É difícil de contabilizar. Impossível de enumerar. A memória não o permite. A vida não se compadece com essa aritmética, com as contas do que deveria e poderia ter sido feito a cada tomada de decisão, no lugar daquilo que de facto se fez ou mesmo daquilo que deixou de ser feito. Nada fazer já é decidir, já é optar, ainda que a inércia não tenha sido consciente, não tenha sido uma decisão de facto e apenas o resultado de preguiça, falta de tempo, atenção ou conhecimento de que nada se estava a fazer perante algo que requeria atenção e decisão. Por vezes mesmo, os minutos necessários à ponderação podem impedir que se aja atempadamente e, uma vez fora de tempo, o melhor é seguir em frente, sem opções, sem ação. A vida acontece e puxa-nos pela mão e, não raras vezes, lá seguimos cegos os seus passos, a sua sofreguidão e ritmo. Adormecidos. Sem ver ou ouvir. Apenas somando passos e desatenção. Passos e desatenção.

Ainda assim, há marcos que recordamos, por norma quando já pouco ou nada há a fazer. Sobre todas as coisas que fiz e que deixei por fazer há sempre interrogações mais ou menos agudas. Será que agi bem? Não me precipitei? Não teria sido melhor de outra forma? O correto não seria ter feito nada? Por outro caminho? Qual forma? Que caminho? Há momento em que as coisas se revolvem por si mesmas quando nos recusamos a agir ou intervir. Em certas alturas, sempre à posteriori, claro, percebemos exatamente aquilo que deveria ter sido dito. Aquilo que era especificamente o necessário a ser feito. O mais acertado. Ou, pelo contrário, o que deveria ter ficado intocado, o que jamais deveria ter sido confessado, o que jamais deveria ter sido feito. Mas a nossa mão, na mão da vida, lá segue por um qualquer trilho e o tempo passa, por nós e pela vida, ainda mais célere, e a única coisa que fica, que pára num local estático são as dúvidas sobre tudo aquilo que ficou por fazer, ou por fazer na medida certa, no tempo correto, no lugar devido. Tudo exato.

By Antonio Mora

Nisso pensava Eurídice. Com isso se debatia naquele hospital. Sobre isso se questionava diariamente. Será mesmo a vida que nos puxa? Porquê pensar numa entidade exterior a nós? Não será isso uma pífia desculpa para tudo aquilo que deixámos de fazer, ou de fazer bem? A vida não comete erros. Nós, sim. Porque não nos colocamos no centro de decisão, na torre de controlo e acabamos a responsabilizar os outros, a vida? Demasiado vago e absurdo para Eurídice, naquele momento, naquela cama de hospital. Os dias iguais às noites. O medo igual à dor. A vida igual à morte. Menos uma cama ocupada. Mais uma lágrima derramada. Mais um paciente que chega. Mais um turno que acaba, naquele quarto onde há sempre uma luz acesa, onde é sempre dia e o movimento não finda. Para aliviar toda essa informação de valor negativo, Eurídice fazia de conta que estava na elegante cafetaria de um qualquer museu, trocando o barulho dos equipamentos médicos pelo das máquinas de café e das chávenas no embate com os pires. Estava num museu. Era o seu lugar seguro. Tinha parado para um café entre exposições. Todos aqueles ruídos não eram os de todas as máquinas que, enquanto mestres das marionetas davam ainda vida a quem ela já escasseava. Aqueles eram os apitos dos moinhos de café, no afã de transformar grãos em pós, eram o silvo do vapor da água enquanto esta mergulhava no café, era o som do líquido escuro e quente a salpicar a chávena, o desta a tocar no pires, depois no balcão… Que café maravilhoso, que aroma a… sangue e a sofrimento. De volta à sala dos horrores.

By Willy Ronis

Eurídice devia ter percebido. Já os tinha visto, antes de dar entrada, antes do ‘check in’ no hospital, nas consultas prévias. Enquanto aguardava na sala, ou enquanto circulava pelos corredores do serviço de cirurgia cardiotorácica. Eram meias pessoas. Encolhidas no volume mínimo do seu porte. Sentadas em cadeiras de rodas. Os braços cruzados sobre o peito, num reforço último dos agrafos e pontos cruz que tudo tentavam manter no sítio. Cor macilenta. Olhos sem brilho. Eram metades, se tanto, das pessoas que eram quando lá entravam. Com receio, é certo, mas esperançosas de cura, ou melhoria. Corações fracos à chegada, corpos derrotados à saída. Um cansaço imenso. Uma fragilidade total. Um desânimo não contemplado no dia em que, com entusiasmo, recebiam a notícia do agendamento da esperada operação ao coração. De peito aberto à ciência. Uma válvula, um entupimento, uma estenose ou tudo junto que o calcário é tinhoso e as peças humanas não são eternas. Aguardavam-se biopróteses ou material sintético, que quando falha o coração, qualquer ajuda é bem-vinda, seja de matéria bovina ou artificial.

