A noite prometia muito. Muito, em quantidade, e muito, em diversidade. Para já, prometia neve, uma vez que se faziam sentir temperaturas gélidas por aquelas paragens do norte do país. A tal ponto negativas que Laura já sentia as extremidades a congelarem. Mal sentia os dedos das mãos, não obstante as luvas de pelica, forradas com uma fina camada de pelo de carneiro, e pior estavam os pés e as pernas, há muito insensíveis, protegidos apenas com umas meias de licra. Opacas, é certo, o que lhes conferia uma brevíssima espessura, mas ainda assim mais do que insuficientes para tão exigente tarefa: aquecer extremidades perante condições climatéricas siberianas. Mais ainda as de um corpo tão desprovido de provisões de gordura como o de Laura, mas esse era um valor que dava de gorjeta, à vida e à saúde, já que antes toda gangrenada com partes do corpo mortas e desoxigenadas do que gorda. Isso nunca! Não mostrar as suas intermináveis e sexy pernas também não era opção à altura dos seus padrões estéticos. O que seria ainda escandaloso ou mesmo obsceno quando se planeia o outfit para ‘a’ festa do ano. A mais exclusiva e desejada. Podia até vir a perder um dedo ou outro, mas não aparecer vestida para a ocasião, à real altura do evento, era inconcebível! O que seria?! Nem pensar!

Assim, completavam o seu visual um vestido muito glam-rock, todo ele lantejoulas e fibras de última geração, tão curto que muitos tolos, a viver na periferia do que era verdadeiramente fashion, poderiam tomar por uma curta t-shirt, os ténis do momento, costumizados pelo grafitter do instante, uma clutch feita de plástico reciclado com acabamento synthetic croco, e um casacão até aos pés de pele verdadeira, mas que anunciava como a mais brilhante imitação de pelo de alpaca – porque isenta de lanolina, à qual a sensível Laura era alérgica e porque também não era muito resistente aos apelos estéticos, nem assim tão dedicada à vida de outros seres vivos, não obstante ser presença assídua em manifestações em defesa de toda a qualquer minoria, porque eram um must da contemporaneidade cosmopolita, onde, obviamente, não apenas se enquadrava, como se destacava. Estava um es-tou-ro!!! Nada de falsas ou reais modéstias, sabia bem como estava incrível e a modéstia vai bem com muito pouca coisa do seu guarda-roupa, pelo que optou mesmo pelo estonteante e assumido look estrondoso, aquele em que era expert e que lhe granjeava, a cada dia que passava, mais e mais seguidores. Era uma influencer, era o que era, e ali, em Bragança, não havia muitas, pelo que era imperatriz do pedaço e nem as mães de Bragança e de restantes recantos do país eram pai para si. Ninguém chegava para Laura.

Frente à loja de eletrodomésticos do Izidro, uma paixoneta dos tempos de escola primária, Laura viu-se em tempo real nos muitos, e de vários tamanhos, ecrãs LCD virados para a rua e ligados às câmaras de vigilância. Confirmavam aquilo que já lhe tinham reportado os espelhos lá de casa. Estava giríssima! Jamais compraria o ecrã panorâmico, onde se achou franca e visivelmente mais gorda. Deveria registar isso no seu blog, Laurar a Pevide, a fim de avisar as suas ‘influenciadas’. Principalmente aquelas que gostam de se filmar em trajes menores, não vão depois acabar com mais uma arroba em cada anca no televisor daquele tipo giro para quem enviarem o vídeo “por puro engano”. Isto sim, era serviço público, conhecimento útil e prático. Não sabia como ainda não tinha sido convidada para um programa televisionado sobre toda a vasta enciclopédia de saberes pragmáticos que há muito acumulava e partilhava, e que iam desde como reparar uma unha partida, retirar olheiras de ressaca de vodka ou de vinho – que são bem distintas –, fazer um incenso caseiro, convencer, à distância, o chefe de que se está mesmo com escarlatina… O seu saber e engenho eram infinitos, e ambos estavam ao serviço da comunidade do mundo inteiro, daí todo o árduo investimento também na versão em inglês do seu blog, ‘Lauring the Pip’.

