Olha para o telefone. O ecrã diz-lhe de quem se trata: Teresinha.

– Olá amor do pai.

– Pai, ele está a bater-me. Pai, ajuda-me.

– Ele quem, Teresinha! Quem filha?

– Ele, pai, o Mário… Ai, bruto…

Do outro lado da linha não veio mais informação útil. Um transeunte prestável avisou em que rua estava.

– Teresinha, querida, não saias daí que o pai já está a caminho, vou apanhar o autocarro e logo, logo estou aí. Não saias daí, ouviste?!

Mal tinha entrado no autocarro quando recebe novo telefonema. Um bombeiro solícito indicava para onde se dirigiam. Santa Maria. Tinha de descer na próxima paragem e apanhar novo autocarro em sentido contrário, ou manter-se naquele e mudar lá mais à frente e depois seguir noutra direção, podendo daí já ir de metro. Em termos de distância ia dar ao mesmo. Restava saber em que é que cada um dos trajetos se traduzia em tempo. Impossível de calcular àquela hora, início de rebuliço citadino. O que andaria ela a fazer na rua tão cedo? Quem era o Mário? Porque lhe batia? Quem poderia querer mal à sua menina.

– Teresinha.

A palavra saiu-lhe inadvertidamente. Entre a azáfama cardíaca e uma certa inércia pesada que sobre ele se abatia, manteve-se de pé naquele autocarro. Não podia perder a paragem. Qual era a cor da linha de metro? Organizava-se mentalmente. Era bom entreter o cérebro com questões práticas e deixar o alvoroço para o coração. Cada um a fazer o seu trabalho. Finalmente o hospital. As urgências. Teresinha.

– Meu amor, o que é que…

– Pai, preciso de dinheiro para fazer um aborto.

A cara do pai ia representando, à vez e em simultâneo, todo um manancial de expressões humanas, reflexo do turbilhão de certezas e incertezas, dúvidas, incompreensões e choque que se alternavam na sua mente, para depois se acumularem, empilhadas umas sobre as outras. A filha estava viva, mas estava amassada. Falava e andava, mas mal e atabalhoadamente, num ritmo ora alucinante ora vago e imperscrutável, naquela sala com cheiro a hospital e a notícias ruins. A reboque, um andarilho com tubos que lhe entravam no braço. Comia umas palavras e cuspia outras, como quem tira espinhos do peito. Ele queria compreender, saber coisas, ela não se calava com o aborto e o dinheiro para o aborto. Enquanto isso o pai precisava de saber quem era o Mário, porque lhe queria bater àquela hora madrugadora e porque estavam na rua. Tinham dormido lá? Tinham-se levantado a meio da noite? Julgava-a segura em casa da mãe… O que a levou ao hospital? Uma gravidez? Mas ela era uma menina… O pai sentou-se. Porque falava o médico – sim, havia agora um médico na sala – porque falava para ele como se Teresinha não estivesse presente?

By Magnum Dynalab

– A sua filha precisa de cuidados. Mais uma como esta e quem sabe qual o desfecho. Uma nova dose destas de químicos que nem conseguimos identificar e pode ser o fim. Subnutrição, desidratação, uma costela partida, hematomas… Não ter perdido o feto foi aquilo a que vulgarmente se chama de milagre. Ela vive consigo?

– Não. Vive com a mãe, mas… Vive bem, quer dizer. Não compreendo. Juro que não compreendo.

O médico compreendeu. Compreendeu a lágrima aprisionada numa espécie de decência idiota. Compreendeu que aquele pai amava, ainda que não visse, que acreditava cuidar e proteger, ainda que só em sonhos. Aquele pai olhava para aquela mulher à sua frente e queria ver nela a filha, mas estava difícil. Aquele pai olhava para a filha, mas uma outra mulher interpunha-se entre ambos. Vivia uma paternidade de alucinação, onde uma Teresinha adorável era o protótipo da menina de cinco anos que o pai ainda carregava no peito e nos olhos. Aquele pai era negligente. Furtara-se ao seu papel de pai e era agora obrigado a chocar de frente com a vida de delinquência e dependência de uma Teresa adulta, ainda que jovem, que somava más decisões à rebeldia de quem vive como quer há demasiado tempo. Como era possível aquele pai não ver? Amar não era ver? Antever e antecipar? Falar é fácil e julgar os outros ainda mais, mas tinha demasiados anos de prática para reconhecer um pai ausente.

– Pai, eles dizem que estou grávida, ouviste? Quero fazer um aborto. O Mário não quer filhos.

De novo o Mário. Quem era? Onde estava? O que tinha ela tomado? Ai, se ele apanhasse o estafermo ali e agora. Se… Tantos ses e tantas perguntas sem resposta, apenas a urgência do aborto. Apenas aquela mulher no corpo de Teresinha onde um neto nado-morto era um presente sem futuro.

Explicou no emprego as suas razões para aqueles dias de ausência. Fê-lo a custo, mas com honestidade e até com uma dose extra de drama, penitência e choro. Era o primeiro emprego em muitos anos, o seu quinto casamento estava por um fio, e tinha mais três filhos com esta nova mulher, sem contar com os outros, onde se incluía Teresinha. Não podia perder o emprego. Falou como se estivesse no confessionário. Expôs-se cruamente. Todo ele carne, sangue e lágrimas.

