É verdade. Já não se diz cego, pior ainda ceguinho, que é mesmo o cúmulo de todos os pináculos, porque não é inclusivo. Agora, o correto é falar em invisual, perdão, isso também foi aqui há atrasado, o correto é pessoa com deficiência visual. Acontece que entendemos que há vários tipos de insuficiência ou deficiência visual, sendo a mais grave, não a total cegueira, mas as vistas curtas, já que estas encurtam tudo o resto na vida, enquanto a cegueira apenas inibe o sentido da visão. Um outro argumento joga em nossa defesa: o título original da história infantil é mesmo esse ‘O Tesouro do Ceguinho’ e fugir à verdade da nossa infância parece-nos ainda mais obscuro e pernicioso do que usar fórmulas verbais em desuso, só porque alguém, algures assim o decidiu sem grandes explicações ou fortes argumentos que o mero: ‘Ah, isso já não se usa’.

By Josef Koudelka

Posto isto, aqui fica já o spoiler alert que se impõe e que o título desvenda na perfeição. O verdadeiro tesouro deste cego, ou indivíduo, ou apenas pessoa do sexo masculino com deficiência visual – desculpem o zelo, mas com tantas suscetibilidades, tememos o pior e mais vale prevenir – era precisamente a sua cegueira. Não a sua incapacidade de ver, mas a sua excelsa capacidade de não ver e sabemos bem como certas coisas mais vale que nem olhemos, quanto mais que as observemos, ou, o pior de tudo, que as vejamos, pelo menos tal como são. Assim, Aparecido, batizemo-lo assim – porque não? –, vivia feliz e despreocupadamente, que isto de não ver é bem melhor do que abespinhar-se com tudo. A história, como já se percebe, podia já acabar aqui, pois já se percebeu que rumo vai tomar. Mas avancemos um pouco mais que o pior cego (desculpem, uma vez mais), o pior cidadão com deficiência visual é aquele que não quer ver. Aparecido, ainda para mais, não tinha qualquer necessidade de ver, já que tinha gente para lhe fazer tudo e mais um par de botas, umas a cada estação, a bem da verdade, sempre customizadas e feitas à medida num sapateiro, correção, num designer de calçado italiano que metia todos os outros do mundo da moda num chinelo, mas bastante exclusivo – o chinelo –, já que também tinha mão para os modelos indoors – agora, disse bem, certo? Ou, de momento, será vintage e bem, dizer-se de quarto como antigamente? Isto de estar atualizado terminologicamente cansa. Imagino a estafadeira de todos aqueles outros que se querem manter atualizados em todos os aspetos da vida contemporânea. Nem lhes deve sobrar tempo para viver, apenas para saber nomear aquilo que os outros experimentam. Adiante.

By Thomas C. Scilipoti

Aparecido tinha quem visse a estrada por si, quem cozinhasse por si, quem lhe tirasse as medidas para o vestir com distinção, quem lhe explicasse o que dizer, quando e como, quem lhe fizesse as muitas contas necessárias aos seus imensos e bem-sucedidos negócios. E tudo corria bem. Tão bem que, com tanta falta de uso, os olhos de Aparecido naturalmente se destreinaram da sua função primária: ver. Deixaram de distinguir a diferença que faz diferença, de interpretar os códigos e as cores, de diferenciar as pessoas entre si, de lhes reconhecer os traços, de as sentir familiares ou estranhas, de lhes perceber as manhas e a sinceridade. Tudo era apenas uma mancha que alguém via por si e identificava aquilo que havia para identificar.

– Aparecido, este é fulano de beltrano, alto financeiro suíço, já passou um fim de semana no seu lodge em Gstaad e está agora convidado para o casamento da sua primogénita, a menina Clarisse, que Aparecido conheceu quando era ainda adolescente. Se bem se recorda, era a de carnes fartas por quem teve um platónico e brevíssimo frisson, que se alongou entre o aprés ski do segundo dia e a hora do chocolate quente, altura em que tomou a sensata opção de se converter ao budismo até à hora de jantar.

Detalhes e informação precisa e rigorosa que lhe era debitada ao ouvido sem necessidade de averiguação, ou sequer lembrança, mas era sempre bom quando se fazia acompanhar por uma vaga ideia da coisa, um flash de memória. Sempre facilitava, além de que lhe permitia recuperar uma imagem ou outra e conseguir posicionar-se no tom certo para a conversa que encetasse com o interlocutor. Tudo lhe chegava por via auditiva e essa era a principal razão porque ouvia tão lindamente, tal e qual um tísico, ou terá de ser indivíduo que padece de doença tísica, ou de maleita pulmonar? Vão desculpar-me, mas esta não conseguirei resolver sozinha, estão por vossa conta e risco, de contágio, seguramente, que a tuberculose ainda anda por aí.

