Mais do que a música, o seu ego, bem como o seu bomber onde não faltavam endiabradas lantejoulas – muito skinny e todo ele taylor made e customizado, onde se podia ler ‘Hoje Há Bifanas’ escrito um tom fashion-néon – enchiam o palco de vibrações, as quais eram replicadas pelo seu soberbo corpo de bailado, duas garotas (não tinha caché para uma terceira) bueneníssimas, em trajes a roçar o obsceno, que se iam bamboleando ao ritmo do compasso de sempre, binário, enquanto o bom do povão se babava, mas mais pela gordura das bifanas e entremeadas que lhes escorria pelos beiços e pelos dedos, do que pelo entusiasmo. As carnes que o público mais apreciava eram, indiscutivelmente em primeiro lugar, as de porco. Imbatível! Só depois da barriga cheia se entusiasmava com outros ‘nacos’. Joaquim Rúben Perpétuo Sabino, de seu nome completo, sabia-o bem. Ele próprio tinha bem definido o top carnívoro e o seu flamejante guarda-roupa dava disso conta. ‘Hoje Há Caracóis’ e ‘Pezinhos de Coentrada’ eram outros dos mimos bordados nos seus blusões de terylene, a par de outras iguarias populares, como polvo seco grelhado, e que abria o apetite para outro dos nobres ramos a que se dedicava a família Perpétuo Sabino: o dos comes e bebes, fazendo assim de cartaz humano, tornando o marketing verdadeira e literalmente pessoal. Também não era alheio a esse apreço bela boa mesa portuguesa, o nome artístico com o qual abrilhantava dezenas, para não dizer largas dezenas, de festas populares por esse país adentro, já que país fora numa fora. Pois ele era, o nome artístico, queremos nós dizer, Quim Carnes. Ainda vieram inteligentes da capital falar em plágio, que já havia uma artista estrangeira com o mesmo nome, apenas grafado de forma diferente… Uma mulher chamada Quim? Grafado? Mas que histórias da carochinha eram aquelas, Santo Cristo, Nosso Senhor de Todas as Coisas? Queriam endrominá-lo, era o que era, mas ele era esperto, um príncipe da argúcia e da boa pinta, inteligente que nem um alho, sempre lho dissera o seu avô Perpétuo, seu atual agente e road manager, e homem de grande gabarito aldeão.

 

Vivendo para a sua grande arte, Quim Carnes ainda não se podia dar ao luxo de viver dela. Adorava o palco e momentos como aquele que vivia naquele instante, em plena Festa do Chispe, em Barrãs de Entre o Meio e o Baixo, faziam com que compreendesse o grande plano que Deus lhe tinha destinado. Tinha nascido para o estrelado, sabia-o, porém, uma alergia aos ovos tinha-o forçado a desistir desse plano inicial, de ser um grande cozinheiro de bifes com ovo a cavalo, pelo que só já podia almejar o estrelato, já que este, tinha-se informado bem sobre o assunto, não implicava ovos nem outros agentes potencialmente alergénicos. Em cima do palco, estava safo. Safo e feliz. De frente para toda aquela sua gente, de sorrisos incompletos, mas de almas puras. Tão puras e inocentes que nem reparavam que Quim cantava sempre a mesma canção. Rigorosamente a mesma canção. Mesmo nos raros encoures. Tinha, portanto, um único tema, mas muito bem conseguido. Com uns bonitos arranjos, uma sonoridade fresca, um ritmo de hino pascal, muito básico e fácil de acompanhar. Uma espécie de slow, o que estourava de moderno, por esbarrar de frente com o grande e atual trend planetário do momento, em direção ao slow movement, ou, em bom português, calmaria. Tudo tinha de ser pacato e lento e nisso, ele era mestre, para não dizer doutor, mas com esta coisa dos currículos falseados, mais valia ficar-se pela mestria e desistir do doutoramento.

Ora, pacato e lento, eram adjetivos que transbordavam vantagens nos bailaricos de aldeia, onde não se perde uma oportunidade para colar dois, ou mais corpos numa perfeita sandes de courato humano – sim, as aldeias são moderníssimas, no que à sexualidade diz respeito –, em lentos e cadenciados movimentos. À sua letra única, Quim Carnes apenas alterava o título, para poder ir dando à plateia a cândida noção de que se mudava de tema. Tinha cerca de cinquenta títulos para a mesma música, mais do dobro do que o seu rival direto, que apenas tinha engendrado uns míseros quinze nomes para a sua canção única. Sim, Quim Carnes não era solteiro neste filão do atual cancioneiro nacional, mas como era bem mais criativo do que os restantes, era aquele que mais sucesso fazia nas rádios locais e mesmo nas rádios sem locais, bem como o mais solicitado dos programas anteriores aos programas da manhã, sendo sempre cabeça de cartaz das melhores festas de aldeia. Sonhava, claro está, com as festas populares de vilas e cidades, mas cada coisa a seu tempo, como lhe assegurava o avô Perpétuo, sénior nas andanças da vida. Para tal, necessitava de um novo êxito. Um tema que o ‘trampolinizasse’ para outra estratosfera. Uma coisa em grande e em muito, muito bom, do tipo hit dos hits. Algo de verdadeiramente novo e disruptivo, como agora tanto se diz e admira por aí.

