A Noiva do Príncipe Sério

Ela era a noiva e ele era sério. A história, a bem da verdade, quase poderia ficar por aqui, mas não somos de dececionar. Parece que também era príncipe, mas isso pode ser um exagero, romantização exacerbada, resultante da paixão que ela nutria por ele. Sim, da paixão. O amor é bem mais racional e avisado, como ela percebeu mais adiante. Aqui, reportar-nos-emos apenas a dados suscetíveis de prova, pelo que a protagonista será apenas Noiva e ele será apenas Sério. Deixemos os títulos para os livros e as notícias, que é onde mais falta fazem.

A razão porque ela era noiva, devia-se simplesmente ao facto de ele a ter pedido em casamento e ela, guiada pelo órgão cardíaco ter aceitado o simpático convite. Sempre era uma variante na monotonia do quotidiano, sempre tão fastidioso, além de que não convém desperdiçar convites do género quando já se ultrapassou certa idade. Não conseguimos apurar ao certo qual a idade, mas garantem-nos que já é alguma. Digamos apenas que, tivesse o pedido sido feito vinte anos antes, ela recusá-lo-ia seguramente, certa de que o melhor ainda estaria para vir ou para ver, como já lá argumenta o slogan televisivo.

By Josef Koudelka

Quanto ao que o levava a ele a ser sério, isso já são outros quinhentos. Não que quinhentos seja um número demasiado elevado, mas já permite uma certa quantificação de quão complexa é a situação. Pois bem, ele era sério, principalmente em relação ao casamento, por uma maioria de razões sérias. Daí a seriedade. Por um lado, nunca se sabe se estamos realmente perante a pessoa com quem queremos comer esparguete ou caldo-verde, frente a frente, para o resto das nossas refeições. Por outro, contrariar os desejos interiores o tempo inteiro também não permite muita saúde nem traz sorrisos aos lábios, como era nitidamente o seu caso. Havia ainda cinco desastrosos enlaces anteriores, com fins absolutamente desastrosos. Ficar-nos-íamos, mais uma vez por aqui, a fim de não abrir feridas em peitos alheios, mas a possibilidade óbvia, e mais do que certa, de um realizador de Hollywood me bater à porta querendo uma adaptação cinematográfica desta história faz com que me desnude de pudores morais e éticos e avance para alguns detalhes sórdidos.

(Desculpem, estão a bater à porta, deve ser o realizador… Volto já. Já regressei, era apenas uma carta registada do IEFP, acalmem esses corações palpitantes. Também, era pedir de mais, que quisessem o texto antes de concluído. Precipitámo-nos, não foi?)

Casamento n.º 1

Ela era trapezista de um decadente circo da periferia. Dizem que ele se cansou com a constante itinerância da vida errante da mulher, mas há relatos familiares e retratos também, que a mostram em clara intimidade com o anão que era proprietário dos carrinhos-de-choque que acompanhavam a trupe para todo o lado. Os mais ignorantes falam em baixa autoestima, e ainda de mau sexo matrimonial. O Sério desmente a última versão, mas apenas quando se embebeda com licor Beirão. Rimou, mas garanto que foi puro ‘ocaso’. Ainda hoje não se falam, mas já se entendem.

Casamento n.º 2

Ela era neurocirurgiã e queria muito que ele fosse sua cobaia numa intervenção experimental ao cérebro, que implicava uma ligeira redução da massa encefálica, mas que garantia felicidade eterna. Ele teimava que era fã da sua crónica nostalgia e que a felicidade eterna não era coisa que o cativasse por aí além. Ela entendeu a sua recusa como falta de amor absoluto. Ele argumentava que se possuísse o dom da felicidade eterna, eventualmente não precisaria dela e, assim, acabariam separados na mesma, pelo que mais valia abreviar a coisa sem passar pelo bloco operatório. Poupava tempo a ambos. Ela aceitou a racionalidade desta visão. Ainda hoje são amigos, mas ele apenas a vê em locais públicos às horas de maior enchente humana.