Estava quase a chegar à praça de táxis. Tinha solicitado o do Xavier, uma paixoneta dos tempos do secundário, mas a mulher do taxista – uma filha das mães de Bragança –, não lhe permitia aceitar serviços de mulheres desacompanhadas. Tanto pior “para ambos os dois”, desinteressou-se Laura. Sem perder tempo com mais telefonemas, pois estava em pulgas para sair à rua e mostrar-se, avançou para a praça de táxis. A fila que por lá encontrou era desencorajadora. Reconheceu a Lurdes esteticista, cujas dioptrias deveriam ter sido atualizadas há uma dúzia de anos, razão pela qual quando dizia meia perna, não se referia à parte da perna do joelho para baixo, mas sim, de facto, a apenas 50% de pelos removidos, já que a outra metade nem os via. O pior eram as virilhas e o buço, sempre salpicados de pelos mal semeados. A Lurdes podia não ver bem, mas a cera podia acertar nos restantes pelos, mas nem isso. Era um caso inexplicável. O preço era camarada e a conversa do melhor, daí ainda frequentar o seu atelier de estética de quando em vez.

Também viu o Custódio, uma paixoneta dos tempos de escoteiros, todo ele amassos com a Susana do Café Central. Parece que tudo começou com uma bica pingada, um travesseiro e dois ou três beijinhos de amor, tudo doçaria fina e conventual, mas, de beatice em beatice, eles ali estavam, no maior I Love You e a céu aberto. Ainda bem para eles. Tinham-na visto? Tinham. Boa. Era importante ser vista e olhada com admiração, já que toilette alguma se equiparava à sua. Percebeu, sem sombreados ou dúvidas, que a Susana do Central contabilizou como excessivo o tempo que Custódio demorou a avaliar todo o seu brilho, bem como cada centímetro das suas soberbas pernas. Houve amuos, azedume, discussão e acabaram por sair da fila. Tanto melhor. Menos tempo. Se bastasse que a olhassem, em breve os casais em espera não tardariam a ir-se embora. E só casais eram para aí uma dezena. Ficariam, depois, apenas cinco miúdas, três avozinhas e o dobro disso em machos.

Onde iria toda aquela gente àquela hora, fim de dia? Já não era regresso a casa. Iriam todos sair à noite? A concertos e a festas? Iriam à sua tão exclusiva festa? Duvidava. Era coisa muito seleta. Implicava até duas senhas codificadas, para dois possíveis acessos. Quase parecia o filme daquele outro, que já morreu, com aqueles dois, que foram casados e ele é beato da cientologia. Tinha os nomes debaixo da língua, mas como precisou dela para falar, varreu-se-lhe tudo aquilo da cabeça e acabou por engolir os nomes, por sorte, sem engasgos. Era um jovem bem-apessoado a perguntar-lhe se era a última da fila. Da fila, sim, mas apenas da fila. Jamais foi a última no que quer que fosse. Tudo fez em primeiro lugar: faltar às aulas, chumbar de ano, perder a virgindade, mudar de curso, andar com um professor mais velho e depois com um mais novo… Era a rainha da primeira vez. Enquanto praticamente despejava tudo isto para cima do atraente mancebo, que aguardava uma simples resposta de sim ou não, Laura sacou da sua cigarreira de ouro, lembrança de um eloquente embaixador, uma paixoneta dos tempos de faculdade, e, de cigarro na boca, aguardou para ver se o tipo se tocava. Tocou-se. Sacou de um Zippo e acendeu-lhe o cigarro, que ela sugou com sensualidade, enquanto observava melhor o rosto daquele indivíduo à luz da chama. Parecia cena de um filme noir. Haveria de escrever sobre este encontro, registava Laura interiormente, enquanto fraquejava um pouco perante os gazes do petróleo que o isqueiro deixara no ar. Que coisa magnífica, um Zippo. Como gostava de Zippos. Era a perdição dos norte- americanos na ilha Terceira, velhas paixonetas dos tempos que passou na base, num pseudoestudo sociológico sobre a vida em grupos rigidamente hierarquizados, que mais não tinha sido do que um plano para sair do país. Percebeu que os gringos eram tão bimbos quanto os tugas e, mal por mal, antes na santa terra do que do outro lado sabe-se lá do quê. Já Laura, era fã da clássica e fiável caixa de fósforos.

