bocas a espumar de pequenos ódios – que, um dia, hão de crescer para grandes ódios –, murros disparados com violência. Gritem-lhes de volta. Batam-lhes de volta. Um planeta inteiro cresceu assim. Faz parte. Não mudem o que estava razoavelmente bem. Um tabefe é apenas um tabefe e faz maravilhas pela paz mundial.

O pior é que as crianças dos outros apenas muito dificilmente são bonitas ou engraçadas. São sempre birrentas, ou demoniacamente observadoras. Com olhos faroleiros, que denunciam avaliações críticas que serão disparadas em casa: “O amigo do pai é estúpido!” Uma afirmação que passará a ser uma verdade inabalável na cabecinha tonta do pai, babado com a perspicácia e acuidada intuição do fedelho e que dirá, de si para si: “Como é que eu nunca me apercebi disso?”

 

Quando calha a serem crianças fora de série – aquela num milhão –, também não nos podemos aproximar demasiado, sob pena de podermos ser confundidos com pedófilos, tarados de qualquer espécie, ou infantilóides. Mas isso é tão raro que nem merece um parágrafo por inteiro. As crianças dos outros são chatas como a potassa. Não deixam os adultos falarem. Interrompem e os pais deixam que o façam. Se se lhes dedica alguma atenção, lançam disparates à velocidade da luz. Não dá para conversar. Deu-se-lhes o centro do mundo e elas apreciam isso, tiram disso partido e exigem a manutenção desse estatuto até ao final dos seus dias, e não apenas dos seus dias de criança, dos seus dias todos para o resto da vida. Os outros estão a criar monstros. Não é possível gostar delas. As crianças dos outros, chegam a ser piores do que os próprios outros.

Os problemas dos outros cansam.

Cansam e muito. São desinteressantes e maçadores. Maçam de morte. Uma pessoa pode envelhecer anos no decurso de uma chatice alheia. Os problemas conjugais, o jantar queimado, a festa de arromba que decide descrever ao milímetro quando nem teve a decência de convidar a pessoa em cima de quem descarrega toda a sua vaidade, a escola dos filhos e os seus insignificantes feitos tornados grandiosidades, os feitos desportivos dos pirralhos, questões de saúde, fungos e outras nojices… Fastidiosos relatos domésticos, entediantes cenas caseiras: o novo sofá, a receita para o jantar dessa noite, a anca partida de um parente idoso, os quilos a mais, o cabelo a menos… As conquistas e medalhas de um qualquer metal, o marido que é bestial, ou uma besta, o primeiro cocó do bebé, o seu primeiro dente, a felicidade eterna de toda a sua família perfeita, ou as dores de cabeça que agora sabe curar apenas recorrendo à meditação. Tanto disparate encadeado. Tanta cretinice e exagero. Um enorme enfado. Todos temos família, sabemos que não existem na versão perfeita, menos ainda pais, maridos e filhos. Ou é a soberba do dinheiro que lhes sobra, ou a miséria ignóbil daquele que lhes falta. Não lho vamos roubar nem emprestar pelo que, de que adianta tanta conversa deitada fora? Ou são super nisto ou naquilo ou mesmo em tudo, ou acham-se um zero à esquerda. Não desmentiremos coisa alguma, e também não nos impressionaremos. Os outros deveriam guardar as suas coisas para si mesmos, os únicos e verdadeiro interessados.

Depois, há as figuras de estilo a que os outros recorrem para contar tudo isso. A ironia, o sarcasmo, as hipérboles, os eufemismos, as metáforas idiotas e mal conseguidas, as intermináveis redundâncias… O convívio com os outros deveria estar limitado e formatado ao formato escolha múltipla. Uma questão, várias hipóteses e a possibilidade de escolher no silêncio da nossa solidão. Sem discussões ou argumentos.

E quando os outros mentem? A repulsa que se sente. Os outros que falem com os outros. Não estamos interessados no lugar.

As conversas dos outros são entediantes.

Um potente soporífero no vigor do seu prazo de validade. São as suas casinhas e assuntozinhos, sempre enfeitados de lindos diminutivos que pesam sobre as nossas pálpebras e enchem de Alzheimer o nosso cérebro. As horas que passam no ginásio, a nova dieta, um furúnculo que descobriram recentemente numa axila qualquer, aquele restaurante que é o melhor do mundo e onde só eles foram ainda, a viagem maravilhosa que fizeram e que teimam em descrever desde a compra do bilhete ao arquivamento das fotos tiradas. Já perdidos nos nossos próprios assuntos, enquanto meneamos fingimentos corporais que têm como função denunciar um falso interesse e fazer vingar a enorme mentira de que ainda estamos a escutar, eis que os outros tentam fintar a nossa terna veracidade dos factos e indagam: “O que é que achas? Se fosse contigo, o que é que farias?” São intragáveis. Não lhes basta a gigantesca estopada de nos inocularem os seus assuntos, como ainda esperam respostas, soluções, argumentos, curas. Ainda querem dinâmica e retorno de ideias. Pois se já nos esgotaram com o frete, o que ainda teremos para oferecer no deserto plano e árido do nosso sincero desinteresse? A resposta correta a tamanha impertinência, já agora, é a típica – um clássico da psicanálise, também ela morta de tédio com os assuntos que os outros despejam nos seus divãs –: “E tu, o que é que tu achas? Isso é que verdadeiramente importa. O que é que te apetece mesmo fazer em relação a isso?” Só para o caso de precisarem de ajuda num momento de paralisia coloquial, achei que poderia partilhar este truque (se tiver outros, não hesite em deixá-los no segredo deste espaço democrático).