By Josef Koudelka

Com o passar dos anos, com tanta falta de uso, e tal como acontece com a dentição das novas gerações, a quem, por falta de necessidade, já não crescem os dentes do siso, os olhos de Aparecido deixaram de se preocupar e foram perdendo, primeiro a acuidade, depois a nitidez e, por fim, a capacidade de enxergar o que quer que fosse. Dava para circular sozinho, entre tato e audição, sem esbarrar nas paredes, mas era sentido com o qual não podia contar. Uma vantagem clara, ainda que muito escura, pensava ele erradamente, seria a sua quase inexistente conta da eletricidade, uma vez que quase nunca percebia quando era hora de acender as luzes. Porém, aquilo que achava ser uma conta de eletricidade baixa, era na verdade colossal, já que Aparecido tinha as luzes ininterruptamente ligadas, achando que tudo era breu. Por isso estranhou, durante o segundo de atenção que dispensou ao assunto, quando lhe começaram a debitar menos e menos eletricidade, mas lá se recordou – que um ceguinho vive muito da memória – que as luzes tinham passado a ser controladas por um complexo automatismo domótico, eu tudo decidia, com rigorosas variações que mediam a luz exterior e tudo o mais. Como bem se percebe, a vida de quem não vê, em nada está facilitada. Tudo é complexo e de difícil perceção.

Um dia, lamentando-se, não da sua pouca visibilidade, já que era um homem alto, portentoso e, diziam-lhe, bastante atraente , mas da sua falta de vista, um grande amigo que não via há imensos anos, não obstante estarem juntos todos os dias, este disse-lhe que não sabia a sorte que tinha.

By Robert Doisneau

– Não ver é o melhor sortilégio de todos. Quem não vê não sente, não percebe e isso é ótimo. Nada há mais complexo no universo, física quântica incluída, do que ter de ver e compreender. Tu vives no céu. Um: Não vês os amantes da tua mulher, que se atropelam pelos corredores da tua enorme mansão e, garanto-te, são sempre gente muito tenebrosa, da pior espécie. Dois: Não vês os roubos nas finanças da tua empresa. Três: Não vês como três dos teus filhos são a cara chapada do teu cardiologista. Quatro: Também não vês os teus níveis de colesterol. Cinco: Não vês os olhares de escárnio dos cínicos em teu redor. Não vês… Desculpa, não percebes como é tão melhor não ver? E se visses como está o teu rosto depois de tantas plásticas que o teu cirurgião te recomendou, aí, então, ficarias estarrecido. Tu foste abençoado, é o que te digo. Não ver o estado das coisas é o melhor do mundo, esquece lá as crianças.

Aparecido, nesses momentos de clarividência, enternecia-se com os desígnios que Deus tinha eleito para si e com a felicidade sensitiva de amizades como aquela, que numa incapacidade conseguia ver uma vantagem. Ao invés de conversa maldosa sobre maus comportamentos, ao invés de juízos de valor, apenas pura amizade e um olhar límpido sobre a realidade. Todavia, a história dos amantes deu-lhe que matutar. Como Desaparecida – podíamos ter inventado melhor, é certo, mas também poderíamos ter enveredado por pior, pelo que regozigemo-nos com aquilo que temos – a mulher, andava por ali, Aparecido aproveitou para destilar algum do desamor que lhe roía o músculo cardíaco, ou será que é permitido dizer apenas coração, assim, sem mais?

– Minha querida, estou deveras magoado com a sua infidelidade. Julgo que merecia melhor.

– Claro que merece, Aparício. De tal forma que tem. A maioria das noites, 99% para usar de rigor, o querido dorme com as suas amantes. Você não vê, como bem sabemos, mas eu sim, bem vejo como se deleita com as garotas que encaminho para o nosso quarto. Além disso, não deixa de ser injusto da sua parte. Enquanto você é estupendo, uma vez que, sendo individual ou lá o que é, não come com os olhos, o que faz com que seja magro e esbelto. Já eu… Pobre de mim, já estou a caminho dos 40 quilos e tenho de vomitar imenso para não engordar e urge que me cuide, que a ‘menopausica’, ou lá como é, está aí não tarda uma década ou duas e não tenho alternativa, a fim de fazer frente à minha ansiedade crónica, senão recorrer ao carinho avulso de inúmeros homens e, ainda assim, só Deus é testemunha do meu sofrimento e autodepreciação e comiseração. Estas, disse bem, não foi, meu amor? Tenha piedade de mim, querido. Além de que, também não são assim tantos e como não pode ver para crer, talvez deva contabilizar menos de uma centena do que duzentos.

Perante tamanha sinceridade e declaração de amor, Aparecido ficou sem palavras, as quais, de resto, e, mais uma vez, por falta de uso, já que dava mais préstimo aos ouvidos do que à boca, também já lhe escasseavam. Ia consolar a chorosa mulher da sua vida quando percebeu que a sua boca já não abria tanto como costumava. Ó, pensou, também, para que preciso de boca? Posso bem comer por uma palhinha. A si, bastava-lhe o amor de toda aquela gente e as bocas dos outros, através dos quais via o mundo melhor do que ninguém. Sempre tinha os olhos do coração.

E pronto, aqui está a história do tesouro do ceguinho, que também é invisual e ainda pessoa com deficiência visual.

Moral da história:

Cada um vê aquilo que merece.

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