Comecemos pelo início, que é sempre, senão a melhor, pelo menos a mais acertada forma de o fazer, principalmente quando não se tem muito jeito para algum ofício, o que pode bem ser o nosso caso. Assim, o verbo casar-se apresenta o ‘se’ inerente sempre que se pretende dizer que alguém SE (cá está ele) quer casar com outro alguém, independentemente do sexo, que é bem sabido que os novos modelos de família são inclusivos e bastante desempoeirados, admitindo várias combinações de sexualidade e envolvimento amoroso. Assim, e abreviando, que hoje não é dia de lições de Português, só os padres ou juízes podem casar outras pessoas. Nesse caso, eles, de facto, casam. Mas se tiverem vontade e desejo de SE casarem um com o outro – o padre e o juiz, ou qualquer outra possibilidade entre seres humanos adultos e de forma consentida –, então, é casar-se que se diz. Isto para deixar claro que, se um ou outro programa de televisão, livro mal escrito e sem revisão, jornalistas e afins insistirem em escrever mal, não tem de fazer o mesmo. Uma dica, o verbo casar-se rege-se da mesma forma que o verbo divorciar-se, pois também este implica a ação entre duas pessoas. Na dúvida, substitua um pelo outro e ficará a saber como deve escrever o verbo casar-se a cada momento e em cada circunstância. Nada cobramos por este esclarecimento e nem precisa de agradecer, que temos de cá estar uns para os outros, de quando em vez. Posto isto, avancemos.

By Diane Arbus

Cesaltina Monga, mãe de Estrupício Miguel vai para mais de três longas e desgastantes décadas, já tinha tentado de tudo. De tudo, mesmo, para incentivar o filho a sair de casa, onde se sentia inibida, com a presença de Estrupício, a dar liberdade às suas tendências naturistas, onde se incluía nudez integral, e ao seu jeito poliamoroso de se relacionar com o sexo oposto. Mãe solteira por opção e devoção, nunca imaginou que a maternidade acabaria, afinal por ser a sua maior prisão. Iniciou a sua bem-intencionada campanha quando o rebento completou 16 anos, vai para mais de 30 anos.

– Tu faz um Interrail ou um Eurail, Estrupício Miguel! Vai conhecer o mundo e outras pessoas. A mãe paga, claro, de que outra forma tal seria possível?! Deixa o cubo mágico e a consola, rapaz! Inicia-te no sexo e na multiculturalidade, que fechado nestas quatro paredes nada aprendes, filho. Ouve o que a mãe te diz.

Cesaltina Monga nunca percebeu se o filho não ouviu ou se apenas fez que não escutou, já que aquilo que o rapaz grunhiu também não alcançou os tímpanos de Cesaltina que, no seu hábil multitasking, secava o cabelo enquanto aspirava. Voltou a insistir, enquanto retirava com creme depilatório o buço ao miúdo, acabando por queimar a pele acnosa de Estrupício naquele intervalo que vai da boca ao nariz e cujas dores dificultavam a articulação de palavras.

Mais tarde, insistiu que deveria frequentar um curso preparatório para a faculdade nos Estados Unidos ou mesmo na Austrália, lá bem longe de casa, onde ganhasse competências académicas e sociais que o preparassem para a vida. Uma conversa que começou quando lhe levou, certo dia, à semelhança de todos os outos dias, o pequeno-almoço à cama e que apenas interrompia para saber que prato favorito queria que a mãe lhe preparasse para o almoço, e a que horas o deveria ir buscar à escola, que isto de deixar as crianças sozinhas à porta de qualquer estabelecimento de ensino é um convite às bizarras ações de pedófilos e gente de má índole. Lá por querer ver Estrupício pelas costas, nada a impedia de salvaguardar a sua segurança enquanto estivesse ao seu cuidado. O rapaz não fez muito caso da viagem académica, mas encetou agradável diálogo com a mãe sobre a necessidade de ela tentar variar mais os seus lanches da tarde, que já começava a enjoar Nestum e Bollycaos.

