Preso a uma cama de hospital, onde descansava um estranho, inexplicável e profundo coma, Gulliver assemelhava-se a um raro, ou até já extinto, mastodonte de outras eras e de estranhas paisagens terrestres. Uma montanha de matéria humana, um promontório de gente. Um colosso disputado por feiras de horrores e outras macabras atrações. De costas, estirado naquela cama minguada, por onde todos os seus membros escapavam, para enorme desassossego de enfermeiras e equipa médica – o que acabaria por forçar macas de apoio laterais para os braços e mãos, e uma outra aos pés, a fim de amparar as monstruosas pernas e os seus gigantescos pés – para que o sangue circulasse na tranquila conformidade da horizontalidade e, assim, evitarem-se gangrenas e outros males, Gulliver avolumava ao centro, qual pico do Evereste, mas mais abaulado, a sua disforme barriga. Um ventre descomunal. Uma massa de carne que se elevava no amplo pé direito daquele quarto de hospital, roçando quase o teto. Entre o términus desta gravidez masculina e o longo candeeiro de luz fluorescente preso ao teto, talvez apenas um palmo de distância. O seu inusitado tamanho obrigara a que lhe dispensassem um quarto apenas para si. Não que os outros comatosos se fossem incomodar com a alarvidade monstra deste homem, extraordinariamente hirsuto, ainda para mais, mas porque o espaço se tornava exíguo e insuficiente para mais do que aquele monstro centrado no meio da divisão, em torno do qual um afã de enfermeiros e fisioterapeutas tentavam manter as carnes hidratadas, os membros articulados e os músculos mais ou menos despertos. Um trabalho extremo, que implicava o uso de escadotes e quilos de creme gordo, a fim de conseguir, minimamente, alcançar todos os recantos e interstícios da pele daquele gigante.

A visão extraordinária de tal paciente, rapidamente correu por todos os corredores do hospital, precipitando uma louca peregrinação até ao quarto de Gulliver, onde médicos, enfermeiros, auxiliares, equipas de limpeza, seguranças e administrativos não se cansavam de ir espreitar tal portento. Não se tratava de um obeso mórbido, mas de um homem enorme. Tão enorme que era raro. Único. Ímpar. Jamais se viu e jamais de veria. Cerca de quatro por três, ou coisa que o valha. Não era um armário, era um edifício de homem. Em apenas uma semana e já ia em dez o número de funcionários do hospital despedidos. Incrédulos perante tal alarvidade, tinham começado a postar fotos de Gulliver nas redes sociais, o que deu origem a bem interpostos processos disciplinares e despedimentos sumários, por conta da privacidade dos pacientes e porque se gerou uma onda pública de repúdio por tal falta de ética dos funcionários hospitalares, a bem da verdade, espelhada por outra, em nada menor, de curiosidade mórbida, que levou o pobre de Gulliver, não obstante a sua imobilidade forçada, a todos os cantos do mundo. Enfim, cantos desafogados que ele, como já se percebeu, não se acomodava em qualquer vão de escada. Todas estas questões eram acompanhadas com interesse pelo próprio paciente, cuja mente ‘fremitava’ num muito consciente e insuspeitado alerta. O terno gigante, comovia-se com as delicadezas e atenções e culpabilizava-se pela tão grande trabalheira que causara por, simplesmente, ter caído para o lado um dia, sem energia própria para sair daquele estado de prostração. A vida não é fácil, para um homem gigante como ele e como mais ninguém era. Nem sequer poderia partilhar experiências ou soluções com outros, na medida em que não havia pares para si. Por outro lado, não se desesperava em demasia, a tudo assistindo como se estivesse numa sala de cinema, onde, de resto, há mais de vinte anos não podia ir, pois deixou de caber em algumas portas e de se conseguir encaixar em cadeiras. No início, deixavam-no ficar sentado nas escadas, mas logo também isso passou a ser demasiado exigente, para as suas costas e para alguns funcionários mais idiotas, que exigiam autorizações e solicitações e… Era o pequeno poder em movimento, como lamentava Gulliver, sem nunca se enfurecer. Podia não ser compreendido, mas compreensão, a ele, não lhe faltava. Na verdade, pouca coisa lhe faltava, já que tudo parecia surgir-lhe na medida exata de todo o seu tamanho. Uma proporcionalidade que amedrontava os outros, os pequenos, pois temiam um simples aperto de mão. Tanto pela aberração da sua dimensão e volumetria, como pelo sincero receio de acabarem com algum osso partido. Depois, claro, foge-se ou condena-se aquilo que se receia ou não se compreende ou meramente se desconhece e isso resume bem toda a história da humanidade. Isso está bem documentado ao longo de toda a história do Homem.

