Sorriu com amargura. Reconhecia bem aquilo que lhe ia no peito, apertando-o, estrangulando-o, fazendo-a sentir-se patética e humilhada. Constrangida. Minguada. Reconhecia bem o sentimento, mas não o compreendia. Recusava-se quase a aceitá-lo. Não pertencia a si. Não naquele momento. Não naquele lugar. Desfasado e extemporâneo. Fora de tempo e espaço adequados. Como podia estar a sentir-se assim, se… Nada daquilo fazia sentido. Porém, quanto mais pensava no justificado desajuste, no muito que havia em tudo aquilo que apenas jogava a seu favor, que a ilibava de sentimentos estranhos e constrangimentos inadequados, pior se sentia. Mais incomodada e sem palavras ficava. Mais insignificante e triste. Como podia permitir-se tamanho agastamento? Porquê sucumbir daquela forma, quando lhe bastava sorrir e sair dali?! Apenas isso. Porta fora. Não deixava dívidas, nem enganos, nem mentiras. Deixava apenas nada. O mesmo nada que havia naquele local antes de lá ter entrado. A sua presença não apenas tinha sido aleatória como inconsequente. Apenas mais uma cliente. Tão somente mais um café expresso, cheio e sem açúcar. Não era sequer a pastelaria de sempre, na mesa ao canto de sempre, junto à janela. Não era a Guida a servi-la, pois não era ali que a Guida servia à mesa, sempre com um sorriso e sem nunca se esquecer do copo de água natural. Tudo tinha sido tão circunstancial. Acaso atrás de acaso. Porquê, então, tudo aquilo que crescia ainda no seu peito agigantando-se até às lágrimas que já lhe estrangulavam a garganta, seca e dorida? Pois se mal se conheciam. Ainda hoje de manhã…

 

Hoje de manhã nada daquilo existia no peito de Gabriela. Era um daqueles raros despertares. Leves e imediatamente felizes. Bem-dispostos, sem preocupações e, desde logo, ao som de um tema. Não descortinava todas as notas, nem reconhecia ainda a música. Tardaria a revelar a imagem completa daquele som, banda e tema. Era, então, apenas uma melodia intermitente, uma linha do refrão, um pedaço do final… Era uma manhã alegre, sem ser acometida, desde o primeiro pestanejar, por tudo aquilo que teria pela frente, a começar pelo dilema de sempre sobre o que vestir naquele dia. Como seria aquele dia? Que dia da semana era? Quais os principais assuntos da sua agenda para as próximas 18 horas? Foi retomando o fio à meada lentamente, sem pressas nem stress. Uma reunião a meio da manhã. Um e-mail urgente a ser enviado logo que chegasse ao gabinete. O melhor de tudo? Almoço livre. Sem compromissos. Talvez tivesse sido essa perspetiva, a de um almoço longe de assuntos de trabalho que, no seu subconsciente, a tivesse deixado assim. Poderia ir às compras, ou apenas almoçar junto ao mar, ou decidir não almoçar de forma convencional, apenas comprar uma salada e ir para um jardim. Escolher uma sombra agradável, eleger a árvore mais bonita e deixar-se estar a observar a vida dos outros. Apenas isso, ou aproveitar para saldar dívidas com o ginásio. Podia ligar à Kikas, que era sempre diversão garantida, com o muito que lhe acontecia ou que ela inventava, e que, fosse como fosse, relatava de forma hilária. Sempre com muito sexo e tiradas cáusticas à mistura.

