Categoria: Histórias Infantis para Adultos (page 1 of 8)

O Lobo Sabichão ou Nem Por Isso

Élio Lobo não sabia ao que ia. Disso se certificara Rapo, diminutivo de Raposa, miúda esperta e inteligentíssima, e companheira de Lobo nos últimos três anos. Tratara de tudo com o maior secretismo e com a ajuda sigilosa de muito pouca gente, a fim de garantir que não houvesse indiscrições fatais. Élio aceitara o desafio com expectativa, e o total desconhecimento relativamente a destino ou qualquer outra informação sobre o que os esperaria no final da viagem, que já ia … Ler mais

A Raposa e a Cegonha e o Valor de Uma Boa Dieta Líquida

A viver no campo, numa zona isolada e deserta, foi com um misto de curiosidade e animosidade que Raposa viu chegar uma nova moradora àquelas paragens alérgicas a urbanidades. Tinha sido a primeira a eleger aquela área de gigantesco nada, apenas campo, vinhedos e alguns montados, para propositadamente se isolar do mundo, em particular dos humanos, gente sempre muito intratável e irritante, pelo que não via com bons olhos a vinda de vizinhança, e ainda que também a recém-chegada procurasse … Ler mais

O Lobo Ferido e a Ovelha Numa História Absurda

Nitidamente fragilizado e febril, ele tremia. Tremia de frio. Daquele horrível frio que poupa a pele, mas não os ossos. Daquele gelo que cristaliza a alma e faz crescer estalactites no coração, afiadas como gumes de foice em ceara seca, ceifando a seiva da vida. Derrotado. Ele sentia-se derrotado. Parco de forças. Isento de energia. Por isso ali estava. Na cama. Encolhido em posição fetal. Mantendo reservas mínimas de alento. Níveis que apenas permitiam pensar. Não muito, nem muito bem. … Ler mais

A Lebre e a Perdiz e a Tola Questão da Inveja

A Lebre e a Perdiz conheciam-se desde os tempos de escola, e mais intimamente desde o secundário. Uma amizade cuja engrenagem se ressentia, de quando em vez, por alguns grãos de areia, aqui e ali. Coisa pouca, mas percetível. Ou coisa muita, mas ignorada. Pecava essencialmente pela inveja, a qual conduzia a uma pequena dose de hipocrisia com a qual se escondia a primeira, ou assim imaginavam as envolvidas. Razão pela qual não era perfeita. Gostavam uma da outra, partilhavam … Ler mais

A Tartaruga Voadora ou a Mulher de Todas as Vontades

Priscila Soraia Vanessa – de agora em diante apenas PSV, acima de tudo por uma questão de economia de espaço virtual e mental – fervilhava de emoção. Havia brilho nos seus olhos cinzentos. Tanto brilho e excitação que se pintavam de um impossível azul, como as águas de todos aqueles locais maravilhosos e exóticos, onde a Natureza se exibe em vaidades descomunais, servindo-se de cores, cheiros e sons que desconhecemos e que julgávamos improváveis. Agora, duas lagoas de bilhete postal … Ler mais

O Corvo que Queria Ser Águia e o Complexo Universo Imobiliário

Gustavo Guilherme olhava o placard como quem se vê ao espelho. Afixado, em local de passagem, bem visível a toda a empresa, e precedido do seu nome, o seu rosto, fixado para a eternidade numa foto em que se achava no seu melhor, com a inestimável legenda: “Empregado do ano”. Rejubilava de orgulho. Gustavo Guilherme, empregado do ano. Não do dia. Não da semana. Não do mês. Nada de banalidades comezinhas. Para ele tudo. Em grande. Empregado do ano. Quer … Ler mais

A Assembleia dos Ratos e o Preço da Cobardia

Pela janela de vidro no final daquele vagão, de frente para a janela de vidro do vagão que imediatamente se lhe seguia, começaram a perceber-se movimentações estranhas. Braços erguidos que se mantinham no ar ou gesticulavam energicamente, como que bramindo ameaças inaudíveis. Cabeças que se erguiam e baixavam. Mãos que se colocavam em frente à boca, num claro sinal de susto e medo. Bocas abertas que gritavam. Seguramente gritavam, ainda que os seus gritos não chegassem a atravessar ambos os … Ler mais

A Raposa Sem Rabo ou a Tia Sem Cheta

Tudo começou de forma sub-reptícia. Sorrateira. Lenta e paulatinamente. Tão Paula-tinamente, que Pureza Mil-Joias, que odiava de paixão nomes de pobres, como Paula e Carla e outras urticárias congéneres, não deu por ela. Por ela ou por ele, que se assumia como pessoa contemporânea, muito pertença do seu tempo, inclusiva e quase, quase progressiva (faltava-lhe apenas um planeta ou dois de distância para tal), desde que não lhe viessem falar de casamentos entre pessoas do mesmo sexo ou abortos instantâneos. … Ler mais

A Pomba e a Formiga ou Como Odiar a Melhor Amiga

Graciete Pomba e Adelaide Formiga não o sabiam, ou sabiam-no, mas jamais o expressariam. Não por hipocrisia, ou conveniência, mas por acreditarem convictamente que eram amigas e que aquilo que as unia, aquilo que julgavam sentir, ou mesmo que deveriam sentir uma pela outra era amor fraterno. Uma amizade pura. Inabalável. Única. Quanto à sua unicidade, não se levantam questões, nem se exigem provas. Era, de facto, ímpar. Inimaginável, se preferirem. A verdade, porém, é que se odiavam. Não por … Ler mais

O Príncipe do Mar e Aquele Outro Que Ela Não Viu

Príncipe do Mar. Não precisou de ouvir mais. Estava tudo dito. Tudo esclarecido. Falaram em príncipe. Juntaram-no a mar. Que mais se poderia acrescentar? Nada mais. Não para si, que sempre procurara um príncipe entre os homens. Não para si, Mar-Ia, que já trazia o mar e o verbo nome, e sempre que o mar ia ou vinha, ela ia e vinha com ele. Maré acima, maré abaixo, como o bater do oceano que vivia no seu peito. Ora bravo … Ler mais

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