Num segundo de pura genialidade – aconteciam-lhe uma vez por década, pelo que este era o seu terceiro segundo de clarividência artística –, Quim Carnes começou a trautear um início de letra, um projeto de poema, que já começava a trautear na sua mente. Com ele acordava e com ele se deitava. Aquilo soava-lhe a cântico dos anjos. Uns acordes divinais, puros e cândidos. Era de uma simplicidade e beleza estonteantes, chegava a provocar-lhe quebras de ‘atenção’, que o levavam ainda mais longe na criatividade e devaneio artístico. Era como se aquilo sempre tivesse feito parte da sua vida. Uma melodia só sua, que ecoava na sua mente e batia, cadenciada, no seu peito. Só podia ser o seu êxito. O seu próximo megassucesso. Faltava-lhe mais letra do que música. Do poema apenas ainda tinha escrito o título. Já a música, já lá estava toda, de uma ponta à outra. Era algo tão forte e diferente que se sentia estranho. Afinal, anos e anos a tocar e a cantar sempre um único tema, era mais do que normal que estranhasse qualquer outro. Tinha até de voltar a treinar os gargarejos, já que havia notas e palavras que necessitaria de pronunciar e que nunca antes dissera na vida. Mas tudo vem com treino, prática e determinação. Para já, o título era brutal: ‘Diz Ruptivo’. Tentava desesperadamente que algo o iluminasse para dar seguimento a tão extraordinário título. Ruptivo seria um indivíduo, um artista com problemas de drogas ou álcool, talvez. Sim, o drama agradava ao povão, que facilmente se identificava com desgraças e micoses. Coisas simples da vida. Nada de filosofias bacocas. Tinha de ser um tipo traído pela mulher da sua vida. Sim, Rupotivo seria um desgraçadinho. Sentia-se inspirado, agradecia a Deus aquele rasgo de clarividência poética. Um desgraçadinho. Estava lá tudo. A desgraça, o drama humano, o álcool, a traição carnal e afetiva, a dor e o lamento e até o tão falado Diz Ruptivo.

Isto de ter apenas uma canção era maravilhoso, já que podia pensar num milhão de coisas e até engatar espectadoras incautas, enquanto interpretava o ‘poemita’ de sempre, sendo que este se limitava ao refrão o que era duplamente ‘descansativo’ para a mente fervilhante de Quim Carnes. Saiu do palco a correr. Não podia aguardar mais. Tinha de colocar tudo aquilo em papel pardo, o seu predileto para anotação de novos temas. Em tempos preferira o papel manteiga, mas acabara fã do pardo vá-se lá saber porquê. Era uma cena vintage, era o que era, não obstante ele já andar na casa dos trinta! Não discutia com as suas predileções e idiossincrasias. Eram suas e estimava-as, a todas elas, incluindo as de origem psicótica, como a mania de limpar o nariz sempre dezassete vezes seguidas, dobrando sempre esmerada e cautelosamente o lenço de papel após cada uma delas. Um ritual que podia demorar hora e meia, mas ao qual se afeiçoara, como ao perfume de uma mãe. O da sua, já que calha em conversa, era o de melhor refogado de cebola da zona, da sua zona, claro, não conhecia outras. Com a sua saída de palco, apenas as luzes ficaram mais fracas, sem o poliédrico efeito de reflexo nas lantejoulas do seu blusão, mas fora isso, ninguém daria pela sua falta. As miúdas cantavam melhor do que ele e a banda já tocava de cor as duas notas necessárias a todo o concerto, razão pela qual todos eles já sofriam de tendinites, que isto de gestos repetitivos e o avançar da idade não facilitam a vida a um músico de gabarito.

Entrou na Peugeot 205 transformada em roulotte, onde também vendiam farturas, que os cachés hoje em dia não eram nada de substantivo, tendo de ser complementados com artifícios e suor, e lá se entregou à poesia e à métrica. A poesia era do melhor, segundo a sua escala de avaliação, e quanto à métrica, segundo cria piamente, bastaria que a régua chegasse aos quinze centímetros, com intervalos entre cada quadra, para que já se pudesse falar em canção, para que já fosse considerada letra suficiente.