Ainda hoje de manhã, era uma mulher solteira. Alegre. Longe de todos aqueles sentimentos sufocantes, opressivos e tristonhos, a lembrarem-lhe a enorme volatilidade das emoções humanas. Queria ignorá-los, contrariá-los, puxá-los para o campo da lógica, colocá-los sob a alçada da racionalidade, mas eles tinham vida própria, desligados que estavam da sua mente, do racional, obedecendo apenas ao ritmo descompassado do coração. Tinham-se alojado no único local onde não chegava, que não alcançava, nem com a maior clarividência. Lanterna alguma, ou sol que fosse, chegariam para iluminar o recôndito lugar onde toda aquela errática manifestação de protesto se levava a cabo. Parece que o coração é impenetrável. Nem de peito aberto, aquela operação poderia ser bem-sucedida. Tentava animar-se, autoelogiando-se. Estava à beira de mais uma promoção, sentia-se particularmente apta e capaz para levar a empresa mais longe e os sócios estavam reconhecidos por isso. Tinha uma futura casa em vista e a nova decoração já lhe bailava na cabeça, com ritmos tropicais e um toque de industrial-chic. Uma mistura inusitada, mas que, na sua mente, mereceria figurar em sites de design ou ser capa de revista de decoração. Até o seu cabelo estava, hoje, particularmente sedoso e brilhante. Tinha calçados aqueles sapatos novos de que tanto gostava, e pulsava em si, desde que se levantara, aquela rara sensação de poder e autossatisfação. Voava sobre os outros. Flutuava acima do chão. Recordava cada uma destas sensações de forma isolada, na tentativa de, agrupando-as, reunindo-as num mesmo pacote, elas a catapultassem para essa sensação de bem-estar que agora cavalgava para longe de si. Imparável. Já tão distante.

Ainda hoje de manhã se sentira tão poderosa, tão feliz e independente. Tão leve e sedutora. Bom, talvez por isso, por se sentir atraente e atraída pela vida e pelos outros, se sentia, agora, daquela forma. Logo hoje, que estava tão cheia de boas vibrações. Logo hoje, uma coisa daquelas. Começou por, a fim de quebrar a rotina, ir beber o primeiro café do dia num sítio diferente do costume. Longe da mesa do fundo, junto à janela, onde a Guida já sabe o que servir. Optou por uma esplanada mais perto do rio, mais moderna, por onde passa toda uma fauna de gente mais contemporânea, mais jovem e sensível aos life trends do momento. Aí, ficou a perceber que não lhe bastava pedir um mero café. A lista de possibilidades era de tal modo extensa, que confundia qualquer mente ainda não completamente desperta, como era a sua antes do expresso matutino. Com canela, com leite, com menta, com nata, com espuma… Isto além das tradicionais pingada, curta, dupla, italiana… Gabriela apenas queria um café, a clássica bica, cheia, sem açúcar. O empregado, um jovem que parecia saído do catálogo de uma agência de manequins – o que só podia ser mesmo verdade –, quase a olhou com pena. Coitada dela que ainda não conhecia os deleites de um café sofisticado e se ficava pela singela e desengraçada bica. ‘Pobrezinha’, pareciam dizer-lhe os olhos encantadores daquele jovem e belo mancebo. Gabriela emitiu-lhe aquilo que poderia ser interpretado como um sorriso culposo, embaraçado, como se necessitasse de desculpar o seu provincianismo. Esse foi, todavia, o momento-chave para o que se seguiu. Um completo estranho – que, a avaliar pelo estilo ultramoderno, de uma sofisticação blasé muito bem calculada, a fim de passar por isso mesmo, bem que poderia ser o dono da agência onde haviam recrutado o empregado –, dirige-se-lhe naquilo que lhe pareceu uma missão de conforto, uma boia salva-vidas naquela situação de aperto social.

– O simples até parece fora de moda, não é? Quando deveria ser a única moda permitida e internacionalmente reconhecida…

O homem parecia estar dentro da sua cabeça, pois interpretou com exatidão aquilo que Gabriela pensava para dentro. Sorriu àquele encantador estranho, balbuciando coisas que não tinham sido pensadas.

– Sim. Isso que diz é tão verdade! Um café expresso deveria ser apenas isso, um café expresso, uma bica.

– Ou um simples cimbalino, como se diz na minha terra – acrescentou ele com desembaraço. Como se meter conversa com estranhos fosse a sua profissão, o seu métier.

– Importa-se que me sente na sua mesa? É a que tem uma tomada mais perto e necessito de ligar o portátil…

– Claro, esteja à-vontade, até porque não demorarei muito e poderá ficar com a mesa só para si.

– Ah, também não demoro, preciso apenas de responder a um e-mail, urgentemente, mas estou sem bateria.