Sempre muito direta e expedita, Laura desafiou a bela criatura para chamarem antes um Uber e dividirem a despesa. Sempre era mais simpático e civilizado, além de que podia salvar-lhes a vida, agora que já nevava de facto e ela se sentia desfalecer. Entre tudo aquilo que não comia, para não engordar, o cheiro desconcertante do petróleo e o corpo todo ocupado em tentar mantê-la quente, o seu cérebro podia não durar até à festa. O tipo escusou-se. Que gostava de frio. Não se importava com a neve. Que estava com tempo. Que ela era encantadora… Encantadora? Encantadora é a Branca de Neve. Ela era potente. Um jato privado, senhores?! Encantadora? Percebeu tudo.

– Tens o teu homem à espera, não é darling?

O moço anuiu com desembaraço, o que agradou a Laura. Decidiram, logo ali, que seriam amigos para a vida. Gente cujo visual rimava daquela maneira não se podia separar sem planos futuros. Que alegria. A noite ainda nem começara e já tinha um amigo para sempre e um plano para sair dali mais rápido. Lá veio o Uber, para irritação do taxista que acabava de dar à praça, o primeiro em não sei quantos minutos, tal estava a noite. Era o inferno da locomoção.

– Leve-me ao paraíso! – anunciou Laura mal entrou no Jaguar aquecido. Até os bancos estavam quentes. O que os seus gélidos ossos agradeceram tudo aquilo.

– E pode ir devagar, que isto aqui também não é nenhum purgatório –, gracejou ainda, enquanto se sentia derreter ao abrigo do ar condicionadíssimo do bem conservado veículo automóvel.

– O Paraíso? Sabe a morada?

Apesar de muito, muito engraçado, Laura percebeu que ali faltava coisa: ou cérebro ou sentido de humor. Podia viver-se sem um ou outro, mas dando-se o caso de falharem ambos, o que era muito frequente por razões de lógica absoluta, aquele adivinhava-se um caso perdido. Estaria apenas a ser formal? Estaria tudo aquilo a ser gravado e filmado por questões de controlo de qualidade, mesmo sendo ilegal? Seria um novo reality show? Representaria o seu melhor papel de mulher jovem, solteira, emancipada e sexualmente livre e desinibida. Só podiam estar a ser filmados, havia uma ténue e discreta luzinha vermelha que fingiu não ver. Que o show começasse, ela estava pronta para o seu close-up Mr. DeMille. Transformando ruelas escuras em sunsets boulevards, Laura entrou no seu papel de diva, entre a sedutora e ingénua e a louca dominadora.

– Qual é o paraíso mais perto? Ou aquele que melhor conhece? Para mim, qualquer um dos dois é perfeito.

Cada vez mais confuso, o motorista abrandava o andamento. Insistia com uma indicação de morada, que o GPS não reconhecia paraísos por perto… Laura ia despejando gargalhadas sonoras e em A, como as das divas de Hollywood dos anos ‘50. Hoje, já ninguém ri assim. Já não se faz um falsete. Já mal se ri em A. Aliás, já mal se gargalha. Tudo agora é metido para dentro. Talvez por causa disso, do seu riso desbragado, o homem assustou-se e perguntou-lhe se estava bem. Respondeu que sim, mas que enjoava no banco de trás pelo que já estava de mudanças para o da frente. Entre o desconforto e o entusiasmo, de ver tanta perna descoberta a avançar para o banco do lado, em manobras que lhe pareceram perigosas, o homem estava cada vez mais perdido e boquiaberto. Foi então que explodiu a bomba.