Ao vê-los, depois, à saída, no dia da alta, mesmo já sem as deprimentes vestimentas hospitalares, homens e mulheres estavam irreconhecíveis. Tudo tinha corrido bem. Tanto assim que estavam de saída. Operações corriqueiras para os médicos, que todos os dias sentiam na mão os corações alheios, a pulsação de outras vidas. Cirurgias de todos os dias. Nada de novo para quem opera. Tudo de inesperado para quem era aberto. A cabeça sabia do sucesso, e era informada sobre a necessidade de uma longa e possivelmente dura recuperação. Sabiam que tudo estava melhor agora do que quando entraram. Sentiam-se, porém, tão pior agora. Porque a memória do corpo estava em carne viva. Enquanto a mente se manteve anestesiada num mundo acolchoado a algodão e esquecimento, o corpo tinha estado presente, acordado e alerta e sabia bem o quanto tinha custado. O corpo sabia que tinha estado morto. Na total escuridão do que já não existe. Sabia bem que o coração tinha parado de bater. Que o esterno tinha sido serrado, as costelas abertas e afastadas. Tinha visto o coração parado nas mãos ensanguentadas do homem de bata verde e touca colorida. O corpo conheceu a derrota final. Demora tempo a recuperar disso. Não da dor. A dor passa ou a ela nos habituamos. Mas do choque. Da notícia da própria morte. Da visão do seu homicídio. A mente não esteve lá, mas o corpo tudo presenciou no frio da cripta cirúrgica. Era essa dolorosa memória física que os operados traziam no rosto, no abatimento do corpo, na opacidade dos olhos. Na magreza do soro. Eram ex-moribundos. Todos eles ex-mortos.

Eurídice não percebeu à chegada. Todos lhe pareciam mais velhos, menos resistentes do que ela. Eventualmente com menos vida a que regressar no final. Com ela seria diferente. Era mais nova. Mais resistente. Tinha assuntos por resolver aos quais ansiava regressar imperiosamente. Eurídice não percebeu que, ali, eram todos iguais. Todos potencialmente derrotados. Sabia apenas que necessitava de tempo para todas as coisas que tinha deixado por fazer e que necessitava de experimentar ou remediar. Desde logo, a cama por fazer. Nunca deixava a cama por fazer. Primeiro, arejava-a enquanto tomava banho e tratava do pequeno-almoço. Depois, esticava bem o lençol de baixo e aconchegava por cima dele tudo o resto, conforme a estação do ano. Apenas uma leve colcha no verão, um bom edredão de penas no inverno. Jamais saía de casa sem a cama feita. No regresso a casa, gostava de perceber que tudo aguardava por si com aprumo e esmero. Tudo pronto para a receber bem. Pior do que chegar a casa para uma cama por fazer era encontrar a louça por lavar. Nada disso. Regressar a casa tinha de ser uma sensação reconfortante, boa, sem tarefas a gritarem urgências e limpezas. Mas naquele dia, logo naquele dia, um ligeiro atraso e aquele enorme receio de não chegar à hora combinada com a equipa médica, precipitou-a para a ravina de uma cama que ficaria por fazer. Mal sabia ela que teria de aguardar tantas horas antes de dar entrada na enfermaria. Ainda tanto que esperar antes disso. Um Raio-X, mais análises, pesagem, medição da tensão arterial e longas horas de espera entre cada coisa e ainda depois de todas as coisas. Esperou.