A logística das visitas, era outro tanto de exigente, na medida em que podiam visitar Gulliver apenas uma pessoa de cada vez e não durante muito tempo, e parece que todos os que com ele alguma vez se cruzaram faziam muita questão de o visitar. Qualquer questão se agigantava em torno deste homem grande. A equipa médica favorecia as visitas, na medida em que acreditava que este inusitado coma, sem razão clínica aparente, poderia beneficiar da presença de gente amiga, e incitava as visitas a falarem com Gulliver, avisando, todavia, que dificilmente el os compreenderia. O primeiro a cumprir a sua obrigação para com o colega de trabalho foi o Ramirez, da contabilidade. Gulliver rejubilou. Internamente, pois claro, que por fora nada se mexeu. O que ele gostava do Ramirez, um galego levado da breca, com o sotaque mais fascinante da empresa, pois tinha estagiado nos Açores e o resultado era uma maravilha! Metia-se com ele, só para o ouvir falar.

Ramirez não estava preparado para o que viu. Claro que Gulliver era gigante, claro que só podia ocupar toda uma divisão do hospital, mas… vê-lo, assim, de braços abertos, cada um em sua maca e, ainda assim, os dedos de fora, aquele promontório de barriga a galgar o espaço aéreo, as pernas no mesmo despropósito, abertas e cada uma em sua maca… Gulliver era um avião. Um Boing. Nem deitado de costas, sem comer sólidos há quase uma semana, aquela barriga descia o suficiente para sair da categoria ‘alarmante’. A barriga do homem era um iglô para uma família de 12 pessoas, e todas grandes. De pé, com os braços caídos, era uma coisa, aquilo… Aquilo era assustador. Assim deitado, naquela lassidão, parecia uma lixeira de despojos hospitalares humanos. Era uma coisa disforme. Dava vontade de fugir. Estava habituado a vê-lo num megapavilhão, onde todos concordaram que Gulliver teria mais conforto, e onde as dimensões eram mais proporcionai, pelo que vê-lo, ali, naquele quarto minguante… O mexicano, ainda antes mesmo de transpor a porta, ponderou se arriscaria a visita, mas, uma vez ali… Lá entrou.

Gulliver não aguentava tê-lo ali sem o ouvir falar. Rezava para que o outro não se envergonhasse e começasse a falar logo que a auxiliar, que tentava massajar as suas mãos com creme, saísse do quarto. Mais valia que esta tivesse ficado. O mexicano falou, sim, mas nada que Gulliver aguardasse, vindo da boca e do coração de alguém por quem tinha tanta estima. E em sussurros que mal deixavam respirar o seu divertido sotaque.

– Meu grandessíssimo monte de esterco – e olha que monte é dizer bem pouco –, agora, sim, estás no sítio certo. Já cá devias ter batido com os costados há bastante mais tempo. Pelo menos seis anos, os mesmos que levas de promoção e aumento, quando deveria ser eu a ocupar o teu lugar e a beneficiar das tuas regalias. Mas como és monstruoso e todos temem pela vida junto a ti, aqui o emigrante que aguarde melhores dias que nunca virão. Bom, agora com a tua ausência, que espero prolongada, vais ver se não te faço a folha. Nem precisas ‘descomar-te’. Segue a luz, vai p’ró túnel, vai. Nem olhes para trás, pá. Grande sacana. Tenho vinte anos de casa, tenho eu, e tu chegas num dia e no outro já és meu chefe. Bandalho. Isso não se faz.