– Você não é nenhum transexual, pois não?

De entre o milhão de coisas que lhe passaram pela cabeça, aquela que mais a incomodou e a tirava do sério era o mau uso do Português.

– E você não é inteligente, pois não? Não sabe que tal como na matemática juntar duas negações é afirmar precisamente aquilo que pretende contrariar? Idiota chapado. Bruto. Analfabeto. ‘Não’ e ‘nenhum’ anulam-se, sua besta. Se não sou nenhum é porque sou algum, verdade?

– Eu calculei logo. Mas não se ofenda, apenas percebi isso porque, sendo mulher, jamais olharia para mim, não tenho essa sorte.

– O que você não tem é cérebro, seu acéfalo desmiolado. Tira-me de tal forma do sério que até me está a fazer cair na redundância e a afundar-me no pleonasmo. Pronto, cá estão eles de novo. Sabe que mais? Este não pode ser o início de numa noite tão importante. Pare de imediato esta geringonça que eu já estou a ressacar, a sentir falta de uma boa conversa e não há pior privação do que essa.

Entre o amedrontado e o chocado, o motorista parou radiante e aliviado. Laura atirou-se com estrondo para o meio da rua e bateu com a porta. Que estafermo de homem. E se fosse transexual? Qual era o problema? Era gente do melhor que veio ao mundo. Ela própria já tinha andado com um, uma paixoneta de verão, que só terminou porque ele insistiu em pôr mamas e mais do que as suas numa cama, Laura achava medonho. De novo gelada, a bater o dente e tudo o resto que ainda conseguia tiritar, Laura enterrava os pés na neve e acreditou piamente, porque era mulher de fé e coisas pias, que podia morrer nessa noite, mas jamais ali, no meio da rua e ainda tão perto de casa. De polegar em riste, foi para a via rápida e não tardou a que parasse um carro. O destino tem destas coisas, era Deométrio, uma paixão dos tempos em que encantara no varão, lá para os lados de Sesimbra, bem mais a sul. Que fazia ele por ali? Nem queriam acreditar na tão feliz coincidência. Pois bem, era Dj e produtor musical e andava ocupado com uma banda local que prometia mundos e fundos e tinha as mais escandalosas tatuagens do planeta. Meio perdido, não dava com o caminho para a pousada e parecia-lhe que andava em círculos há mais de meia hora.

Era o destino. Era Deus e o Diabo. Era ma-ra-vi-lho-so! Laura decidiu pelos dois que iriam ambos à festa do século, já que o convite dela era extensível a dois, apenas não encontrara par à altura, nem achara conveniente, para melhor poder escolher parceiro no local. Agora, porém, perante tamanha casualidade, ele ali estava, o seu par, com uma fatiota toda avant-garde e muito trashy e tudo. O velho era, de facto, o novo novo. Juntos, eram escandalosos de tão giros. Deométrio achou piada e embarcou na coisa, além de que tinha boas lembranças da destrambelhada da Laura, sempre disponível para a farra. Rumaram ao Paraíso, nome de código da festa, a qual decorria no meio de um bosque, em plena serra, numa serração abandonada e cuja localização era apenas conhecida dos convidados. Tudo muito GPS, explicou Laura. Inseridas as coordenadas, lá seguiram viagem. Sim, ainda era uma viagem de pelos menos duas horas. Um inferno, afinal. Teria de retocar a maquilhagem antes de chegarem.