Enquanto aguardava, o carrossel da sua mente ia girando tudo aquilo que deixara por fazer. Já não os assuntos domésticos, com a tenebrosa imagem da cama por fazer e do frigorífico vazio à cabeça, mas os outros. Todos os outros. Aqueles que verdadeiramente importam logo que a cama esteja feita e a aguardar o seu regresso à noite. Estaria Casimiro, tal como a sua cama por fazer, à sua espera quando Eurídice regressasse de coração novo e peito cerzido? Teria ele, por acaso, para lhe agradar, esticado os lençóis e arrumado o leito que já tinha sido seu também? Estaria ainda amuado? Teria finalmente aceitado a diferença entre sexo e amor e compreendido que, havendo segurança no segundo, ela não necessitava do primeiro? Tudo se resolve na vida, exceto a própria vida, que ruma desenfreada e sofregamente para a morte, para o seu próprio fim. Deveria dizer-lhe que podiam chegar longe no prazer com os brinquedos sexuais que ela guardava – ou antes, escondia – no fundo da bolsa dos pensos higiénicos, onde sabia que ele jamais tocaria? Os homens fogem do sangue das mulheres e essa era a melhor garantia que tinha de não ser descoberta. Essa confissão pioraria tudo? Mas guardar segredo de quem se ama não é já o pior de tudo? Ela aceitava-o exatamente como ele era, com todas as suas dificuldades, idiossincrasias e incapacidades. Ele teria de fazer o mesmo. Na sua lista de coisas a remediar surgia, assim, a confissão dos seus orgasmos técnicos, conseguidos em menos de nada sempre que ele saía e havia tempo e apetite para tal. Não há traição nisso, apenas higiene sanitária, alívio da tensão, ioga mental. Compreenderia Casimiro isso? E aceitaria? Entre compreender e aceitar vão milhas de distância, sempre difíceis de percorrer, principalmente quando se leva o coração nas mãos. O dela, debilitado, o dele, magoado.

Recordou-se também de que tinha de devolver um tupperware à irmã, sempre tão zelosa das suas caixas de plástico. Onde é que o tinha guardado? Lembrou-se. Na gaveta grande, sob o lavatório da cozinha. Sim, incluiria isso na sua lista de afazeres pós-operatórios. Que mais? Tinha regressado aos assuntos domésticos e não era desses que importava tratar. Sinal de que evitava os grandes temas, os importantes e urgentes. De entre as coisas que tinha deixado por fazer havia beijos por dar, desculpas a apresentar e outras por aceitar. Como teria sido a sua vida se tivesse partido com o Carlos do 12.º ano G para Marselha? Estaria a fazer pão com sabor francês na padaria do tio do Carlos? Teria regressado a casa dos pais seis meses depois e tudo acabaria igual, com Casimiro ao seu lado? E se tivesse aceitado experimentar o amor no feminino com a Elisa, ativista universitária que vivia para a política esquerdista, que um dia, sem mais nem menos, lhe disse que se sentia atraída pela sua nostalgia? De tal confissão fixou-se apenas na nostalgia. Nunca ninguém tinha parado para a classificar em termos temperamentais. Nostálgica? Nunca se tinha visto enquanto tal, mas compreendeu logo como era verdade. A começar pelo próprio episódio. De tudo o que Elisa lhe disse e propôs naquela noite de infinita conversa e vinho rasca, que poderia ter mudado o curso da sua vida, guardou apenas e de forma egoísta, o nostálgico adjetivo. Não denunciaria isso também vistas curtas? Pouca vontade de sorver a vida? Como seria ter tido sexo com outra mulher? Os seus dildos não seriam complementos diretos e indiretos de uma sexualidade mal-assumida, maltratada? Seria lésbica? Bissexual? Isto não poderia Casimiro ouvir. Tinha de pensar mais baixo, que ele tinha ouvidos de tísico e há dúvidas interiores que só sabem gritar, histriónicas.

Tinha de pedir desculpa à filha que não deixou nascer e a todos os outros filhos a quem nem deu a possibilidade de poderem vir a ser. Nunca desejou uma barriga, uma prole. Nunca correu para um bebé. Seres egoisticamente estranhos e exigentes que nunca compreendia na totalidade. Sentia agora, e pela primeira vez, coisas diferentes em relação a tudo isso. Quando regressasse, de coração regenerado, teria de reavaliar a possibilidade de ser mãe. Não sabia porquê, mas até a palavra lhe soava bem agora, ali, deitada naquela cama de hospital. Seria egoísmo? Para que um dia tivesse quem a levasse às consultas e tratasse da burocracia? Não se teria acomodado com Casimiro precisamente porque com ele, e o seu problema, havia poucas ou nulas possibilidades de engravidar? Não teria elegido Casimiro como o seu mais seguro método contracetivo? Não era justo. Amava Casimiro, apenas não sabia – ou questionava-se agora sobre isso – se seria o amor necessário ou do tipo certo. Seria apenas um amor cómodo e suficientemente nostálgico para a atrair? Uma coisa morna e com poucas exigências de manutenção?

Invadiu-a uma profunda mágoa, que ia desde o tupperware da irmã à impotência de Casimiro. Era a cabra da nostalgia. Sempre à espreita, sempre vigilante e opressora. Ninguém consegue agir com naturalidade quando se sente observado. Somos sempre forçados a tentar uma melhor versão de nós que obviamente nunca é a nossa melhor versão. Só a liberdade nos permite que extravasemos para outros planos e nos aprimoremos na impossibilidade de tudo o que poderíamos ser. Não admira que o coração não aguentasse tanto esforço, tanto desconforto. Seria infelicidade? Porquê tantas dúvidas e camas por arranjar naquele peito, também ele, desarranjado e com falta de ar?

