Categoria: + Contidianos (page 2 of 7)

Da Varanda Aberta – Ensaio sobre o (pré)amor fortuito

Da porta aberta, de par em par, da varanda chegavam-lhe as conversas da cidade, o chiar dos elétricos, as travagens dos mais nervosos e as buzinas nos impacientes. Da porta aberta, de par em par, da varanda chegava-lhe o pulsar do bairro, a tensão da vida urbana. Chegava-lhe ainda, da porta aberta, de par em par, da varanda, o espelho prateado do rio e a silhueta deitada daquela outra cidade que se espreguiçava naquela outra margem lá longe. Daquela porta … Ler mais

O Meu Funeral

ELA

Carmen conhecia aquela árvore. Já a tinha visto. Tantas e tantas vezes que não lhe foi difícil reconhecê-la, embora jamais a tivesse visto ao vivo, em casca e folha. Em tronco e copa. Em seiva e madeira. Ali, fisicamente palpável. Um ser vivo e respirante. Mas era ela. A árvore com que sonhava desde bebé. A árvore que, de forma tão ilógica, a amedrontava. Que para ela sorria de forma macabra há já tantos anos.

Carmen tinha pavor de … Ler mais

Se Petúlia Soubesse…

Se Petúlia soubesse que não era filha do homem a quem sempre chamara pai toda a sua vida, mas sim de um ex-patrão da mãe, um empresário multimilionário que fez pouco caso daquela gravidez imprevista, mas provável, dada a falta de cuidado ou uso de qualquer método contracetivo – preocupações impróprias para pequenos devaneios sexuais à hora de almoço de um grande homem de negócios –, a qual resolveu como tudo o resto na sua vida: passando um cheque chorudo … Ler mais

PerfeitaMente! (Ou Talvez Não)

Nos anos ’80, rendeu-se ao cubo mágico, um quebra-cabeças que jamais solucionou além de uma das faces do estúpido cubo, que de mágico tinha muito pouco e de bruxaria tinha tudo. Aquilo era coisa do Demo. Como a sua avó sempre disse: “O Diabo esconde-se nas pequenas coisas.” Pois ele ali estava, pintado de pequenos quadrados coloridos, para lhe infernizar a vida e mostrar quão limitado era o seu QI, se é que a inteligência na sua globalidade e não … Ler mais

Isso Vai Lá Com o Bico de Uma Faca

Em toda a sua vida, o único instrumento, ferramenta ou auxílio de que alguma vez necessitara esteve sempre à distância da gaveta dos talheres, no bico de uma faca, no fio de uma navalha. Jamais lhe falharam. Jamais desapontaram. Mesmo velhas, mesmo ferrugentas, mesmo rombas. Com elas enfrentava o pescoço resistente de uma galinha em vésperas de ser canja, os tenros caules da couve para o reconfortante caldo que se quer verde, o parafuso que teima em não rodar, a … Ler mais

Um dia Inesquecível Para Esquecer

No seu minúsculo berço, os Segundos choravam a bom chorar, se bem que o mais correto seria a mau chorar. Não que chorassem mal, até mostravam alguma perícia e certo pendor para aquela atividade gutural, que já lhes parecia vir da mais recôndita gruta gástrica, tal era o empenho e o esforço despendidos em tal tarefa. Mau, apenas porque isso estava a stressar a pequenada mais crescida, que tentava dormitar na divisão ao lado, com os Minutos já em plena … Ler mais

Ainda Hoje de Manhã…

Sorriu com amargura. Reconhecia bem aquilo que lhe ia no peito, apertando-o, estrangulando-o, fazendo-a sentir-se patética e humilhada. Constrangida. Minguada. Reconhecia bem o sentimento, mas não o compreendia. Recusava-se quase a aceitá-lo. Não pertencia a si. Não naquele momento. Não naquele lugar. Desfasado e extemporâneo. Fora de tempo e espaço adequados. Como podia estar a sentir-se assim, se… Nada daquilo fazia sentido. Porém, quanto mais pensava no justificado desajuste, no muito que havia em tudo aquilo que apenas jogava a … Ler mais

Cuidado Com o Degrau

Não queria dar nome àquilo. Àquela coisa, mas, a cada dia que passava, tornava-se mais e mais premente que o fizesse. Que nomeasse aquela lapa, aquele pensamento obsessivo que a ela se agarrava logo que tomava consciência matutina de que já estava acordada e que era ela, regressada ao seu corpo de sempre e à vida de todos os dias, e que com ela se deitava até, já quase de madrugada, quando fechava os olhos, mais de cansaço do que … Ler mais

Coração Desmesurado

É curioso. Há notícias que não são apenas pedaços de informação. Há coisas que assinalam, no nosso percurso de vida, um antes e um depois, impondo que não consigamos ser, em absoluto, a mesma pessoa que éramos, ou entendíamos ser, antes da tomada de conhecimento deste ou daquele facto. Podemos fingir. Tentar enganarmo-nos, com diligências e artifícios mais ou menos eficazes. Ludibriar a memória, fazer de conta que é tudo um grande equívoco ou até um enorme disparate. Uma mentira. … Ler mais

Não Estava Habituada a Ser Feliz

Não podia ser tudo verdade. Sabia que a felicidade não existe sozinha, em absoluto. Não é uma cor patenteada. Um objeto visível. Não é um facto. Não é palpável ao tato, nem descritível por palavras. Pertence àquela família disfuncional dos sentimentos. É volátil. Difícil de estabilizar. Difícil de identificar, até. Nem sempre se percebe o que é, como é, de onde vem, de que é feita. Menos ainda quanto tempo vai ficar. É instável e caprichosa. Cheia de amuos e … Ler mais

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