Ele sussurrava-lhe coisas ao ouvido. O sussurro era agradável e até ligeiramente excitante, mas as palavras eram estranhas e absurdas. Que não havia no mundo mulher como ela. Que tinham sido concebidos um para o outro. Que iria amá-la para sempre. Que ninguém mais a amaria como ele a amava. Falava de destino e plenitude. O sorriso dela ia-se desvanecendo na proporção exata em que se exacerbavam calamidades na boca dele. Ele assustava-a com tanta fatalidade. Narrativas absolutas eram vãs e patéticas, em qualquer contexto e em todos os tempos. Só servem reis déspotas e vaidades pueris. Nada é eterno. Nem mesmo a eternidade. Tudo muda e se altera. Tudo se deteriora e morre. Tudo. Nem as estrelas no céu, nem o planeta aspiram a tais idiotices.

Ninguém no mundo como ela? Como era redutor o universo dele. Quão poucas pessoas ele conhecia. O mundo está cheio de mulheres, apenas ali, com ele, naquele instante estava somente ela. Falaria ele das circunstâncias? Do seu tipo físico? Alá não tinha criado apenas 40 rostos? Não existem sósias? Não nos parecemos, afinal, com tantas outras pessoas, incluindo algumas com o mesmo nome que o nosso?

Concebidos um para o outro? Quem? Quando? Como? Porquê? Como podia ele dizer tais barbaridades? Ela tinha sido fruto de um caso de uma noite. Quer dizer, nem isso. Um final de festa, uma urgência sexual. Um pequeno êxtase. Cinco minutos, talvez? Sim, os pais demoraram menos tempo a fazê-la do que Deus a criar o mundo, com as devidas distâncias, claro está, além de que eram dois, o que sempre dá mais despacho ao serviço. Teria ele sido programado para a encontrar a ela e apenas ela? Seria um enviado especial com uma agenda romântica exclusiva para a sua pessoa? Que tamanho disparate. Encontraram-se. Entenderam-se. Daí a chamar as forças do universo como responsáveis por um encontro, parecia-lhe um herege exagero. Uma gigantesca exorbitância. Um salto ilógico.

Amá-la para sempre!? Certo. Quanto tempo é para sempre? E ainda que sempre fosse mensurável, não era uma ideia pidesca? Não era o mesmo do que dizer-lhe que ela não poderia mudar jamais? Que teria de se transformar em estátua daquele instante em diante? Pois quem ele imaginava conseguir amar “para sempre” – ela não entendia o conceito, por mais que se esforçasse – era aquela mulher a quem naquele instante sussurrava absurdos ao ouvido. Uma mulher que apenas esse sussurro já estava a mudar, que já tinha envelhecido enquanto ele sussurrava, que já estava, na verdade, de partida. Essa mulher que ele pretendia acreditar que amaria todos os dias a partir daquele já lá não estava. Estava em mudança e já estava de mudanças. Já se mudara daquela relação só pela ideia peregrina de que nela teria de ficar presa “para sempre”. Prisioneira das loucas ideias de um ingénuo ou, pior ainda, um sádico. O amor só existe na reciprocidade, fora dela é apenas desejo por realizar, vontade ou obsessão ou, pior do que isso, um sonho idiota do qual se acorda a cada instante. Nenhuma das hipóteses é muito feliz ou, sequer, saudável.

Ninguém mais a amaria como ele a ama? Vamos por partes. Primeiro, a arrogância! A presunção não teria fim à vista? Seria também ela “para sempre”, como o seu tipo de amor? Como poderia isso ser avaliado? Como comparar amores passados, presentes e futuros? Como poderia ele achar que ela nunca fora mais e melhor amada? O que fazia dele especial ao ponto de a saber amar, ou conseguir amar ou até de a querer amar mais do que qualquer outro homem, ou mulher? Se ela agora lhe perguntasse se ele sabia ler o futuro ele acharia que ela estava louca, mas dizer a alguém que ninguém, jamais, a amará como ele a ama é assegurar que sabe ler o futuro e ver que isso não acontecerá. Que tal estamos de prepotência?

Segundo, a ingenuidade. Meu Deus, a ingenuidade. Nem sequer dava a si próprio a possibilidade de poder vir a amar ainda mais e melhor e diferente. Ficava-se por ali. Satisfeito e contentinho. Fecharia a mente, os olhos e a boca a outras possibilidades, a outros amores. Piores que fossem, amores são amores e não se podem menosprezar.

Terceiro: o que é um amor bom? Ou pior? Ou melhor? Como se compara? E com qual se compara? Com quem? Sendo amor, não terá, por definição, de ser bom? Não entrando em casos patológicos, pessoas com má interpretação de português – ou qualquer outra língua, que o que aqui se quer provar não tem nacionalidade –, o amor, mesmo pequenino, baixo ou gordo é sempre bom. É um colo onde nos podemos ajeitar, ainda que podendo caber melhor nuns do que noutros, onde há calor e sorrisos de felicidade apenas por ali estarmos, apertadinhos que seja. Qualquer amor é sempre bem-vindo. É sempre bom. Desdenhar e menosprezar o amor que alguém lhe pudesse vir a dar era até mesquinho da parte dele. Muito mesquinho. É maldoso, pobre e demasiado limitado, mesmo em seres humanos mal resolvidos.

Quarto: Implica ainda que aquele que se dispõe a amar para sempre jamais mudará, mantendo inalterada forma como ama, sente e observa o ser amado. Também ele estático no mundo e nos afetos.

