Gustavo Guilherme olhava o placard como quem se vê ao espelho. Afixado, em local de passagem, bem visível a toda a empresa, e precedido do seu nome, o seu rosto, fixado para a eternidade numa foto em que se achava no seu melhor, com a inestimável legenda: “Empregado do ano”. Rejubilava de orgulho. Gustavo Guilherme, empregado do ano. Não do dia. Não da semana. Não do mês. Nada de banalidades comezinhas. Para ele tudo. Em grande. Empregado do ano. Quer o ano contabilístico, quer o saldo comercial anual de cada um dos departamentos da empresa, ainda não tinham terminado e já a direção percebia que ninguém mais poderia igualar o seu feito. Aliás, os seus múltiplos e inatingíveis feitos. Os seus inimitáveis préstimos. Era um condor do imobiliário. Qual quê?! Para ale só carne fresca, que não era saprófago. Necrófagos eram gente de inferior estirpe. A sua dieta era outra e era rica. Para ele só reses vivas e suculentas. Presas de grande porte. Para ele só negócios acima dos 10 milhões. Palácios e palacetes, condomínios de luxo e prédios de escritórios. Ele era uma águia. Isso, sim. De porte aristocrático e bico forte. Musculada. Temerária. Temida. Real.

Pairava muitos quilómetros acima dos restantes milhafrezitos que, lá em baixo, se digladiavam por um loft na baixa, ou, quando muito, um prediozinho num qualquer bairro da moda, que demoravam eternidades para vender na totalidade. Uma fração a custo hoje, uma outra daqui a duas semanas… Eram de outra espécie. De inferior estirpe. Só ele era verdadeiramente de rapina. Claro que era um habitué daquele placard e de outras bem mais apetecíveis honrarias, entre elas bónus chorudos, viagens pagas pela empresa, caixas de champanhe francês exclusivo e outras coisas a que um macho no auge da sua vitalidade dá apreço, mas sobre as quais a sua ética não lhe permite falar. Diga-se apenas, que era o solteiro mais cobiçado e assediado da empresa, e mesmo fora dela, e por aí ficamos. Era aquilo a que os diretores chamavam de máquina de fazer dinheiro. Pela sua bolsa de clientes passavam nomes, negócios e quantias que colocavam os de Christian Lacroix ou mesmo de Madonna e Bellucci num apertado e desatualizado chinelo de trazer por casa. Ele era grande. Enorme. O maior. Aquilo que o envaidecia por esses dias era o facto de já nem aguardarem para o final do ano para determinarem, sem arriscarem enganos, que ele seria, mais uma vez, de resto, o Empregado do Ano. A águia-real da companhia. Com uma envergadura de asas a que nenhum outro agente chegava.

Rodolfo Raimundo, num misto de inveja e desdém indisfarçáveis, mirava de esguelha aquele rosto sorridente, de implantes feitos, num surreal tom de branco, que ofuscava. Sempre que sorria, o empregado do ano acendia luzes que encandeavam os demais, para deixar todos às escuras logo que recolhia os dentes sob um aristocrático bigode, que semanalmente aparava em lugares da moda. Era um trend piloso com o qual se identificava e que conferia confiança à sua elitista clientela, dizia, com soberba, o divino vendedor. “A venda começa logo que os nossos olhares se cruzam”, era uma das frases mais batidas de Gustavo Guilherme, e uma das que mais irritava Rodolfo Raimundo, que cultivava o look casual, com o qual entendia criar maior proximidade e empatia com os potenciais compradores. Uma estratégia que mais não lhe permitia do que manter-se rasteiro, bem na cauda da lista de agentes imobiliários. Olhar aquele rosto vitorioso, com a espectável legenda de sempre, tirava-o do sério e deixava-o de rastos. Não se considerando mau caráter – mas também, mesmo sendo, quem o admite ou, sequer, perceciona? –, Rodolfo Raimundo entendia que não era a diferença de nível, ou de calibre dos negócios, que mais o mortificava, mas ser logo aquela personagem a erguer-se de entre os demais. Acreditava, ou com isso confortavelmente se enganava, que tudo seria diferente se fosse outro colega a destacar-se. Aquele ser altivo, porém, era demasiado difícil de aceitar.