– Bem que eu gostaria de te fazer a vontade, mas não gostas de fruta, nem de batidos, nem de iogurtes. E se for um ovinho cozido durante três minutos exatos como tanto gostas? Ou panquecas com xarope de ácer?

– Ó, mãe, era tão bom! Faz isso, sim. Para variar.

Lá se escoou igualmente a oportunidade de um ano sabático antes de ingressar na universidade, até porque Estrupício dava mostras de alguma alergia ao sol, o que dificultava as saídas diurnas. Em vão, reorientou a sua missão de abandono do ninho por parte do filho para as atividades noturnas, sempre lhe granjeavam metade do tempo para poder levar senhores giros lá a casa, mas estrupício não era rapaz de beber, fumar nem se sentia atraído por drogas ou ambientes com mais do que três pessoas, o que inviabilizou igualmente esses planos de Monga.

Fervilhou, depois, de entusiasmo com a apresentação da nova grelha televisiva das estações de televisão privadas. Big Brother, Quintas e Quartéis… Até podia ser um convento, desde que lá conseguisse meter o filho. Tinha de o inscrever. Anunciou a boa-nova a Estrupício enquanto lhe dava banho. Já não era bem banho completo, que o rapaz já tinha mais de 20 anos, mas gostava de se certificar de que ele ficava bem lavado atrás das orelhas e de que, a fim de evitar a caspa, enxaguava bem o cabelo. Acrescia a isso a necessidade óbvia de não poder ser o próprio a aplicar o spray autobronzeador, sob pena de não ficar bem aplicado nem uniformemente espalhado no corpo e esta era uma inevitabilidade premente, que tentava atenuar o ar macilento de Estrupício, fruto dos seus hábitos caseiros e das muitas horas no escuro frente ao computador.

– Sempre ganhas mundo e emancipas-te. Vai fazer-te bem, sabes? Compreendes que quero apenas o teu bem e que estes programas são, hoje, tão ou mais úteis do que a tropa antigamente. Vais tornar-te um homem, quem sabe encontrar uma rapariga que saiba cozinhar bem como a mãe e que te vinque as calças de ganga como tu gostas… Se não te aventuras porta fora, nunca sairás de casa, meu amor.

– Mas, mãe, já imaginaste as condições de higiene numa casa dessas?

Nada mais precisou de dizer. Monga compreendeu-o na perfeição, ou não fosse ele seu filho e não fosse ela asseada como poucas pessoas no planeta. Estava fora de questão. Tinha de encontrar outra solução. Pois ela ali estava à sua frente. Ocorreu-lhe enquanto assistia a casamentos à primeira vista e agricultores desesperados que recebiam mulheres ainda mais desesperadas do que eles para encontrar rumo na vida… Porque não criar um programa específico apenas para o seu adorável Estrupício Miguel, com wc exclusivo? Era um rapaz único. Muito higiénico – vivia com uma escova de dentes na boca –, civilizado, educado, obediente, especialista de computadores, mimado, mas muito masculino, tinha bom feitio… Era um tipo às direitas como já não havia por aí. Nunca tivera uma gengivite ou uma unha encravada, exfoliava a pele uma vez por semana, tinha toda a sua vida indexada num maravilhoso documento Excel… Que mais quereriam? Que mais se poderia querer? Entrou em contacto com várias produtoras versadas na mundanice social. Se, inicialmente, ficaram sem reação perante a sua proposta, num segundo momento não lhe largavam o telefone, numa espiral concorrencial, cada uma a oferecer algo mais para que a opção de Cesaltina Monga recaísse na sua empresa e não noutra da especialidade. Enterneceu-se com uma que se voluntariou a completar a coleção de carros miniatura da Planeta Agostini, que Cesaltina lhe tinha deixado a meio, e ainda uma recente caderneta de jogadores do mundial que estava complicada de concluir. Sim, também havia um carro e uma mensalidade muito apelativa, que receberia durante todo o tempo em que o programa singrasse acima de outros da concorrência. Estava no papo. Quem não se interessaria pelo quotidiano metódico e organizado daquele seu filho? E que mulher ousaria desdenhar de tamanho partido, mais ainda, agora, que ficaria mediaticamente referenciado e estigmatizado e em que já poderia dizer que tinha um ordenado? Quem, no universo, ousaria não reter os olhos no ecrã?