Enquanto a sua triste e simples bica cheia sem açúcar não chegava – não obstante pedidos bem mais sofisticados lhe parecerem sair para outras mesas a uma velocidade incrível, como se o difícil fosse tirar um expresso –, Gabriela e o seu estranho encetavam conversa de circunstância, sempre o mais difícil dos diálogos, por exigir um delicado e semi-envergonhado à-vontade, algum humor e simpatia quando, na verdade, não se sabe como tudo isto será recebido, ou até se o interlocutor merece tamanho empenho. Ele era um sedutor nato. Educado, culto, requintado, mas muito simples. Tinha um radar apuradíssimo e cedo percebeu como derrubar as primeiras barreiras que ela montara imediata e instintivamente, sendo a mais óbvia, enfiar-se, com afinco, nos meandros do seu telemóvel, o qual, na verdade, Gabriela mal olhava.

By Henri Cartier-Bresson

– Não pense já nisso, tem tempo para as preocupações do resto do dia. Só deveríamos preocuparmo-nos com o trabalho, depois de apreciarmos, pelo menos, três coisas boas. Que o seu café expresso, simples, simples, seja uma delas. Quer que eu peça para fecharem o guarda-sol, para poder apanha sol e carregar as suas baterias com energia pura? Já seriam duas coisas boas.

– Faz listas de tudo?

– De tudo não, mas saborear três coisas boas antes de avançar rumo ao resto do dia devia ser uma regra mundial, uma lei universal para humanos, não lhe parece?

– Isso vindo de quem precisa urgentemente de enviar um e-mail quando ainda não são oito horas da manhã…

– Ah, sim, mas eu já me tive as minhas três coisas boas. Você é a terceira desta manhã, pelo que já estou ilibado para me poder embrenhar em preocupações.

Gabriela receou o caminho que a conversa poderia levar, mas sentia-se bem, ali, já ao sol, um sol morno e relaxante, junto daquele estranho giro e interessado em saber coisas sobre si. Faltava o seu café e também ela poderia dizer que já tinha as suas três coisas boas. Era uma ideia simples, mas curiosa, que a forçaria a pensar em si logo cedo. Uma espécie de três desejos diários, para cumprir antes de qualquer chatice. A ideia agradava-lhe. Aproximava os humanos dos animais, bem mais cientes dos pequenos prazeres do momento. Por outro lado, pensou, seria ele um qualquer guru de lifestyle? Acabaria por sair dali a achar que passara os primeiros minutos do dia social junto de um charlatão? De um tipo que passa o tempo a meter conversa com mulheres sozinhas nos cafés da moda? Esse pensamento horrorizou-a. Mas o seu interlocutor de ocasião parecia o oposto de tudo isso. Sem filtros, sem reservas, sem se preocupar, de verdade, com o que pudessem pensar de si, tão livre e autoconfiante.

– Talvez não devesse falar assim com uma estranha.

– Assim como? Não há nada mais agradável do que conhecer uma mulher atraente logo pela manhã e ter a possibilidade de falar com ela. Claro que a tomada era importante, por causa do computador, mas tê-la aí quase parecia um sinal dos deuses. Num qualquer anúncio televisivo, você teria uma seta de néon em cima da cabeça, para que o protagonista masculino não se perdesse. Como naquela versão do Capuchinho Vermelho do…

– Tex Avery, aquele néon a indicar a casa da avozinha no Red Hot Riding Hood …

– Não acredito! Qual a probabilidade de uma estranha com quem acabo de meter conversa conhecer essa preciosidade?

– Uma questão geracional, seguramente.

– Não, não. É bem mais do que isso. Quase me apetece falar de destino, mas aí passaria por romântico e isso seria dizer de mais sobre mim a uma pessoa cujo nome ainda desconheço.

Ela riu.

– Gabriela, e agora que já sabe o meu nome pode avançar, sem receios, com o descritivo.

– Calma, senão ainda acabo a mostrar-lhe fotos de gatinhos ternurentos que vivem no youtube.

Gabriela riu. Estranhamente, sentia-se em casa, com todas as suas reservas iniciais a caírem por terra, uma a uma. Aquele homem tinha sobre ela o mesmo efeito do sol, ia-a amornando, tornando-a recetiva e descontraída. Ficou a saber que ele era criativo com agência própria, mas apenas para conteúdos online, pelo menos foi isso que ficou a perceber, que se chamava Manuel, que fazia espeleologia e gostava de cozinhar. Um achado. Inédito, ainda por cima.

