Categoria: Histórias Infantis para Adultos (page 1 of 9)

A Raposa e o Leão ou a Queda de Uma Bela Possibilidade em Três Atos

Primeiro Ato

Boaventura oscilava entre a excitação e o medo. Em bom rigor, nem era verdadeiramente excitação nem medo. Era bem mais do que apenas isso. Era euforia e pavor. Uma bipolaridade bastante explosiva para o seu sistema nervoso, já para não mencionar a sua condição cardíaca, sempre à beira de um qualquer ataque. Apenas lhe ouvia a voz e já estava naquele estado. Tinha de sair do foyer. De encontrar a rua. De apanhar ar. Estava a hiperventilar … Ler mais

Os Viajantes e o Urso ou Antes, As Viajantes Sem o Urso

Conclusão primeira: Clarisse imaginava melhor do que vivia.

Sempre imaginou, e imaginou-o incontáveis vezes, desde que se lembra de ser gente, que este dia seria especial. Que sentiria coisas que não caberiam nas pobres formas vocabulares e que, por isso, teria de ficar calada durante dias – talvez semanas, chegou mesmo a supor – antes que conseguisse dizer algo que se aproximar-se da enorme felicidade que sentiria. As palavras são pobres, sabia-o bem, e o seu peito rico em coisas … Ler mais

A Raposa e o Corvo ou a Chefe de Cabine e o Viajante de Turística

Lá vinha ela. Conhecia-a tão bem que julgava já saber ao que ela vinha, consoante a sua forma de andar. Hoje vinha pedinchar. Tão transparente. Tão previsível. Ele tinha assumido uma personagem da qual, agora, particularmente agora e por maioria de razões, não lhe apetecia despir. Sempre enfrentara e sobrevivera às investidas matreiras dela recorrendo à única arma à disposição dos educados e humildes: a falsa ingenuidade, ou, dito de outra forma, fazendo-se de parvo. Assim, sabia bem que, para … Ler mais

O Rato e a Ratoeira ou Aquele Lindo Dia de Verão

Zélia Marquesa, administradora do condomínio para o próximo biénio, nem pestanejava. Estaria aquela insignificante criatura, a viver na mais pequena parcela do prédio – umas bem giras, mas exíguas águas furtadas com um lamentável chão de linóleo – a dizer exatamente aquilo que ela, recém-coroada rainha do sofisticado reino de aquém e de além porta de entrada principal, entendia? Estaria o ratito do esconso-mor a exigir obras de manutenção estruturais no condomínio, por conta de uma telha estalada, nem sequer … Ler mais

O Lobo Sabichão ou Nem Por Isso

Élio Lobo não sabia ao que ia. Disso se certificara Rapo, diminutivo de Raposa, miúda esperta e inteligentíssima, e companheira de Lobo nos últimos três anos. Tratara de tudo com o maior secretismo e com a ajuda sigilosa de muito pouca gente, a fim de garantir que não houvesse indiscrições fatais. Élio aceitara o desafio com expectativa, e o total desconhecimento relativamente a destino ou qualquer outra informação sobre o que os esperaria no final da viagem, que já ia … Ler mais

A Raposa e a Cegonha e o Valor de Uma Boa Dieta Líquida

A viver no campo, numa zona isolada e deserta, foi com um misto de curiosidade e animosidade que Raposa viu chegar uma nova moradora àquelas paragens alérgicas a urbanidades. Tinha sido a primeira a eleger aquela área de gigantesco nada, apenas campo, vinhedos e alguns montados, para propositadamente se isolar do mundo, em particular dos humanos, gente sempre muito intratável e irritante, pelo que não via com bons olhos a vinda de vizinhança, e ainda que também a recém-chegada procurasse … Ler mais

O Lobo Ferido e a Ovelha Numa História Absurda

Nitidamente fragilizado e febril, ele tremia. Tremia de frio. Daquele horrível frio que poupa a pele, mas não os ossos. Daquele gelo que cristaliza a alma e faz crescer estalactites no coração, afiadas como gumes de foice em ceara seca, ceifando a seiva da vida. Derrotado. Ele sentia-se derrotado. Parco de forças. Isento de energia. Por isso ali estava. Na cama. Encolhido em posição fetal. Mantendo reservas mínimas de alento. Níveis que apenas permitiam pensar. Não muito, nem muito bem. … Ler mais

A Lebre e a Perdiz e a Tola Questão da Inveja

A Lebre e a Perdiz conheciam-se desde os tempos de escola, e mais intimamente desde o secundário. Uma amizade cuja engrenagem se ressentia, de quando em vez, por alguns grãos de areia, aqui e ali. Coisa pouca, mas percetível. Ou coisa muita, mas ignorada. Pecava essencialmente pela inveja, a qual conduzia a uma pequena dose de hipocrisia com a qual se escondia a primeira, ou assim imaginavam as envolvidas. Razão pela qual não era perfeita. Gostavam uma da outra, partilhavam … Ler mais

A Tartaruga Voadora ou a Mulher de Todas as Vontades

Priscila Soraia Vanessa – de agora em diante apenas PSV, acima de tudo por uma questão de economia de espaço virtual e mental – fervilhava de emoção. Havia brilho nos seus olhos cinzentos. Tanto brilho e excitação que se pintavam de um impossível azul, como as águas de todos aqueles locais maravilhosos e exóticos, onde a Natureza se exibe em vaidades descomunais, servindo-se de cores, cheiros e sons que desconhecemos e que julgávamos improváveis. Agora, duas lagoas de bilhete postal … Ler mais

O Corvo que Queria Ser Águia e o Complexo Universo Imobiliário

Gustavo Guilherme olhava o placard como quem se vê ao espelho. Afixado, em local de passagem, bem visível a toda a empresa, e precedido do seu nome, o seu rosto, fixado para a eternidade numa foto em que se achava no seu melhor, com a inestimável legenda: “Empregado do ano”. Rejubilava de orgulho. Gustavo Guilherme, empregado do ano. Não do dia. Não da semana. Não do mês. Nada de banalidades comezinhas. Para ele tudo. Em grande. Empregado do ano. Quer … Ler mais

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