E quando os outros se armam em engraçados, ou poetas? Quando se julgam irresistíveis, ocupados, mundanamente apetitosos, fisicamente atraentes, socialmente irresistíveis e profissionalmente incomparáveis? Um vómito ininterrupto. E quando só eles sabem, conhecem ou podem fazer algo? Quando, ingénua e estapafurdiamente, mas muito genuinamente, se consideram únicos na galáxia, esse lugar isolado e sem acessos em que apenas eles habitam? A receita que inventaram, a máscara caseira, cujo segredo não revelam, aquela cor de tinta única que descobriram num chinês que mais ninguém conhece ou pode conhecer? Os outros são patéticos. Muito.

Os animais dos outros são medonhos.

E feios, e cheiram mal, e estão mal treinados, e urinam nas nossas pernas, e rosnam-nos, mesmo quando não são cães. Os animais dos outros são perigosíssimos, de raças inventadas apenas para a nossa destruição. Têm dentições infinitas e uma amplitude de boca capaz de nos decepar apenas com um bocejo. As suas aventuras, despesas de veterinário, acessórios de moda, ração exclusiva, plano de vacinação e regulares desparasitações não são temas que valha a pena desbravar em conversas sociais, se pretende voltar a tê-las, ou no recato de uma velha amizade, se pretende somar-lhe ainda mais alguns anos. Os outros devem, têm, na verdade, de manter para si aquilo que é seu. Do seu interesse, da sua vida e não injetar informação inútil na vida de terceiros.

As férias dos outros são um fastio

As fotos que insistem que vejamos, quando apenas nos apetece dançar Abba e acabar aquele vodka divino, cujo copos nos obrigam a manter sobre uma base de copos para não estragar aquela madeira exótica, wanna be abeto nórdico, comprada na Ikea e tão bem prensada que mal se percebe que é papel. Claro que qualquer pingo de água sobre aquilo e poderia desintegrar-se, mas acontece que temos dificuldade em manter a nossa base debaixo de olho e quando – após apurados cálculos matemáticos – lhe vamos colocar o copo em cima, percebemos porque sempre chumbámos àquela disciplina. Pior ainda são os vídeos e os gritinhos insistentes: “Olha agora, agora. Viste? Não é o máximo? Tivemos imensa sorte. Aquilo acontece uma vez em mil e nós estivemos lá e pudemos assistir…” Que incomensurável vómito somos obrigados a manter preso no elevador que vai do estômago à boca. E as compras que fizeram e o itinerário que escolherem, mais o clima que se fazia sentir, e o guia incrível que escolheram, a bomba de carro que alugaram… Começamos a desenhar as esferas olímpicas nos móveis com o copo, vazio pela enésima vez, já há muito divorciado da maldita base para copos, para eles verem como elas doem. Quando nada os demove de nos envenenarem com o assunto férias, o qual, até uma má versão da Bíblia social, determina que não é um assunto de interesse para outros que não os envolvidos na viagem, passamos livre e descontraidamente para a arte abstrata com fundos de copos molhados. Entramos em modo loucura, agora que esgotámos os circunstanciais ‘Que giro!’ e ‘Que máximo!’ Só tínhamos levado um de cada e depois deles o nosso léxico resume-se à mais pura sinceridade, e para essa, mesmo ébrios, sabemos que eles não estão preparados. Rezamos, assim, para que jamais voltem a convidar-nos para este tipo de homicídio lento e torturante, mas quando percebemos que os móveis não são mesmo de madeira e que as marcas vão acabar por sair, sabemos que estamos entalados. Resta-nos esperar que o próximo passeio termine de forma trágica e que não haja fotos da tragédia para partilhar.

– Posso servir-me de mais uma bebida, ou vinte? Obrigada.

Os carros dos outros…

Bom, sobre isto não adianta nem conseguimos falar, certo? Já vejo bocejos e olhos de pânico. Fiquemo-nos por aqui.

Por último, um alívio – Ainda bem que nós não somos os outros.

P.S. – Atenção, outros. Não nos liguem. Nós ligamos.

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