Enquanto a conversa se tornava mais e mais amistosa e descontraída – já com um segundo café a caminho, e Gabriela e o seu estranho a parecerem ter cada vez mais coisas a contar um ao outro –, ela pensava como era extraordinário quando baixamos a guarda. Afinal, divertia-se. Devemos mesmo falar com estranhos, concluía de si para si, que é a melhor forma de concluir algo. Na verdade, apenas deveríamos falar com estranhos, tentar a sorte, mostrarmo-nos disponíveis para os outros. Para os ouvir e para lhes contar coisas. Podia até ser receitado como terapia. Em caso de solidão ou tristeza, encete conversa com dois ou três estranhos por dia, cuidado que provoca habituação.

Ainda hoje de manhã bem cedo, aquele homem não existia na sua vida. Agora, Gabriela questionava-se sobre onde andara ele tanto tempo, quando era óbvio que deveriam estar juntos? Rir e falar todos os dias. Uma bica no sítio errado e um mundo de possibilidades. Trocaram contactos, adicionaram-se nas redes sociais, sentiram-se ainda mais próximos por terem uma série de páginas e interesses em comum, por seguirem os mesmos sites… Lá bem no fundo, Gabriela já se sentia apaixonada, já só magicava numa forma de poder voltar a estar com aquele homem, hoje ainda, se possível fosse. E se partisse de si o convite? Sim, fazer as coisas de forma diferente estava a granjear-lhe ganhos inimagináveis. Sentia-se uma pessoa diferente, ainda com mais poder. Triplicara a sua já considerável segurança… Arriscava o convite? Um jantar. Numa cervejaria, talvez. Um local descontraído sem grandes implicações românticas. Apenas um follow up deste primeiro encontro, para perceber se tudo se mantinha intacto. Se a magia se repetia ou se tinha tudo sido fruto de excecionais circunstâncias. No final do dia, o cabelo dela já não estaria tão brilhante nem ele tão sedutor e poderiam então reavaliar interesses e embrionários afetos. Isso. Era uma ótima ideia. Quase sem perceber que ele ainda falava, Gabriela atropela-o com delicadeza e tira, de repente, aquilo de cima de si, arremessando-lhe o convite. O alívio dela é imediato e ele parece reagir com um olhar sorridente e cheio de promessas, o qual, todavia não coincide, nem em género nem em número, com aquilo que Gabriela esperava ouvir, mesmo que a resposta dele fosse negativa.

– Fantástico. Mas só posso a partir das nove, há problema!? É que a minha mulher hoje sai tarde e ainda teremos de ir levar os miúdos a casa de um dos avós. A minha mulher vai adorá-la. Têm o mesmo sentido de humor.

É nesse preciso momento que uma manada de cavalos selvagens irrompe, num galope desenfreado, pelo peito de Gabriela. Indomáveis. Imparáveis. Inigualáveis. Puros e enlouquecidos. espezinhavam-na por dentro, incitando-a a sair dali a correr. Sem olhar atrás. Sem medo de cansaços. Apenas correr. Pelo prazer do esforço. Pela liberdade. pela loucura.

Ainda esta manhã, aquele homem não existia na sua vida. Não existindo na sua vida, o mesmo seria dizer que este homem não existia antes disso. Representava nada. Era ninguém. Um zero à esquerda dos seus afetos e sentimentos e da sua lista de contactos. Como é que, então, este completo estranho lhe parte o coração em menos de meia hora? Como foi permitir que tal acontecesse? Ter-se-ia ele profissionalizado em esbanjar charme para cima de toda a gente? Seria um tonto idiota que não percebesse que tudo aquilo que fazia só tinha uma leitura: sedução?! Que não havia espaço para segundas interpretações? Estaria ela tão carente e sozinha que qualquer atenção que lhe dispensavam era logo vista como tentativa de romance? Engate, na certa? Não sabia o que pensar, o que dizer. Já tinham trocado contactos. Não podia simplesmente apagá-lo, ignorá-lo, faltar ao encontro. Mas também não podia, e isso era garantido, ir jantar com um casal de estranhos. Seria absurdo. A não ser que dedicasse esse dia a acontecimentos exóticos, a eventos estapafúrdios. Porque não? Teria o seu interesse sociológico. Mas seria deprimente, seguramente. E se estivesse a virar costas a dois possíveis bons amigos? Bem vistas as coias, Gabriela sabia que o seu comportamento e conjeturas obedeciam aos velhos manuais de entendimento social, que estava a ser preconceituosa, que ele falou com ela como falaria com um homem que estivesse naquela mesa, apenas adaptou o discurso por estar perante uma mulher atraente. Mas não teria ele grande parte da culpa de todo o mal-entendido que provocou na sua cabeça? Falaria, de facto, ele assim com todas as pessoas que cruzavam o seu caminho? Sempre com empatia e capacidade para se colocar no lugar dos outros? Todos precisamos e queremos atenção. Ele parecia saber isso, fosse intuitiva e genuinamente, fosse por qualquer interesse ou ferramenta social que desenvolvera. Ele envolvera-a e, se não estava ciente disso, então este homem também teria as suas enormes falhas, concluía Gabriela.