O grande sonso, pensava Gulliver que, na sua cabeça, mantinha a boca ainda aberta de espanto. Aquilo era inveja. O Ramirez era, afinal um invejoso. Não compreenderia aquele pobre coitado que apenas mantinha o emprego apenas por causa de Gulliver, que diariamente ocultava os seus erros, faltas, omissões e desleixos? Estaria bom da cabeça? E o comatoso era ele? Olha o mexicanito, estava possuído, só podia! Então, todos aqueles convites para almoçarem juntos, pescarias a dois… Não era amizade? Seria, então, o quê? Bajulação? Medo? O que se passava na cabeça daquele idiota chapado? E que ato mais desumano, aparecer, propositadamente para lhe explicar o quanto mal lhe queria. Que desabafo tão estranho. Seria assim tão importante deitar aquilo cá para fora na sua cara, mesmo estando em coma? Não veria filmes, não veria documentários, não leria livros ou notícias? Não sabia que em muitos casos os pacientes em coma escutam tudo? Acreditaria assim tão piamente que Gulliver não se safaria do seu debilitante estado? Mais preocupado com esta possibilidade do que com a inesperada inimizade do colega, Gulliver voltou o pensamento para outro lado. Não valia a pena perder tempo com tamanha miudeza, mas que as palavras de Ramirez deixaram mossa, lá isso não podia negá-lo a si mesmo.

Nisto, a Lurdinhas, do economato. Não havia post-its como os dela. De todas as cores e tamanhos. Sempre tudo tão organizado naquela sua despensa profissional. Tudo em ordem, tudo por cores, tudo sempre tão limpo. Que esmero, que dedicação. Gulliver não duvidava de que se ela lhe desse a menor das hipóteses, aquilo era para o resto ad sua vida. Saquela mulher tirava-o do sério e do divertido. Tirava-o de tudo. E gira que era, toda muito perfeita. Claro que havia a questão dos tamanhos, mas, com determinação, tudo se consegue, além de que o sexo está muito sobrevalorizado, acreditava o bonacheirão. Não apenas ouvir a sua voz, agora e ali principalmente, era entrar num sonho bom, como a presença dela afugentou o cobardolas do mexicano. Ele que fugisse para bem longe e não mais voltasse, não fosse o caso dele acordar maldisposto. Mas… Não… O mexicano ainda ali estava, ouvia-o ainda. O que dizia? Que sons eram aqueles? Gulliver usou de toda a sua força para tentar abrir os olhos, mas em vão, nada lhe obedecia, como se todo o seu corpo estivesse numa greve de zelo, presente, mas inativo. Uma fresta que fosse, para testemunhar aquela enorme suspeita de que Ramirez e a sua Lurdinhas se… Nem conseguia pensar na palavra. Ouvia sussurros e roçar de roupa e… Só podia, aquilo eram beijos. Mas… Estavam juntos? Sandavam? Um com o outro? O que é que ela via naquele pequeno cobarde? Escutou melhor.

– Xuxu, já descarregaste a tua bílis?

– Não gozes, Lurdes. Há coisas que um homem que é homem tem de deitar cá para fora, e na cara. Sei lá se este monte de lixo não volta a acordar e eu fico com isto cá dentro? Não me iria sentir bem comigo se não colocasse os pontos no ‘is’ ainda em vida dele. Ladrão. Roubou-me o meu lugar. Era meu. Estava-me destinado. O Jaime da produção já mo tinha dito. Nisto chega o crânio das finanças. Lá vai ele para diretor, só porque tem fama de salvar empresas em crise, e lá fico eu na contabilidade.

– Mas olha que salvar empresas em crise é algo que fala por si em qualquer currículo, não te parece?

– Afinal, Lurdes Maria, estás de que lado? Lá porque aqui o monstrengo se derretia todo contigo, agora passas-te para o lado do inimigo?

– Claro que não. Acho apenas que deves refrear o teu ódio e a tua inveja, pois à conta do tonto, e das minhas belas pernas, levamos todos os meses para casa quase outro ordenado, graças à vista grossa que ele faz às contas do economato. Tão idiota, de facto, será que acha razoáveis as contas de post-its mensais que lhe apresentas? E que necessitamos deles de cores diferenciadas? E que não se encontraria sítio mais barato para os comprar do que na papelaria do teu pai? De facto, nem é de gente esperta, quanto mais inteligente.

– Pois, não, pois não, mas é de homem apaixonado. Vamos lá despachar isto. Queres dizer-lhe alguma coisa?

– Credo! Claro que não!! Quero apenas boleia para casa. Só subi para ver se não te encantavas com alguma enfermeira armada em estúpida, ou para ver se havia por aqui algum médico esteticamente decente, para levar para casa.