Casamento n.º 3

Numa tentativa de se vingar da trapezista, e porque, de facto, o anão era um portento sexual, Sério roubou o amante da artista e casaram-se em Las Vegas, onde o pequeno homem era presença de honra numa convenção de pessoas de muito baixa estatura. Durou uma semana. O empresário de carrinhos-de-choque era muito possessivo e deveras desconfiado da honestidade dos sentimentos de Sério. Queria provas a toda a hora e Sério tinha de ir trabalhar, não podia estar sempre a produzir provas. Constatou ainda que preferia mulheres a homens e que a vingança estava a sair-lhe demasiado do corpo, por assim dizer. Agora já fala com a trapezista, mas evita cruzar-se com o anão.

Casamento n.º 4

Ela era provadora de comida para uma multinacional que operava na área dos laticínios e acepipes para o pequeno-almoço. De quando em vez também metia a colherada em novas apostas de chocolate. Um dia, depois de beijar Sério soube-lhe a traição. Ela referia-se ao facto de perceber pelo gosto da sua boca que ele andava a beber leite de marcas da concorrência, ele achou que ela tinha descoberto o seu caso com a manicura que tinha um corner mesmo ao lado do quiosque onde ele tomava o café. Entre verdades e mal-entendidos, tudo terminou de forma mais ou menos civilizada. Ele mudou de marca de lacticínios. Ela ainda hoje não lhe perdoou.

Casamento n.º 5

Pareciam saídos da capa de uma revista de social ou de um telefilme do Fox Life. Tinham uma casa de revista, apresentavam-se como modelos em dia de passadeira encarnada (sim, estavam proibidos de dizer vermelho), as suas criancinhas eram dignas de serem raptadas para qualquer efeito, os seus carros eram de elevadíssima cilindrada e só consumiam eletricidade, vestiam-se sempre a fazer pendant, num muito concertado ton sur ton e tinham uma invejável vida social para quem se dá ao trabalho de invejar vidas sociais alheias. Eram o Lamborghini dos casais beto-trends, o Maserati do savoir vivre. Um dia, porém, perceberam que eram o antigo Fiat 600 da felicidade. Ele teve de admitir que jamais conseguiria ser do Sporting e ela nunca verdadeiramente se habituou a tratar a mala por carteira. Para manterem o status, separaram-se como se faz na capa das revistas – havia que encerrar o ciclo com a classe que lhes era elogiada –, dando escabrosas entrevistas, regateando bens em tribunal, revelando intimidades constrangedoras, embaraçando familiares e amigos, traumatizando as crianças. Ainda hoje se adoram.

Percebe-se agora cabalmente porque Sério tem dificuldade em encontrar motivos de risota. Além disso, ainda que estupidamente amigável, todos os divórcios lhe consumiram dinheiro a rodos e foram secando o parco depósito de gargalhadas, com que veio de série (uma série muito pouco hidráulica).

Chegados a este ponto, ou lugar, como preferirdes, percebemos muito melhor porque razão ele é sério e muito menos porque ela é noiva dele, verdade? O que é que nele a terá encantado ao ponto de aceitar o sexto pedido de casamento de um tipo que não ri? Só pode ser amor ou patetice. Mas como tirar isto a limpo?

Dizem os chavões que os homens insistem muito em ser o primeiro na vida de uma mulher e que as mulheres fazem mais questão de serem as últimas. Será ao abrigo deste chavão? O que leva a noiva a acreditar que será o amor eterno na vida de um tipo que já falhou cinco tentativas bem diversificadas? O desespero de achar que não encontra melhor, que não encontra seja o que for depois dele? O mais certo é gostar de homens sérios, mas até esses não são escassos. Poderia optar por outro. Será por causa daquele pormenor a que não demos importância desde o início e o tipo tenha mesmo um título real? Na volta, é apenas o amor.

Moral da história:

A única coisa comprovável é que entendemos melhor a seriedade de um tipo expert no erro, do que o sorriso de quem tem pouca ambição pessoal. Isto faz sentido?

By Josef Koudelka

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2 Comments

  1. Ícaro Lima Bulhões

    Março 29, 2019 at 5:18 am

    Eu apenas quero dizer que é um dos melhores textos que li em minha curta jornada de vida

    • Marina Rocha Ribeiro

      Março 29, 2019 at 2:59 pm

      Muito obrigada, Ícaro Lima Bulhões. Espero que muitos outros textos e muitos mais anos se lhe juntem.

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