By Camilla Akrans

Ainda hoje de manhã este homem não existia, nem cavalos selvagens no seu peito. Porque razão sentia agora ciúmes dele? Que sentido isso fazia? E se lhe dissesse precisamente tudo isso que acabara de pensar? Porque não? Porque escamotear verdades quando este homem parecia manipular – sim, manipular era o termo, que outro havia? – os sentimentos alheios? Ou teria sido ela a primeira real culpada, por falta de meter conversa com estranho, por falta de se permitir conhecer outras pessoas? Mas não giraria sempre tudo em torno do sexo e da atração? Principalmente entre estranhos? O que leva dois desconhecidos a comunicarem? A encetar uma conversa? Sexo ou outro interesse? Fora isso, os outros, qualquer outro, simplesmente não nos interessa. Mas isso era tão cínico. Seria apenas a sua visão mirrada do mundo e das pessoas? Sentia-se a culpada de tudo aquilo.

Ainda esta manhã, Gabriela amava a pessoa que era. A mulher em que se tornara. Mas meia hora bastou para que, a simpatia e interesse de um mero estranho, a fizessem rever-se por completo. Reavaliar-se. Tinha de sair dali. Repensar tudo aquilo. Ele tinha-lhe partido o coração e a imagem que tinha de si mesma. Por culpa dele sentia desprezíveis ciúmes. Queria ter chegado primeiro à vida deste homem, mas isso já não tinha solução. Era apenas uma estranha na mesa mais perto da tomada de eletricidade da rua, sozinha, numa esplanada onde ninguém parecia saber o que era um café expresso.

– Encontramo-nos logo, certo? – Reforçou Manuel enquanto ela se despedia atabalhoadamente, alegando pressas e atrasos, que eram, por essa altura, já bem reais.

Aquele lugar da moda, a sofisticação das pessoas nas mesas circundantes, a moleza que o sol lhe emprestava e até a beleza do jovem empregado não lhe permitiram outra resposta, aquela outra, bem mais desejável e consentânea com o que lhe ia lá dentro, aquela que todo o seu corpo gritava por lhe atirar à cara. Ou, assumindo responsabilidades naquela conversa de bem querer, estaria Gabriela a ser sincera quando respondeu, disfarçando o enorme rombo no seu orgulho ferido e a inexplicável humilhação interior:

– Claro que sim. Estou doida por conhecer a sua mulher.

E agora? O que fazer? Depois de dito o sim, depois de anuir em comparecer a um encontro que ela própria sugerira, como recusar? Como não aparecer? Indicaria que teria sido ela e apenas ela e a sua mente perversa a conjeturarem aventuras sexuais e a urdirem maliciosas possibilidades de romance, como se, vinda da Idade Média, ela não pudesse simplesmente encetar conversa com um estranho giro numa esplanada sem que isso implicasse cama ou algo do género. Que imagem passaria? E teria isso real importância? Não era preferível ir para casa lamber calma e sossegadamente as suas feridas e reavaliar os seus códigos sociais? Aparecendo, o que diria? Não acabaria com o mesmíssimo rótulo aos olhos, bem mais sofisticados e intuitivos, seguramente, da mulher daquele homem giro? Não iria essa mulher contrariada também, apenas para garantir que o marido não jantasse com uma estranha com o cio? Seriam ambos depravados e angariariam desta forma outras mulheres para as suas ménages sexuais?

E aqueles cavalos, cujos cascos de encontro à seca e poeirenta terra batida ecoavam ainda no seu coração, que não encontravam o caminho de regresso a casa. E pensar que nada disto era concebível, ainda hoje de manhã.

Partilhar