Tinha o seu novo hit em mãos. Pegou nos ferrinhos, instrumento que manuseava como ninguém, devia ser do treino que a bisnaga da massa das farturas lhe dava, e, com destreza e quase habilidade circense, lá foi compondo e dando mais estrutura à musiqueta que há muito vagueava pelo seu subconsciente. A coisa ficou pronta, aí, em quê? Cinco minutos? Nem tanto! “Sou mesmo genial”, congratulou-se o jovem talento, já a vislumbrar-se o próximo vencedor do baile da pinha lá do seu sítio, onde trazia Custódinha debaixo de olho. As más línguas diziam que ainda eram primos, mas era só por inveja de tão grande e escaldante amor.

Apresentou a música à sua banda, cantou-a para as gentes do seu estúdio, trauteou-a para os familiares em casa, tocou-a no bar do Zé Panado, ensaiou um unplugged e ainda uma versão acústica – já que para Quim eram “cenas musicais absolutamente distintas” – e apresentou-as “ambas as duas”, como frisaria, posteriormente em entrevista à vizinha Isilda, na rádio lá da terra e o resultado era sempre o mesmo e unânime: êxito estrondoso. Qualquer coisa nunca antes ouvida, ou vista, ou sentida. Eram todos os sentidos numa só direção, por assim dizer. “Vai ser redundante”, avisava o avô Perpétuo, agente e road manager, daquele neto-estrela, que dele tinha herdado tudo o que tinha a ver com o artístico.

By Robert Doisneau

Antes Perpétuo apenas se tivesse baralhado na confusão dos termos, já que retumbante foi mesmo a redundância da coisa. Mal Quim Carnes apresentou o seu hit ao público mais alargado, aquele do Reality Show Quinta dos Gordos – e público mais alargado do que esse era inexistente neste planeta – e um dos ‘bacorinhos’ logo disse.

– Gosto muito, mas prefiro o original.

Original? Haveria mais original do que aquilo? Seguiram-se as internetes da vida e os críticos e toda aquela gente ressabiada e de mal com a vida. Que era cópia. Que era plágio. Que era roubada. Um ror de disparates (ou seria por isso que a música lhe soava tão familiar na sua mente há já tantos anos?). Pois se tinha nascido da criatividade da sua mente brilhante, como poderia alguém ter pensado no mesmo e muito antes de si? Não podia aceitar isso como verdade e foi o que fez o grande artista, contra tudo e ainda contra o established, como escreviam por aí. Um imprevisível move on interpretado pelo seu, agora, batalhão de fãs, com coragem, desinibida afronta aos padronizados rigores de outrora. Que interpretar e reinventar também era criar, que lá por uns tipos velhos com uma banda decadente e um nome do mais pindérico, Rolling Stones, terem cantado aquilo numa outra vida não retirava o mérito a Quim Carnes, tornado, de súbito, vedeta internacional. Uma versão tão dolorosamente igual, mas medonha, de um dos hinos da banda, que todos concordaram em deixar o pobre Quim Carnes em paz. Que era uma espécie de avesso, de traseiras musicais do tema. Tão mau que quase roçava o bom, ao bom estilo de alguns desastres da vida. Era uma roldana do kitsch em queda livre, em destrambelhado rodopio, nos milhões de partilhas internautas. O jovem homem tornou-se um colosso tal que o pior aconteceu: a tal de Quim, uma cota sem sentido de amor pelo próximo não gostou do que viu e ouviu e decidiu que não permitiria que plagiassem o seu nome. Veio de lá um megaprocesso e a pequeníssima fortuna e sucesso conseguidos com o plágio lá foram para pagar ao Raul Padeiro, homem da massa, bem se vê, mas que conhecia um quê de leis e que o defendeu internacionalmente contra os tubarões da outra Carnes.

Perderam o processo, por incompetência, falta de razão e até de comparência – parece que ficaram loucos com Londres, onde tudo decorreu – mas conquistaram o coração do mundo. Foram capa de jornais um pouco por todo o lado, mas quando regressaram a casa, ainda no aeroporto, onde esperavam uma quantidade escandalosa de fãs que, afinal, não apareceu, e já os holofotes tinham outro destinatário, pois parece que plágios é o que não falta por aí e havia outras cópias em alta. O seu lusco fusco de fama já era pretérito mais do que imperfeito e Quim, agora Quim Enchidos – para não sair do talho nem deixar de vez as carnes – lá voltou para o seu tema de sempre, agora com um passado de estrelado mundial, do qual nem todos os músicos se podem gabar.

Tinha, todavia, novos e grandiosos planos. Desde que chegara de Londres que um novíssimo tema não largava a sua fervilhante mente de criador. Não tardaria e surgir-lhe-iam as notas e as rimas. A coisa estava por dias. Sentia-o no mais recôndito dos seus interstícios artísticos. Tinha de manter-se perto do seu papel pardo.

Moral da história: Para poder copiar à vontade e plagiar descansada e tranquilamente, saiba escolher bem o seu nome artístico.

By Achraf Baznani

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