By Frank Paulin

De toda a exaustiva ronda de negociações, que envolveu advogados, contabilistas e até um exorcista – este último, por conta do mau português de Cesaltina, que pretendia um contorcionista para ensinar alguma flexibilidade ao corpo inerte do filho, quase limitado à posição de sentado –, Monga apenas não estava a conseguir fazer valer a sua vontade no título do programa. Quis ela, desde logo, que o concurso se chamasse “Quem Se Quer Casar Com o Filho da Monga?”. Nesse caso, disseram-lhe, teria de participar, caso contrário seria um pouco absurdo e esquizofrénico, que o título contemplasse o nome de uma pessoa que pouco ou nunca apareceria. Isso, todavia, estava completamente fora de questão, pois tudo aquilo não passava de uma bem elaborada e genial estratégia para se ver livre do seu menino, para que pudesse finalmente andar nua pela casa, onde já poderia, agora, organizar os seus encontros poliamorosos. Não apenas estava tudo bem encaminhado, como ainda lhe pagariam. Melhor era impossível e como estava bem ciente de que o ótimo é inimigo do bom, aceitou negociar o nome da coisa. Passaria, então, segundo indicações suas, a designar-se “Quem Se Quer Casar com Estrupício Miguel?” Também torceram o nariz. Que era demasiado longo, que dois nomes próprios era coisa provinciana, que Estrupício tinha garra e força próprias e que Miguel fazia com que baixasse de nível… Miguel, esse nome de arcanjo, baixava o nível de um programa de televisão? Transpirava de indignação, mas lá se controlou. Não podia deitar tudo a perder nessa fase, em que já de ouvia falar num qualquer Empecilho José, que tinha tido, ele próprio, ideia semelhante à sua e se propunha a expor-se de qualquer forma pretendida a fim de se tornar famoso e poder, assim, finalmente conhecer Manuel Luís Goucha. Ou o Goucha ou o Surfista Prateado, a produção que visse com quem seria mis fácil.

Célere como um raio de circunferência, Cesaltina deu o seu aval e o programa estava, por esses dias, prestes a começar. O primeiro episódio foi um estrondoso sucesso. Retumbante. Apoteótico. Apocalíptico. Triunfal. Estupidamente incrível. Não houve agricultor careca ou desdentado, menina da Playboy ou Playmobil, comentador desportivo ou presidente da República que destronasse as audiências de estrupício. Uns porque se identificavam, outros pela bizarria daquela personagem, outros pelo interesse psicossociológico, outros por preguiça de mudar de canal e ainda uma valente percentagem de abúlicos, incapazes de sair do sítio, engordaram audiências como nunca antes até então. Choveram anúncios, e entrevistas, solicitações de toda a ordem, convites e inaugurações… Estrupício não apenas tinha saído de casa como, assim rezava a mãe, podia nunca mais voltar.

Tudo seguia no sentido certo e na direção oportuna a que tal acontecesse. Quis até o destino televisivo colocar no caminho de estrupício uma encantadora garota, toda ela muito desenxabida e inteligente. Uma pele imaculada e uma personalidade encantadora. Pelo menos, vista de fora, que por dentro Cesaltina dispensava, encantada que andava, toda ao léu com seus muchachos por perto. Sentia falta, é certo, daquela sua eterna função de dispensadora de mimos, mas estava rapidamente a habituar-se aos encantos da sexualidade vista enquanto possibilidade diária, coisa que jamais experimentara, por causa, precisamente da omnipresente figura do filho.