Escusado será dizer que a sessão de sexo que se preparava para acontecer com tanto sussurro aos ouvidos, já não aconteceria. Nem ali, nem noutro lugar, nem naquele instante nem noutra qualquer hora. Adiado “para sempre”. Claro que para ela, para sempre seria até um dia, já que não reconhecia infinitos, nem sequer à aparentemente eterna continuidade das horas, haja ou não vida para as medir. Naquele caso, todavia, pelo menos naquele instante, atrevia-se a acreditar que aquele rapaz já não voltaria a ter a menor hipótese de constatar qual o tipo de depilação que fazia nas virilhas. Deixaria essa averiguação para o próximo cavalheiro que não se aventurasse em poções mágicas e romantismos bacocos. Alguém que desejavelmente não lhe sussurrasse incongruências ao ouvido, nem se pusesse com absolutismos linguísticos a comparar amores e a atemorizá-la gratuitamente sobre a fantástica oportunidade que tinha em mãos: a de um homem que a amava como nenhum outro antes nem nenhum outro depois dele. Só lhe faltava o megafone da feira, coberto com um lenço de assoar – ainda existe isto, certo? Ou é já apenas uma bizarria perdida nas memórias da sua infância?! –, apregoando ainda que, ficando com esse homem fantástico ainda teria de oferta um maravilhoso conjunto de facas e um fabuloso cobertor à escolha. Uma oportunidade única que não voltaria a repetir-se e que terminaria logo que ele desligasse o microfone. Era pegar ou largar, freguesa. Era largar. Não tinha dúvidas. Esta freguesa largava alegremente.

By Carsten Witte

‘Para sempre’ acionava nela sentimentos de claustrofobia e sufoco. ‘Para sempre’ era uma condenação, com forçosa clausura, sem fim à vista ou possibilidade de perdão. Era uma geminação, que até poderia fazer sentido agora, mas que ostensiva e alarvemente se impunha e forçava ad infinitum. Não. Isso, não. Muito agradecida, mas não. Além da intrínseca desonestidade contratual – quem pode verdadeiramente comprometer-se com o que quer que seja para todo o sempre? – o fatídico “para sempre” equiparava-se ao angustiante contrato de compra de casa. Comprar uma casa? Além de decadentemente burguês, a que propósito nos propomos comprar uma casa? Pode ser gira agora. Pode servir agora. Mas, e basta este mas para estar tudo dito. Se de repente deixar de ser gira, de dar jeito, de ser oportuna, confortável, apetecível, desejável, de deixar de estar bem localizada em função do muito que o futuro deve trazer e que dele se deve esperar, o que se faz, então, à casa? Só de pensar em decidir onde colocar à venda, mostrar a casa a não sei quantas imobiliárias e a ‘n’ gente irritante, cheia de reparos e caras de enjoo, encontrar uma nova, manobrar a jigajoga de datas que permitam satisfazer a disponibilidade das mudanças de todos os envolvidos – de quem entra, de quem sai e eventualmente ouras de outros imóveis transacionados nesta troca de cadeiras –, só a ideia de tudo isso a deixava exausta. Fora as papeladas, os notários, os contratos de promessa, os bancos, os empréstimos, os juros a negociar, os seguros… Tudo um inferno. Um convite ao sedentarismo, a ficar sem propósito quando a vida deve ser um bilhete de partida, uma mala sempre pronta e cabeça disposta a conhecer, ou mesmo a reconhecer coisas outras. De ir e vir entre cidades, países, mundos e pessoas. De ir e vir entre amores, que desde que se esteja disposto a amar, o amor acontece. Acontece em todo o lado, em diferentes línguas, em qualquer coordenada, a qualquer hora… Um único amor para cada pessoa? Mas onde já se viu isso?

Mesmo o mais feliz dos casais, aquele em que os amorosos acreditam nas metades das laranjas, no destino e em fadas e que há apenas uma tampa para cada tacho e mais não sei o quê, mesmo esses, em bom rigor, se forem honestos, não poderão dizer que têm o melhor do mundo para si. Não podem, pois isso implicaria comparar, avaliar. Podem sentir-se satisfeitos e felizes, mas não podem dizer que é para sempre, exceto se estiverem determinados a ficar com aquela pessoa mesmo que, entretanto, chegue a violência, o desrespeito, a covardia, a desonestidade, a traição. Ainda assim, o ‘para sempre’ será apenas até que um deles morra, há sempre um que morre primeiro, exceto em acidentes, mas ela não queria levar os seus pensamentos para ambientes tétricos e deprimentes. Não queria tristezas, apenas uma reflexão lúcida sobre a imbecilidade dos ‘para sempre’ desta vida. Sem inquietação e abertura, o primeiro a sussurrar disparates ao nosso ouvido passa a ser o génio da nossa lâmpada. Não advogava a eterna errância, acreditava até que desde que fosse estupidamente feliz se imaginava a ficar e a amar, mas não podiam era mentir-lhe descaradamente. E ‘para sempre’ não passava de uma obscena mentira. Um delírio de patetas.

Enquanto ele continuava a tecer um rosário de impossibilidades físicas e gramaticais, ela apagava física e mentalmente todas as possibilidades de conexão. Estava tudo tão bem. Porque foi ele dizer uma coisa daquelas?

Talvez um dia ela voltasse a este dia. Talvez um dia ela recordasse o amor lírico e delirante deste homem. Talvez voltasse a sentir as palavras ‘para sempre’ a roçarem-lhe o ouvido. Quem sabe se com saudade. Quem sabe se com arrependimento. Quem sabe… Ela própria não poderia saber, pois que ela, como ele a amara já lá não estaria. Não totalmente. É essa a beleza do ‘para sempre’, nunca dura o suficiente.

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