Categoria: Histórias Infantis para Adultos (pagina 1 de 4)

Vamos colocar em pratos limpos alguns dos maiores enganos do universo infantil, lançando um foco de pós-modernidade e neurose sobre contos infantis que, com horrores de bisturi e ausência de anestesia, moldaram o espírito feminino durante milénios, deixando claro na mente ‘estrogénica’ as benesses do sacrifício, a alegria da dor, a felicidade da humilhação. Vamos repor a verdade dos factos, porque de parvas as miúdas têm apenas isto: NADA.

O Leão e o Rato ou Mister Sucesso e o Tipo Normal a atirar Para o Marrão

De pé, encostado ao balcão do bar, num canto onde o som das colunas, ainda que insuportável, não era tão estrondoso como noutra zona da sala, Guilherme Leão passava em revista o desastre em que a sua vida se tinha tornado e avaliava de antemão o choque frontal que se adivinhava. Era como se, ao volante de um honesto, mas humilda Fiat 600, em plena rota de colisão com um camião de transportes internacionais, apenas só já conseguisse ver a … Ler mais

A Raposa e o Lobo ou a Mulher que Guardava uma Cabeleira Ruiva na Gaveta

  1. Recordava-se de, aos 25 anos, ter pensado, com alguma soberba e não menos alívio de que, para chegar aos 50 anos – uma idade ainda com algum proveito –, tinha pela frente outro tanto de vida. Lembra-se de se ter sentido feliz, grata, animada com a longa linha de vida que precedia ainda aquele seu instante. Isto fora os possíveis e previsíveis anos extra além de mais esses 25 anos. Achou precioso esse instante de perceção. Mas foi isso mesmo.
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O Velho, o Rapaz e o Burro ou A Mulher Que Todos Eles Amou

Não entendia tanto drama em torno de um assunto que apenas a si dizia respeito. Um assunto privado, praticamente íntimo. Porque haveria toda a gente de ter uma opinião sobre o tema? Porque debitavam postas de pescada para cima da sua vida? Logo ela que sempre soubera o seu lugar e esse era dentro das paredes da sua existência e não a espreitar a janela dos outros, menos ainda a dar-lhes palpites sobre decoração ou a criticar-lhes a escolha das … Ler mais

A Garça e a Raposa ou a Colisão de Universos Paralelos

Detestava sair de casa antes de anoitecer. Pior, não suportava a ideia de forçar-se a despertar artificialmente, com a ajuda de relógios esganiçados a anunciarem horas pré-definidas, que em tudo contrariavam a vontade natural do seu corpo, habituado a dormir entre doze a dezasseis horas. Além de que, mesmo depois de acordada, não se podia precipitar, de rompante, para os afazeres do dia. Precisava, como era óbvio, de algum tempo. Tempo para se ‘aclimatar’ ao estado de vigília, à temperatura … Ler mais

O Gato das Botas ou o Guru da Baixa Autoestima

No dia em que, regressado de um ano semi-sabático pela vasta galáxia do estrangeiro, Gustavo Cipriano aterrou no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, estava um calor abrasador. Para cima de 40º C, pareceu-lhe. Ainda que não chegasse a tanto, sobravam graus de calor para as botas de montanha que trazia calçadas. Um hábito de viajante do qual já não conseguia ou desejava livrar-se, além de que lhe dava aquele ar misterioso e muito cool, de aventureiro sem terra ou … Ler mais

A Raposa e as Uvas ou Tó Sousa e Maria Chuvas

Vamos fingir que era época de vindimas. Que as uvas pesavam já nos caules dos pés de vinha, organizadas em sólidos cachos a lembrar estruturas moleculares em teóricos mapeamentos de laboratório. Podemos, porém, imaginar que era qualquer outra estação do ano, longe dos romantismos bucólicos do outono. Que as formigas, no seu obsessivo afã, não labutavam já sem pausas para o almoço, a fim de prepararem o descanso invernal de toda uma comunidade. Vamos fingir ainda que esta é uma … Ler mais

O Patinho Feio ou Paulinho, a Criatura Mais Horrenda do Universo

O último de nove filhos, a bem da verdade, não traz novidades a uma família. É apenas mais um. O único ‘mais’ que se lhe assiste é o de mais novo. Claro que acaba por ser desejado, talvez nem por isso planeado, mas lá para o nono mês já se ultrapassou a fase calamitosa, já se chora menos e já estão organizados os restos de coleção de enxovais anteriores. Claro que haverá digladiações maritais. Que o pai culpará a mãe … Ler mais

A Rã Que Quis Ser Boi ou a Gorda Sem Noção

Aguardava expectante que uma daquelas vozes de cana rachada chamasse o seu nome pelo microfone. Tinha especial carinho pelo timbre metálico dessas vozes. Vozes que, digeridas pela eletrónica, se tornavam indistintas entre si, quase mal denunciando o género dos falantes. Estridentes, histriónicas, esganiçadas. Como as de algumas vozes de ranchos folclóricos, mais a Norte do que a Sul, mais no feminino do que no masculino, é certo, mas timbres agudos que trazem, ainda assim, um certo conforto, porque nos lembram … Ler mais

A Rã e o Escorpião ou a Órfã de Pais Vivos

A mãe chorava. Agarrava o telemóvel nas mãos. Muito apertado. Contra o peito. A mãe chorava como ela, com soluços e baba e ranho que lhe saía do nariz e, também como ela, limpava tudo à manga do casaco. Não de pode fazer isso. Correu a ir buscar um lenço à mãe. Não chegava lá. Lembrou-se de papel higiénico. Também era bom. Também servia. A mãe sorriu a chorar e chorou ainda mais. Se calhar um lenço teria sido melhor. … Ler mais

O Soldadinho de Chumbo E Aquela Fulana Que Não Lhe Saía da Cabeça

Homem de constituição aparentemente frágil, Gonçalo Raso, de apelido e de patente, soldado na Guarda Nacional Republicana com pé de chumbo para lides demasiado físicas, vivia em conformidade com a imagem que transmitia: meio titubeante e pouco confiante dos seus méritos e capacidades. Era, não obstante, e até de modo paradoxal, homem ambicioso que colocava alta a fasquia dos seus sonhos. Uma espécie de Gata Borralheira da GNR. Passava os dias, por assim dizer, a esfregar tachos e a desencardir … Ler mais

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