Cansado, e com menos pilhas do que Laura, Deométrio ia perdendo o ritmo e a vontade, mas já tinham percorrido demasiados quilómetros para que desistisse agora, já para não referir o facto de não estar preparado para um dos ímpetos de mau humor de Laura, os quais ainda recordava com bastante nitidez. Calou a sua falta de vontade, mas não conseguiu controlar o sono que já sentia. Laura, que ainda não se tinha calado um segundo, ia embalando o seu distanciamento, e nem reparava como ele já cerrava os olhos. Claro que acabou mal. Enfiados numa árvore e ele que não havia maneira de acordar. Estaria morto? Que maçada, pensava Laura. Tudo a correr tão bem e aquele contratempo. Chamou o 112, mas não ficou para o resto da história. Enviou uma SMS para o telefone de Deométrio dizendo-lhe que caso se sentisse melhor depois de acordar, que fosse ter com ela à festa. Como estava de luvas, não corria o risco de ter andado a semear impressões digitais e ninguém saberia que ela tinha estado no carro, e mesmo que ele não acordasse – o que muito lamentava por antecipação –, jamais a associariam ao acidente, o qual não era, de todo em todo, da sua responsabilidade, pelo que também não fazia sentido ficar para ali a aguardar notícias. Amigo não empata amigo. Assim, célere e fresca, muito fresca, na verdade, que no campo o frio e o gelo eram ainda mais insuportáveis, lá se embrenhou pelo mato, dando graças a Deus por estar com calçado todo-o-terreno. Pelas suas contas estaria perto do local, pois já andavam há bem mais de uma hora e, segundo assegurava o seu Google Maps a coisa era já ali à frente. A vinte minutos a pé, anunciavam com precisão. Não é que era mesmo? Já vislumbrava umas luzes e o som a bombar.

O armazém estava delimitado por uma cerca rural, que não pôde galgar por terminar em arame farpado e receou pela sua alpaca. Acompanhou o perímetro da vedação e lá deu com o primeiro controlo. Os seguranças eram giríssimos e estavam com barretes de pelo como os dos soviéticos. Percebeu logo a razão de ser da primeira senha:

– ‘Eu sou a Anita e estou de visita à Rússia.’

Deixaram-na passar, mas não sem antes a apalparem duas vezes cada segurança. Sim, Laura já tinha sido revistada e apalpada vezes suficientes para saber distinguir entre a busca de armas e a procura de curvas. So far so good, congratulou-se. O pavilhão ficava uma série de metros mais à frente, sempre a direito, e o caminho ladeava-se por uma infinidade de carros. Ainda bem que tinha ido a pé, caso contrário, o tempo que não perderiam a estacionar. Aquilo estava à pinha. Segundo controlo. Bloqueou. Não se recordava da segunda senha. Tinham-lhe pedido que não anotasse nenhuma das duas, por questões de segurança – e nisto de segurança ela não arriscava desobediências –, só que, agora, não se recordava. Seria a canção da Abelha Maia? Seria Ágata? Teria a ver com mel? Com o povo Maia? Com os Maias do Eça? Não se tinha dado ao trabalho de encriptar a coisa mnemonicamente e agora estava desesperada, ou algo parecido, que não conhecia muito bem o desespero para que o reconhecesse logo, logo. Dirige-se dengosa, já com o plano B em pleno andamento, e, no segundo posto de controlo, dá de caras com o Salsicha – uma paixoneta dos seus tempos de jazz. Estaria safa? Estava mesmo. Vieram de lá abraços, beijos e ‘lembrancinhas’ desses tempos. Como estás, como não estás e já lá estava dentro.