– Estás insuportável, vamos lá embora, que eu dou-te o médico. Eu é que te vou auscultar-te toda…

Porque razão não lhe era permitido ver, mas continuava a ouvir daquela maneira? Já iam no corredor e ele ainda ouviu esta última frase, que lhe deixou uma imagem dorida que dificilmente conseguiria apagar da sua mente. O Ramirez e a sua Lurdinhas… Sua, é como quem diz. Nunca o tinha sido, sabia-o bem agora. Os dois juntos. A brincar aos médicos. Aquilo, sim, iria matá-lo. Já sentia a taquicardia. Afinal, não. Não era isso. Era a hora da massagem. Estava tão transtornado que nem tinha dado pela terapeuta.

Gulliver sentiu-se, de repente, comovido por aquelas mãos certeiras, ternas e preocupadas, que insistiam nos seus músculos, tentando convencer a pele, esse órgão que nele era tão infinitamente gigantesco, a manter-se elástica e saudável. Uma ajuda vinda de uma estranha que, mesmo tendo em conta a sua dimensão e desmesura, não deixava um milímetro por vistoriar. Uma estranha e tanta dedicação e delicadeza consigo. Já os outros. Os colegas… A mesquinhez e a inveja são terríveis, mas quando associadas à hipocrisia e à dose certa de velhaquez desfiguravam qualquer ser humano, transformando-o num monstro. Assim era com aqueles dois. Eles, sim, gigantescos monstros. Sem perceber a razão, Gulliver percebe que o casal de insignificantes vigaristas está de volta. Reconheceria o perfume de Lurdinhas – Lurdes, corrigiu-se mentalmente – a milhas de distância. Cheirava a campo e a Primavera. Percebeu que vinham titubeantes, pé ante pé, que ele, Gulliver, já não estava a ser massajado e que Martinez e Lurdes se escondiam sob a suas inúmeras camas e macas, por onde se dependuravam metros de lençóis, que ninguém conseguira entalar sob o peso do seu corpo. Reconhece, então, outra voz. Uma terceira pessoas, de quem, por certo, as duas cobras se tinham escondido. Era Marcolino, o patrão. Homem bondoso. Um amigo que jamais esqueceria, por nunca ter feito reparo do seu tamanho, por nunca se sentir intimidado com a sua pessoa, por nunca ter receado incluí-lo nos quadros da sua empresa.

– Ora cá está o meu caro Gulliver. Temos sentido a sua falta, homem. Tem de regressar de pressa, ouviu? Passei só para o ver, embora de pouco adiante, pelo que entendo, e para falar com o médico. Há que ver tudo aquilo que se pode fazer. Não me posso dar ao luxo de ficar sem si…

Que homem encantador, congratulava-se Gulliver. Pelo menos, esse revelava-se de confiança, mesmo num momento tão dramático. Marcolino lá continuava a sua lengalenga naquele seu tom paternal e cadenciado.

– Pois. Imagine-se o que seria se já não voltasse. Ainda ia à bancarrota, que a Segurança Social, as Finanças e todos os outros, apenas me reduzem os impostos porque o registei como deficiente. Houve reticências, mas o certo é que você não teria cabimento noutro local. Todos fogem de si a sete pés. Mas se tivessem feito como eu… Seguramente ainda viria a ser disputado pela concorrência, que isto da polpa de tomate é um negócio cão e você a minha galinha dos ovos de ouro, e que ovos. Você parece uma poedeira. Além dos descontos, ainda é o maior marrão, sem nunca cobrar horas extraordinárias. À conta disso, já dispensei todo um departamento… Já não imagino a fábrica sem si…

Gulliver deixou de ouvir. Foi banhado pelo maior dos desânimos. Era para toda aquela gente interesseira e pequenina que acabaria por despertar do coma, se algum dia isso acontecesse, como esperava que sim? Valeria isso a pena? Que gente desprezível e miserável. No funco, todos aqueles que ele julgava que o aceitavam, apenas o faziam – nem sequer por pena – por interesse pessoal. Uns roubavam e os outros também.