Paulo Paulino, observador de trama fina, por onde coava todo o tipo de impurezas de caráter, retendo o fel do mundo, não era alheio ao odiozinho que Rodolfo Raimundo destilava. Na verdade, aquilo não era um processo excelso, sofisticado e racional de separar sentimentos voláteis de factos fixos e reais. Rodolfo não era rebuscado, nem pessoa que visse utilidade num alambique emocional. Aquilo era fermentação pura, levedura azeda. Rodolfo deixava apenas que tudo ebulisse livre e descontroladamente no seu peito. A inveja, o ódio, a frustração, o desprezo, os ciúmes e tudo o mais que servisse o seu descontentamento e alimentasse o seu processo de vitimização. Isso permitia-lhe, de uma só vez, não reconhecer a superioridade do outro, nem assumir as suas próprias insuficiências e deficiências, nem se capacitar de que poderia e deveria melhorar. Segundo entendia Paulo Paulino, Rodolfo Raimundo queria ser o melhor, sem fazer por isso. O mesmo é dizer que pretendia que todos os outros entrassem numa espiral de embrutecimento ou apenas fossem, desde logo, inferiores a si. Ora, as coisas não funcionam assim. Imbuído do espírito experimental da ciência, e querendo comprovar, em ambiente quase de laboratório, a extensão da manipulação, Paulo Paulino dá início a uma experiência social. O seu distanciamento em relação ao objeto a estudar estava garantido, já que, formado em Psicologia Organizacional, pertencia ao departamento de Recursos Humanos, além de que, enquanto ser assumidamente antissocial, não nutria ligação ou qualquer tipo de afeto por nenhum dos visados no estudo. Assim, munido do seu bisturi de astúcia, deu início à operação ‘Corvo’, como lhe chamou.

– Com algum empenho, você é o único agente comercial com músculo suficiente para poder figurar naquele placard já no próximo ano. É a única pessoa que imagino a suplantar todos os records do nosso rei do comercial.

– Você é um agente imobiliário nato. Agarre num projeto mais ambicioso e aventure-se. Homem, você só precisa de algum fôlego nas asas para se manter lá no alto.

– Arrisque mais. Um pouco mais de ambição nunca fez mal á carreira de quem quer que seja. Quando você arregaçar as mangas, Gustavo Guilherme jamais terá a menor hipótese de voltar a ofuscar-nos com aquele seu sorriso de vencedor naquele ridículo placard.

– Do que é que está à espera para agarrar num negócio grande e brilhar? Erguer-se no ar, num voo a perder de vista, com uma bela presa nas garras. Isto de comer os restos que outros deixam no chão é coisa de abutre e vocês, vê-se bem, é um ser alado, com requintados apetites. Aventure-se.

Foi com este combustível que o ‘bajulador’ Paulo Paulino, elemento bem-visto por todos dos RH da empresa, foi instigando aquele fogo que ardia lentamente no peito do despeitado Rodolfo Raimundo, uma fraca figura de vendedor, ou mesmo de homem. De brasa morna, a coisa foi ganhando chama e alento ao ponto de um breve bafo de oxigénio seria o bastante para que Rodolfo Raimundo pegasse fogo a rudo à sua volta. Esse impulso chegou, na figura de uma nova vendedora, linda, jovem e sedutora, por quem todos pareciam andar apaixonados. Numa empresa maioritariamente masculina, a contratação de Elsa Eleutério, não foi apenas uma brisa fresca, mas toda uma praia tropical, mojitos incluídos. Cheio de ar quente como andava, querendo provar como era bravo, destemido e bem mais capaz do que o empregado do ano, e querendo agora também impressionar a mulher com quem já se imaginava casado, o pequeno Rodolfo avançou para a beira do precipício, de onde partiria em voo picado para as suas duas grandes presas: o maior negócio do momento da agência, e aquele pedaço de felicidade carnal e emocional que era Elsa Eleutério. Do ponto onde se encontrava, nenhuma das duas empreitadas se assemelhava a impossibilidades. Daquele lugar altaneiro, do cimo da sua determinação eram ambos pontos minúsculos que facilmente ergueria no ar. Talvez mesmo apenas com o bico, deixando as garras livres para uma aterragem segura e sem imprevistos.