Do melhor. A música, a fauna, os cocktails… Tudo cheirava a liberdade e loucura, exceto a chata proibição de fumar no recinto – Laura desatou a fazê-lo antes que fosse apanhada por algum polícia dos fumos. Tinha um sério problema com proibições, desatando a desobedece-las compulsivamente, logo que com uma se deparava. Era mais forte do que ela. Uma compulsão a ser tratada, mas não ali, claro está. Fora isso. Os visuais eram extraordinários. Os visuais eram do melhor… Os visuais, por falar nisso e reparando melhor, percebeu Laura que eram muito naturistas. Parece que a ideia era despir tudo, ficar na bela da pelota. Adorou a ideia. Disseram-lhe que se deveriam colocar todos os pertences num molho de roupa que se erguia já quase até ao teto. Aí, tudo mudou. Laura gelou. Aquilo só lhe trazia à memória histórias da negra Alemanha nazi e de como os porcos fascistas enganavam os pobrezinhos dos judeus, dizendo-lhes que se despissem que iam tomar uma banhoca. Bloqueou. Ficou colada ao chão. Que coisa aquela. Tudo a correr tão lindamente, a hipótese de ver toda aquela gente nua e poder escolher, sem surpresas nem desilusões, o parceiro para essa noite e um bloqueio psicossomático daquela magnitude. Não queria acreditar. Só sabia que tinha de fugir. Sair dali o quanto antes. Com os pés quase a tocarem aquele molho de roupa… Foi de mais para Laura. Largou a beata e desatou a correr. Já na rua, mais recuperada daquele episódio praticamente psicótico, pôde respirar fundo. Porque tinha de ser uma pessoa tão sensível? Porque não podia viver livremente como os restantes humanos? Porque tudo lhe era tão pesado na consciência e sentido pelo seu bondoso coração?

Correu sem parar até estar de novo na estrada de alcatrão. Uma vez aí, ouviu uma enorme explosão. Bem que tinha pressentido, eram o raio dos nazis. Correu sem parar. Nisto, deu com o carro do Deométrio. Ainda aguardava a ambulância. Meteu-se lá dentro. Deométrio, afinal, respirava ainda. Que bom para ele, pensou, naquele seu registo hipersensível. A temperatura roçava os muitos negativos. Enroscou-se nele. Adormeceu, para acordar sobressaltada horas depois com as luzes da ambulância. Refilou pelo atraso, que aquilo era inadmissível, que quase morriam gelados, que teve de acender fósforos e queimar algumas purpurinas para se manterem minimamente descongelados, que mais isto e mais aquilo. Que o pobre do homem devia ter alguma costela partida, que há horas não dizia palavra…. Quando finalmente conseguiram falar, e já com Deométrio estabilizado e ainda vivo, os bombeiros lá conseguiram desculpar-se. Parece que tinha havido uma explosão enorme, num pavilhão onde decorria uma festa clandestina, sem as necessárias medidas de segurança, onde uma simples beata foi responsável por um verdadeiro desastre, ateando quase uma tonelada de roupa que acabaria por fazer explodir todo o pavilhão e, horror dos horrores, gente nua por todo o lado… Um cenário aterrador, relatavam de forma breve os voluntariosos bombeiros. Laura calou-se, mas percebeu o quão exagerada era aquela gente provinciana. Pois se lá tinha estado e aquilo não era nada mau nem a gente nua era um horror, pelo contrário. Enfim, pareceres. Cada um tem o seu.

Por outro lado, percebeu como era abençoada. Laura ajoelhou-se e rezou. Era S. Bernardino – uma paixão dos tempos da igreja –, a olhar por si. A lembrar-lhe que nunca, mas nunca mesmo, saísse de casa sem uma boa caixa de fósforos de cozinha, para qualquer eventualidade e porque os isqueiros não são de confiança. Fora ele, seguramente, a enviar-lhe aquele tão forte sinal para se ir embora. Provavelmente, estava a indicar-lhe o caminho para os braços de Deométrio, cuja vida, asseguravam agora os bombeiros, ela acabara de salvar com o calor do seu corpo e das purpurinas queimadas. Laura benzeu-se. Ser boazinha compensava tanto!

Moral da história:

Não queira ser beata. Têm vida curta, um odor desagradável e incendeiam qualquer paciência. Pode acabar mal.

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