By Chris Killip

Ao cabo de uns meses, porém, começa a perceber os primeiros sinais de inquietação por parte da produtora e do canal televisivo. O rapaz já tinha um pé de meia confortável. Pode mesmo dizer-se que era uma meia até ao joelho, mas o propósito primeiro nunca fora financeiro ou sequer monetário e daí a enorme preocupação de Cesaltina. Informaram-na de que após o namoro as audiências tinham baixado para um pico negativo muito preocupante. Que não havia agora elementos a apimentar os dias de Estrupício. Que a rapariga, segundo as diárias sondagens, não nutria a simpatia do público… Cesaltina não desistiria agora. Jamais. Não voltaria a abdicar da sua independência. A sua estrela voltaria a brilhar, só precisava de uma ideia de génio. Se ao menos ela pudesse escrever o guião da vida do filho… Acabava de ter a mais incrível das ideias. Era precisamente isso que faria. Tornar-se-ia guionista da vida do filho, quem, de resto, toda a vida guiara para cá e para lá. O miúdo até agradecia que não tinha por hábito pensar muito nas coisas.

Foi assim que Estrupício se eternizou na televisão, no streaming, no online, nas redes mais ou menos sociais e acabou com um canal próprio, o EstrupícioNet, ou seja, o peso líquido (net) de uma vida desinteressante em direto, que serve aos restantes mortais de bitola de sucesso, de nível a evitar ou de puro e despretensioso entretenimento. Todos ficaram a ganhar. Monga, mongava, por estes dias, à vontadinha. Estrupício, graças ao guião materno, nem se lembrava das câmaras que o rodeavam, produtoras, televisões, patrocinadores, marketers e público mantinha níveis de satisfação muito aceitáveis. A série ia agora no entusiasmante “Que Se Quer Divorciar do Estrupício?”, uma bem montada teia de mentiras e enganos que tinham como propósito levar a jovem esposa ao divórcio. Mais uma nódoa na toalha da mesa do jantar e Cesaltina acredita que a coisa chega lá, que a pequena é obsessivo-compulsiva com a limpeza de têxteis. Na manga está já “Quem Se Imagina a Fazer Sexo Com o Estrupício?”, e, segundo as mais recentes projeções, era coisa para destronar uma final de Boccia.

By Robert Doisneau

Cesaltina Monga, empresária nudista e livre pensadora, apostava já noutros títulos e se tudo corresse mal, para fim de temporada, poderia sempre antecipar uma morte simpática para o seu menino de ouro. Que nome daria a esse derradeiro trunfo de audiências, era a sua maior dúvida. Estava um pouco saturada do formato “Quem Quer…” Tinha de ganhar nova perspetiva sobre o assunto. Quem sabe… Isso. Gostava da ideia. “Preparados Para Ver o Fim de Estrupício?” Envolveria cultura geral, perguntas específicas sobre a vida em direto de Estrupício Miguel, um rally paper, a confeção de um bolo de gengibre e um sem fim de excitantes desafios e mistérios que se poderiam arrastar durante anos. Podia começar com cem apurados e ir-se reduzindo esse número até só restar uma única pessoa, que, essa sim,  ganharia o privilégio de ver morrer estrupício. Genial! Podia sempre convidar Deus ou o outro. Quem sabe? Tudo era possível em televisão. Sempre faria falta o tal exorcista, pago até ao momento a peso de ouro e ainda sem préstimo. Recorreria a qualquer coisa do género Agatha Christie ou inventaria um policial próprio? Seria mesmo capaz de matar Estrupício? Como aconteceria isso? Contrataria? Apareceria ela própria no filme, à laia de Hitchcock? Estava mortinha por responder a tudo isso.

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