Paulo Paulino assistiria de bancada, tendo já marcado lugar na primeiríssima fila, num camarote elevado, para melhor abarcar todos os movimentos na arena que montara. Um preciosismo desnecessário, já que ninguém mais estava atento ou desconfiava de que o pobre Rodolfo Raimundo partia para a guerra naquele que apenas se apresentava como mais um dia de trabalho. Mas era a alvorada de uma histórica batalha, que ficaria para os anais da história da empresa. Estava tudo prestes a começar. Rodolfo Raimundo assumiu, por sua conta e risco – o mesmo é dizer que desviou sem consentimento superior – o dossier de um gigantesco negócio, e partiu de peito feito, pensando já na necessidade de fornecer uma foto sua para o futuro cartaz de funcionário da década ou coisa que o valha, pois aquilo que se preparava para fazer era arriscado e ele dispensara a rede sob o seu trapézio. No final desse dia regressaria vitorioso, sem perceber ainda que assinara um documento sem que este fosse revisto pelo departamento legal da empresa, que se tinha comprometido de forma arriscada e que, em caso de desistência de qualquer uma das partes – coisa nunca vista –, a sua empresa pagaria tudo em sêxtuplo. Sem perceber que tinha caído num esquema bem montado de uma máfia imobiliária de falinhas mansas e caninos aguçados. Que o comprador não queria comprar, apenas encontrar quem assinasse um contrato daquele tipo, para depois desistir e ainda lucrar largos milhares num negócio que nunca o foi. Sem perceber que era vítima de um esquema nem por isso bem montado, apenas ele, na ânsia de vencer, não se tinha apercebido da esparrela, do falso engodo. Um ambicioso ingénuo é alguém muito vulnerável, como se sabe. Mas nada disso era ainda visível. Logo, nada disso existia ainda quando, ao regressar à empresa, no final do dia, demasiado feliz e excitado para conseguir anunciar o seu grande feito, toma Elsa Eleutério nos braços e força um apaixonado beijo.

Rodolfo Raimundo não tardou a precisar de uma nova foto, como previra. Na verdade, duas: uma para os arquivos policiais, devido a um caso de fraude onde acabou envolvido e ainda por causa do crime de assédio sexual a uma colega de trabalho acabada de ingressar na empresa; outra para o placard da empresa, onde o seu rosto ficou apenso anos a fio, com a legenda ‘Desempregado do Ano’, servindo de exemplo a todos os que ponderassem defraudar a empresa. A sua história era contada e recontada, por um entusiasta dos RH, que somava ao relato uma excitação inexplicável, denunciada por um certo brilho nos olhos e um sôfrego esfregar de mãos. Tinha sido a forma encontrada pelo maquiavélico Paulo Paulino, para expiar o seu pecado. Ele tornara o pobre Rodolfo Raimundo numa lenda, bem maior do que o bem-sucedido Gustavo Guilherme alguma vez seria. Aos mais recentes empregados, Rodolfo já era descrito como um homem calculista e avaro, que se aventurou no mau caminho, fruto apenas de uma desmesurada ambição e de uma líbido indomável. Um criminoso devasso. De fracasso a mito urbano. De homem mediano a perigoso criminoso. Uma coisa é certa, conseguiu o ambicionado retrato em lugar de destaque na empresa. Naquele local de passagem, bem visível a todos.

Em entrevista a um canal de televisão sensacionalista, mais tarde, Rodolfo Raimundo, diria, em resposta à pergunta “O que o levou a fazer o que fez?”:

– Eu só queria…

Moral da história:

Não é a ambição que mata, é a mediocridade. Falta de cérebro e sangue frio também não favorecem a saúde.

 

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