Categoria: + Contidianos (Page 1 of 11)

Contidianos: Substantivo muito indefinido (porque definir já é delimitar), do género que mais aprouver (que somos por todos os tipos de liberdade), em número que se quer sempre muito pluralista (na medida em que quantos mais, melhor).  Sobre eles dizem os mais eruditos, e alguns tolos também: “Um Contidiano por dia, não sabe o bem que lhe fazia!”

Deixar Passar o Momento – O Seu Primeiro Não-beijo

Eduardo de pé. À sua frente. Dizia-lhe coisas lindas. Coisas que nunca ninguém antes lhe tinha dito. Eduardo não perdia tempo com adjetivos de beleza, cores de olhos e tons de cabelo brilhante que mudava de cor conforme a luz o moldava, entre o louro esverdeado no verão e o caju avermelhado no outono, quase chocolate nos dias de chuva. Eduardo sabia mais do que cores e harmonia. Ele falava-lhe de coisas que nascem dentro de nós e que nem … Ler mais

Deixar Passar o Momento – Era Para dividir

Os tremores. A comichão. As dores. A brutal ansiedade. A avidez. O apelo do desespero. A disforia. Passou o pacote. Janeco aquecia já a colher. Dividiriam. A meias. Não havia tempo para mordomias, nem seringas, ao que parecia.

– Falta muito?

A voz sumida. Cavernosa. Não a reconhecia. Era Janeco quem falava ou tinha sido ele? De quem era aquela voz? A quem faltava o tempo? Quanto tempo é pouco tempo quando falta o tempo? Janeco sempre mais funcional, a … Ler mais

Deixar Passar o Momento – Aquele Maldito Tarso

Lamentava muito. Profunda e insanamente. Lamentava tanto e tão sofridamente, que todas as razões da sua existência se tornavam nulas, o que remetia para o seu próprio nascimento. Porquê ter nascido? Lamentava-o agora, já tudo perdido e sem retrocesso, mas, pior do que tudo, lamentara-o no momento em que poderia ter sido diferente. No segundo exato em que poderia ter mudado o curso das coisas e com isso o rumo da sua vida. Tinha tido a chave na mão, rodado … Ler mais

O Sangue da Guerra e o Sangue Dela

Olhou mais uma vez para o cansaço exposto nos olhos ainda assim demasiado abertos dos filhos. O filho preso a si pelo cinto dos casacos. A filha, presa já só e apenas nos seus braços à custa de fé, que as forças tinham ficado lá atrás, no quilómetro cento e muitos daquela transumância forçada e desumana. Era apenas a vontade, mais do que isso, a necessidade, o pânico e o desespero que mantinham a criança nos seus braços e estes … Ler mais

Tudo o que Ficou por Fazer

É difícil de contabilizar. Impossível de enumerar. A memória não o permite. A vida não se compadece com essa aritmética, com as contas do que deveria e poderia ter sido feito a cada tomada de decisão, no lugar daquilo que de facto se fez ou mesmo daquilo que deixou de ser feito. Nada fazer já é decidir, já é optar, ainda que a inércia não tenha sido consciente, não tenha sido uma decisão de facto e apenas o resultado de … Ler mais

Já Era Natal… Outra Vez

Tinha apenas fechado os olhos. Um segundo? Não mais do que isso, estava certa. Podiam ter sido cinco minutos, vá, que o tempo é traiçoeiro e a sua cabeça funcionava num outro fuso horário, mas… Aquilo era ridículo e desprovido de qualquer pingo de lógica. Não havia explicação, nem recorrendo à fantasia. Como é que o calendário anunciava já de novo o 25 de dezembro para daí a uns dias? Estaria louca? Teria terminado mais uma volta inteira em torno … Ler mais

A última vez

Há algo de absurdamente doloroso e intolerável na última vez. Exulta-se tanto a primeira vez, e nada se diz sobre a última. Não aquela última vez que só a posteriori percebemos ter sido a última vez. Como quando recordamos que vimos sicrano nas últimas férias e estávamos longe de saber que nunca mais estaríamos juntos, ou beltrano ainda ontem e mal sabíamos da impossibilidade de novo encontro. Não. Essa última vez não dói na carne porque passa por ser apenas … Ler mais

O (a)caso da aliança

O olhar de Nuno é distraído por um suave reflexo dourado, que inicialmente não ganha interesse ou significado na sua mente. Começa por nem olhar, mas uns segundos depois – como se a sua mente tivesse ocupado esse nano espaço temporal em conjeturas sobre a possível origem daquele ainda insignificante brilho –, Nuno dedica-lhe atenção. Olha o chão de onde vem aquele pequeno raio luminoso. Dirige-se-lhe. Baixa-se e palpa o chão de madeira dourada do qual a coisa brilhante mal … Ler mais

Apetecia-lhe Matar Alguém!

Apetecia-lhe matar alguém. Não era bem uma vontade, era mais uma necessidade. Seria assim que acontecia com os psico e sociopatas? Também não tinha um alvo específico, ainda que, de imediato, esta vontade se associasse à imagem de um ou outro totó, mas mais fortemente se colava à lembrança de uma centena de estúpidos com quem a sua vida se cruzava amiúde. Não seriam rigorosamente cem, talvez uma mão-cheia. Demasiados, ainda assim, para o seu saudável equilíbrio psíquico e bem-estar … Ler mais

Aquele Homem na Praia  

Não me recordo exatamente. Não consigo precisar se percebi primeiro quem ele era, ou antes quem me parecia que pudesse ser, e, por causa dessa coincidência, passei a prestar atenção àquela família recém-chegada à praia, ou se o meu obsessivo voyeurismo foi espoletado muito antes de tudo isso, com a frase: “Deixa-te de merdas, que ainda agora chegámos, ouviste?”, proferida, em voz alta e descompensada, por um pai e dirigida a uma das três crianças que o acompanhavam. A mais … Ler mais

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