Gemidos na cama ao lado. Não, deveriam ser do seu coração, que a cama ao lado sossegava no conforto dos analgésicos administrados intravenosamente, que é sempre a melhor e mais eficaz forma de panaceia. Seria isso uma analogia para o que deveria fazer logo que regressasse a casa e falasse com Casimiro? Aproveitaria, caso ele a fosse visitar ao hospital, para lhe dizer de uma vez por todas que talvez ele estivesse certo e ela não o amasse como ele devia ou merecia ou apenas desejava. Ou dir-lhe-ia apenas que queria agora ter filhos? Conseguiriam com tratamentos? Valeria a pena? Porquê terem filhos juntos, afinal? E queria-os de verdade ou era a proximidade de uma situação limite que a fazia sonhar com exotismos?

Eurídice pulou tão celeremente do exotismo para destinos que sempre quisera conhecer, que acabou por deixar o tema filhos em banho-maria, a aguardar nova fervura. Quem troca bebés por viagens deve estar ciente daquilo que as prioridades dizem sobre aquilo que nos vai no coração. No de Eurídice iam muito problemas e não menos preocupações. Mas não iam filhos. Era aventura aquilo que procurava, aquilo que mais pena tinha de ter deixado por fazer, em cima da cama, também ela desfeita. De entre tudo aquilo que deixou por fazer, percorrer mais mundo era aquela que mais a entristecia. Sem filhos nem cadilhos, apenas Casimiro, uma casa alugada e um gato, porque não se tinha aventurado mais? Agora não, claro, que a Covid estragou as rotas de toda a gente e acabou a quebrar-lhe o ânimo, mesmo agora. Mas quando éramos livres e não o sabíamos, e tínhamos viagens low cost e R&B’s amigos das carteiras mais anoréticas, porque não tinha ido mais longe ou mais vezes? Tinha perdição pela Ásia e não conhecia mais do que Banguecoque e um pouco do Vietnam. Então e o Laos, o Camboja, o Sri Lanka e a Índia?! Isto para não ir para os Tibetes e Butões da vida, ou o médio oriente que é outro enigma. África sempre, claro, e a colorida América Latina a qualquer hora.

Tantas horas de pilates por fazer, tantas bandas por ouvir, tanto mar para escutar, tanto amor ainda por experimentar e uma galáxia de livros por ler. Casimiro, definitivamente, não estava a levar a melhor. Teria de dançar mais, sonhar mais, ir mais vezes ao Alentejo, sossegar mais o peito e endiabrar mais o corpo. Viajar ais, muito mais! Cantar, mergulhar em água gelada, experimentar comida picante e exótica, meter conversa com estranhos, rir, ser interessante e apetecível, ligar mais à vida do que às camas por fazer. Aprender russo e mandarim, italiano e a pedir desculpa. Eurídice imaginava-se apaixonada de novo, extasiada de novo, excitada de novo e Casimiro não era novidade para si…

Eurídice sentiu-se mal. Cansada. No peito uma assustadora arritmia. Suores frios. Um alarmante desfalecimento. Agarrou-se à cama. Esta inclina-se abruptamente. Onde teria carregado? Ou quem a carregava? A cirurgia estava agendada para amanhã de manhã. Chegaria lá? Seria já agora? Era urgente, sim. Mal conseguia falar e via tudo a fugir-lhe do caminho. Era da sua vista, ou já corriam com a sua cama pelos corredores? Uma linha de tracejados de luz em cima. Uma autoestrada invertida. Tinha de vomitar. Não conseguia, com o ventilador… Vomitou mesmo assim. Será que Casimiro a iria visitar? E que seria avisado? Agora parou tudo. Pediu para falar com o médico. Não seria um médico, mas uma médica.

By Josef Koudelka

– Melhor, doutora. Nós, mulheres, entendemo-nos melhor. Saberá como custa ter deixado tantas coisas por fazer para estar aqui, a desfalecer-lhe nos braços. Assim, de urgência. Tanta coisa por fazer, doutora, tanto assunto para arrumar, tanto caminho vazio sem os meus pés. Em nome de todas as coisas que deixei por fazer… Quero pedir-lhe, já que me vai abrir o peito, que depois de resolver a questão da válvula, dê também um jeito ao desassossego que trago no coração. Pode ser, doutora? Se não o conseguir remover todo, pelo menos uma parte. Já ajudava, doutora. Consegue fazer-me isso? Por favor!

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