Categoria: + Contidianos (pagina 1 de 4)

Contidianos: Substantivo muito indefinido (porque definir já é delimitar), do género que mais aprouver (que somos por todos os tipos de liberdade), em número que se quer sempre muito pluralista (na medida em que quantos mais, melhor).  Sobre eles dizem os mais eruditos, e alguns tolos também: “Um Contidiano por dia, não sabe o bem que lhe fazia!”

Amélia e a Desconhecida Balecas

Amélia não tinha os olhos doces, como dizia a canção. Antes tivesse. Também não tinha sapatos de tiras. Os seus eram sapatos de vento, de chuva, sol e lama, conforme os caprichos da estação, e as suas botas eram de cascalho, poeira e frio, dependendo do piso. Mas, também, quem precisa de sapatos quando tem pés de chinelo? Amélia tinha outras coisas, mas não tinha os olhos doces. A doçura vem com a liberdade e a despreocupação, coisas que nunca … Ler mais

Ainda Ninguém Sabia

Ainda ninguém sabia. Não saber é bom. Só assim se dá continuidade à normalidade das coisas. Quando se sabe mais do que o suposto, não se age com normalidade. Age-se em função daquilo que se sabe, quase extemporaneamente, ludibriando ignorâncias, saltando etapas, respondendo fora do contexto comum, visando coisas que a mera banalidade do dia a dia não permitiria almejar, e provocando desfechos em função do conhecimento que se tem, ou apenas tendo em conta coisas mais que se julga … Ler mais

Lembra-te de Esquecer, Esquece-te de Lembrar

Se me amas, lembra-te de esquecer aquele dia. Tu sabes qual. Aquele em descobriste mentiras nas minhas verdades. Falta de concordância na minha sinceridade. Gralhas no meu amor por ti. Erros ortográficos na minha honestidade. Mas isto não é um ditado. Nem tu te podes colocar no lugar de corretor automático. Por isso, lembra-te de esquecer aquele dia. O dia em que soubeste que te traí com aquele que dizes ser o teu melhor amigo. Mas também tu não és … Ler mais

Viver no Entremeio

Ansiedade. O diagnóstico estava feito, antes mesmo de ter estado frente a frente com aquela inexpressiva bata branca com estetoscópio ao pescoço, moldada a um corpo humano pouco dado a conversas. Ansiedade. Meia dúzia de perguntas, todo o detalhe nas respostas e ei-lo, o diagnóstico: estado de ansiedade. Agravado com um claro esgotamento físico. O médico tinha acertado em cheio no seu próprio diagnóstico, alinhavado há muito, à bainha do seu louco quotidiano. Foi à consulta apenas para ver se … Ler mais

Amesterdão, a Mulher da Minha Vida e a Canção Mais Gay do Planeta

Vou contar-vos como, desgraçadamente, perdi a mulher da minha vida, por causa da canção mais gay do planeta. E não, não é ‘I Will Survive’, de Gloria Gaynor. Isto tudo somado a um estúpido mal-entendido, um vídeo viral e à minha habitual falta de intuição ou, como lhe chamo, avaria no radar principal. O pior de tudo é que apenas o descobri agora, anos mais tarde, quando tudo já estava irremediavelmente comprometido, até mesmo aquilo que julguei um … Ler mais

Estou Para Aqui à Espera Que Ele Morra

+ Precisa de ajuda?

– Desculpe?

+ Pergunto se precisa de ajuda. Vi-o a cambalear antes de se sentar e, não leve a mal a sinceridade, mas está pálido, verde, diria mesmo, com má cara. Precisa de ajuda? Quer que chame alguém?

– Não.

+ Sente-se bem?

– Não.

+ Vê?! Talvez não seja assim tão má ideia pedir ajuda. Está com um tom cinza esverdeado…

– Não se preocupe. Já estou à espera.

+ À espera? Vem ajuda a … Ler mais

A Chata Compulsiva e o Irritante Deixa-Andar

Ele – Demoras? Espero por ti lá fora.

Ela – Ok. Estou, mesmo, mesmo a sair.

Ele – Já disseste isso três vezes…

(Dez minutos depois)

Ela – Já estou pronta, vamos? Fui só confirmar se as portas estavam fechadas.

Ele – Mas eu já tinha feito isso, só perdes tempo, se voltas a repetir as mesmas coisas que me pedes para fazer.

Ela – Fui só confirmar e ainda bem. Duas estavam mal fechadas e a janela pequena, das … Ler mais

Mulheres Seiva

Vinha de uma linhagem de mulheres secas. Secas e sérias. Mulheres substância, sem um único acessório que não sangue e nervos. Apenas seiva. Vida no estado puro, sem sensibilidadezinhas ou enfeites, adereços ou acessórios. Apenas o necessário para se ser gente. Apenas o necessário para sobreviver. Apenas o necessário. Nem mais, nem menos, nem qualquer outra coisa. Nem qualquer outra medida. Mulheres caladas que se expressavam nos atos, no agir, no fazer. Mulheres cujo pensamento não era adivinhável ou expectável … Ler mais

Quando Ele Era o Outro

Sempre que o correio lhe trazia mais uma conta para pagar – fosse de eletricidade, água, gás, condomínio, empréstimo bancário ou outra, o que tanto era válido para o correio tradicional como para o eletrónico, ou até por via de recados deixados por baixo da porta pela vizinha Hermengarda, pouco familiarizada com qualquer um dos anteriores métodos de transmissão de mensagens, e sempre necessitada de deixar os seus pareceres sobre os mais diversificados temas relativos à boa vizinhança –, Joaquim … Ler mais

Este Será o Meu Dia!

– Escolho o dia de hoje.

Ana tinha decidido. A escolha estava feita. Assertiva e resoluta, Ana não teve um segundo de hesitação sequer, quando anunciou ao Júri Vitae sobre qual o dia em que recaía a sua decisão. O brilho nos seus olhos pintava-os de um tom de verde impossível. Tão impossível era aquele verde que os jurados, treze ao todo, como de resto em todas as deliberações, estava prestes a dar o caso por encerrado, quando – já … Ler mais

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