Aproximam-se passos no corredor. Marcolino percebe, pelo vidro, que se trata de um médico, provavelmente da equipa que trata Gulliver e ocorre-lhe, também a ele, esconder-se no roupeiro do quarto. Parece que gente baixa opta sempre, em primeiro lugar, pelo esconderijo, pela fuga e não por dar a cara, concluiu Gulliver, que percebeu que a porta do roupeiro se abria para se fechar logo de imediato. Quando se vive no medo de se ser descoberto… Que vidas minúsculas as desta gente. O médico entra e senta-se no chão, sob a janela, do lado oposto ao da porta de entrada, ficando oculto de quem quer que possa entrar ou espreitar para dentro do quarto, já que Gulliver se ergue até ao teto. Estava a ressacar e precisava de mais uma boa dose de heroína. Dois turnos consecutivos e a urgência era ainda maior. Não chega a terminar o garrote. Vozes inesperadas irrompem pelo quarto. O médico gatinha para debaixo da maca mais próxima e oculta-se também ele sob os lençóis. Não esperava encontrar toda aquela gente ali debaixo, calada, pálida, enojada. Tal como eles mantém o silêncio.

Era a mãe e a tia materna de Gulliver. Pouco importa o restante diálogo, de palavras idiotas estava o pobre comatoso já farto, mas há um excerto que tudo precipitou, e que a memória de Gulliver alinhava desta maneira:

– Nunca devia ter tido esta criança. Bem que te avisei que isto não era normal. Pois se engordaste 40 quilos. O bebé era um bezerro, quando nasceu, nem sei como não morreste. Se não tivesse sido de cesariana… A esta hora estava eu a cuidar dele, que tu já cá não estavas para sofrer com mais isto.

– Não digas isso. Até gosto dele. Não tanto como dos outros filhos, mas é um homem decente e isso é que importa. Pode ser que agora Nosso Senhor olhe por mim e por ele e perceba que um homem deste tamanho não é coisa cristã. Que a vergonha e o medo com que sempre vivi podiam ter o seu términus agora. Mesmo ele, coitado, como pode ser feliz?

Gulliver pensou exatamente o mesmo. Como poderia ele ser feliz com aquela gente por perto? Como o conseguira até então, senão à conta de ilusão e mentiras por parte dos outros e de si mesmo? Fingindo que não via o que lá estava. Fazendo de conta que a maldade estaria apenas no seu olhar, que os outros eram boas pessoas. Não queria sequer imaginar quem mais poderia entrar por aquela porta para o desiludir. Não era ele que era gigante, os outros é que eram insignificantes, seres sem materialidade, sem consistência ética, sem altura moral, sem volume empático. Ele não tinha crescido demais, os outros é que nunca tinham crescido. Eram criaturinhas rastejantes, sem escrúpulos. Miniaturas da dignidade humana. Como aquilo o enfastiava. Tanto, mas tanto, que algo aconteceu.

Num raro e inexplicável ato, Gulliver, ainda de olhos fechados, suspira profundamente, o que leva a tia à morte instantânea por susto e provoca a morte da mãe por envenenamento, já que as substâncias químicas do seu estômago, há tantos dias aprisionadas, e em tal volume, ganharam características tóxicas a que a malvada não resistiu. Fala-se mesmo em queimaduras de pele e tudo. Quando o tronco de Gulliver, com todo o peso morto que se adivinha, cai de repente na cama, após aquele prolongado e venenoso suspiro, a estrutura desta cede e cai com estrondo no chão. Ainda hoje a polícia está para perceber o que faziam três pessoas, entre elas um médico, debaixo da cama de um paciente, e quem teria trancado uma quarta pessoa no roupeiro, onde acabou por falecer com falta de ar, pois parece que o suspiro do gigante consumiu parte considerável do oxigénio do quarto.

Pelos corredores do hospital há ainda quem se recorda de tão fatídico dia e da forma como todo aquele alarido acabaria por despertar o pobre gigante comatoso, livrando-o das amarras de todas aquelas camas e macas que o amparavam. Há ainda quem diga mesmo que Gulliver se casou com a fisioterapeuta, com quem vive feliz até hoje, muito embora se questionem muito acerca da vida sexual deste inesperado casal. Outros lembram que o amor tudo consegue. Há ainda quem conte toda esta história de forma bem diferente. Mas essa é outra história. Esta é a nossa.

Moral da história:

Se contar um conto, acrescente-lhe um ponto, mas não mais do que isso. Pode ficar estranho. E como diz o bom povo, “O que é de mais não presta”.

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