Ela – Vamos sair? Passear num bosque. Ver árvores e céu. Vamos? Estou mesmo com vontade de sair de casa.

Ele – Não me apetece. Não entendes que estou cansado? Se trabalhasses o que eu trabalho… Só me apetece esticar-me no sofá. Vai tu, se quiseres.

Ela – Podemos apenas andar de carro. Ir sem destino. Almoçar algures e regressar quando nos apetecer. Norte ou Sul, tanto faz. O que dizes?

Ele – Digo, obviamente, que não. Este fim de semana tenho uma pilha de trabalho para fazer. Já te tinha dito.

Ela – Certo, mas podemos ir jantar fora, não? Posso marcar mesa naquele novo restaurante de que te falei, junto ao rio.

Ele – Não vale a pena marcar restaurante para depois termos de desmarcar, não te parece? Devo acabar tarde e sem vontade. Podes ir com a tua amiga, a Maria, essa está sempre pronta para a ramboia.

Ela – Não se trata de ramboia, apenas tenho saudades de estar contigo sem ser em casa. Já viste que nunca estamos juntos sem ser dentro destas quatro paredes?

Ele – Ou vais com a Maria, ou sozinha. Eu não me posso comprometer. Não hoje, compreendes?

Ela – Claro que compreendo. Vou convidar as minhas amigas, então.

Ele – Isso. Vai com elas.

 

Ela – Preciso que me ajudes a escolher o presente para os meus pais. Encontramo-nos depois do trabalho naquela loja perto do teu escritório? Depois, até podemos jantar por ali.

Ele – Hoje não posso. Tenho uma reunião no final do dia que se deve prolongar. Aliás, nem esperes por mim para jantar.

 

Ela – Rebentaram-me as águas, tens de me vir buscar já, já.

Ele – Já, já?

Ela – Sim. Não entendes a urgência: REBENTARAM-ME AS ÁGUAS. Tenho de ir já para o hospital.

Ele – Mas não há um intervalo de tempo seguro? Tem mesmo de ser imediatamente?

Ela – Estás surdo? Vou ter o bebé a qualquer momento. Queres que nasça na rua?

Ele – Sim, mas estou na outra ponta da cidade. Se não houver aí alguém que te leve, só chegaremos ao hospital daqui a não sei quantas horas. Sabes o trânsito que está?

Ela – Não fui eu quem escolheu as horas, estás parvo? Vem já para cá. Quero que sejas tu e não um colega a levar-me ao hospital. Pode ser? É pedir muito?

Ele – Não te enerves desnecessariamente. Mas tens mesmo de pedir a alguém da empresa que te leve lá. Não sei quanto tempo demorarei. Ou chama um táxi, ou um Uber. Queres que te chame um Uber? Que disparate. Não ligues, o que tens de fazer é chamar uma ambulância… Estou? Estás a ouvir-me?

Ela – Amanhã de manhã, não te esqueças de que tens de ser tu a levar os miúdos à escola, que eu tenho, finalmente, aquela consulta de cardiologia, que está marcada há meses.

Ele – Bolas! Esqueci-me completamente e não vou poder levá-los. Pede aos teus pais. Estão o dia todo sem ocupação, bem que podem ajudar.

Ela – O meu pai é que me vai levar à consulta, porque, não sei se te recordas, mas tenho o carro na oficina. Além disso, já os vão buscar à escola TODOS os dias há anos, certo? Não achas que é abuso suficiente?

Ele – Os miúdos que faltem à escola. Não é por um dia que vão chumbar… Eu não vou poder mesmo.

 

Ela – O treinador do Lucas quer falar connosco. Acho que há uma possibilidade de o inscrever numa clínica de futebol este verão, em Londres…

Ele – Por mim, pode ir à vontade, que o miúdo tem talento, mas tens de ir tu falar com ele. Eu estou atolado de trabalho nos próximos três meses, por causa de uma nova campanha. Estou sem tempo até para respirar.

 

Ela – As miúdas hoje agarraram-se a mim, a chorar. Perguntavam o que tinham feito de errado porque tu nunca mais lhes tinhas ido dar um beijo de boa noite.

Ele – Pois se chegou a casa sempre tardíssimo, ia agora acordá-las. Eu, depois, falo com elas.

Ela – Tenho uma surpresa para ti. Marquei voo para Paris este fim de semana. Só nós os dois. É o teu presente de aniversário. Os meus pais ficam com os miúdos e nós podemos apenas namorar.

Ele – A sério? Que bela ideia. Mas temos de adiar, porque o fim de semana do meu aniversário coincide com um colóquio em Madrid, onde terei, impreterivelmente de estar, não te recordas?

Ela – Não me recordo, porque não me informaste. Já pouco sei da tua vida.

Ele – Lá vem a tragédia. Porque é que dramatizas tanto? É apenas trabalho, não é diversão.

 

Ela – Não te vens deitar? Comprei uma lingerie nova. Tens de vir ver.

Ele – Até posso ver, mas não estejas com grandes ideias, porque estou com uma dor de cabeça de todo o tamanho.

Ela – Hoje é o jantar de aniversário do João. Vê se consegues chegar mais cedo.

Ele – Infelizmente, não vou poder ir. Estou preso num grupo de trabalho que tem de terminar hoje um projeto. É coisa para nem conseguir ir a casa. Dá um abraço ao João e pede-lhe desculpa. Ele vai compreender.

Ela – Mas nós somos os únicos convidados para este jantar, estás esquecido? Olha a desfeita que estás a fazer ao teu melhor amigo. Não tens respeito por nada nem ninguém. A festa é apenas no próximo fim de semana o que quer dizer que jantarei sozinha com ele. O João, talvez compreenda, já eu…

Ele – Mas também, tu nada compreendes. Como é que julgas que pagas a casa onde vives? Não é certamente com o teu ordenado.

Ela – Pois não. Nem apenas com o teu. É com o de ambos, parece-me.

Ele – Não te iludas com semântica.

By Robert Doisneau

Ela – Preciso de boleia para o trabalho. Podes levar-me?

Ele – Não vai dar. Vou direto para a Batalha, encontrar-me com um cliente.

Ela – Terei de pedir ao João, que é quem mora mais perto.

Ele – Isso. Vê se o totó do João te pode levar. Ele está sempre disponível para essas estuchas.

Ela – Sempre pronto a ajudar, queres tu dizer?

Ele – Sim. Isso.

 

Ela – Sabes há quanto tempo não temos sexo?

Ele – Que termos são esses? Sexo?

Ela – Receei que a tua memória não conseguisse recuar ao tempo em que fizemos amor pela última vez, daí ter achado mais adequado falar apenas em sexo. Aquela coisa mecânica, que até alguém que não ame outro alguém consegue fazer. Mesmo por frete.

Ele – Pronto, lá vêm as críticas. Sempre as críticas. Nem todos conseguimos ser perfeitos como tu.

Ela – Uma perfeita parva, queres tu dizer.

Ele – Insistes no sarcasmo e depois queixas-te.

 

Ela – Quero o divórcio.

Ele – Tu sabes lá o que queres. Ontem querias mais um filho, hoje o divórcio.

Ela – Eu vou ter mais um filho.

Ele – Comigo não será.

Ela – Não te preocupes. Não é teu.

Ele – Vamos falar sobre isso?

Ela – Não é preciso, obrigada.

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