– É a minha Teresinha, entende?! A criança mais doce, meiga e pura… Tenho outros filhos, posso comparar. O coração dela é de ouro. Está sempre tudo bem… A minha Teresinha. O que é que fizeram à minha filhinha?!

Compreenderam. Aceitaram. Seguiu-se em frente que um homem no chão só pode ser erguido e não espezinhado, além de que Beatriz, a chefe, não tinha pachorra para choradeiras nem diminutivos. Ficava louca quando os dois se juntavam, as choradeiras e os diminutivos.

Passados três meses, Beatriz conhece a Teresinha. O pai tinha-se visto forçado a levá-la para o escritório. Uma cena canalha com o namorado, um tal de Jupe. Terá percebido bem o nome? Não interessava, era apenas mais um nome para apagar da memória, ao contrário de Teresinha, pelo que não perderia tempo a decorá-lo. A imagem de Teresinha, ali ao vivo e com más cores, calcou com violência e escárnio a descrição que um dia o pai dela lhe fez, desfeito em lágrimas no seu escritório. Teresinha era apenas uma toxicodependente, daquelas que nem precisamos de saber coisas sobre drogas para perceber que Teresinha já cá não estava. Fazia parte de um outro planeta, sintético, feito de coisas que nem nos atrevemos a imaginar, e coçava-se compulsivamente. Teresinha prostituía-se, não duvidava, que a indumentária gritava sexo-a-troco-da-dose por todo o lado. Teresinha era um caco de ser humano. Estava no fundo dos fundos. Num local de que só ela conhecia a morada. Percebeu as lágrimas do pai, mas percebeu também que não a queria ali, na empresa, a não ser que não se importasse que os administradores, se vissem Teresinha, despedissem o pai na hora. Não era uma empresa com coração e sim com muitas alergias sociais. Ali, exigia-se perfeição, rigor, excelência, correção e lucidez. Aprumo. Sucesso e muita, muita aparência. Cada um que tivesse as dependências que desejasse, desde que não fossem perscrutáveis nem interferissem com a sacrossanta imagem. Teresinha era muitas coisas, mas nada que ali ganhasse empatia ou comiseração, que fosse. O pai veio, orgulhoso, apresentar a sua menina.

– Esta é a Teresinha. Meu amor, fica aqui na cadeira do pai que eu já volto. Não saias daí, está bem meu amor?

Beatriz arregalava olhos e ouvidos. Ele falava para a filha como se ela tivesse três anos. Ele falava para uma pessoa que não existia. Já não existia ou talvez nunca tivesse existido. Uma filha que ele inventou. Amar é estar desperto, ser arguto, acautelar e proteger. É ralhar e dizer não, é também poder acabar na miséria de sofrimento daqueles dois, mas em consciência e não envolto em névoa, ficção e puro delírio. Entre aquilo que o pai via e aquilo que a filha era havia mais filtros do que no Instagram. Teresinha trazia colado ao cabelo o cheiro da tristeza profunda, o perfume suicidário de quem ergue o braço a pedir ajuda, mas que o recolhe sempre que ouve passos. Havia fatalidade e entrega no seu olhar e desistência nas suas olheiras.

– Sabe, Beatriz, conto-lhe isto porque confio em si e merece todo o meu respeito, além de que sou um homem de verdades. Vou com a Teresinha a uma clínica, a coitadinha engravidou, vai agora fazer um aborto…

– Outro?

O homem parecia surpreendido. Não compreendia.

– Outro?

– Sim, já tivemos esta conversa, não se recorda?

– Ah, pois, mas isso já foi já há muito tempo. Já foi há anos, há uns dois, ou mais.

– Você só cá trabalha há seis meses, pelo que o de há um ano, deve ter sido outro. Sabe uma coisa? Primeiro, cabe-nos ensinar às crianças como é que os bebés nascem, mas depois temos de lhes explicar como se impede que tal aconteça. Talvez esteja na hora desse segundo momento. É apenas uma sugestão.

De repente, ficaria tudo bem. Zé Manco avisou que estava a chegar. Aguardavam impacientes. Impacientes e trémulos. Mesmo ao sol tiritavam. Não era bem frio, aquilo que sentiam. Aquilo que sentiam era outra coisa. Eram apenas tremores, ritmados e insistentes, que nem o sol amainava. Tremiam de falta. De necessidade. De carência e privação. Não davam pelos tremores, ainda que visíveis aos demais, ainda que mal conseguissem acertar com o isqueiro na ponta dos cigarros.

– Os cigarros são uma merda. Enchem-nos com tanta porcaria que nem se conseguem acender.

Até a voz dele era trémula. Ela não o notava. Tal como não reparava nas mãos nervosas e titubeantes, no polegar sem energia ou destreza para forçar o metal na pedra e, assim, provocar a chama que insistia em não nascer. O isqueiro era laranja, ou amarelo. Ela tentava encontrar a palavra para aquela cor. Reconhecia-a, mas não encontrava a palavra. As palavras naufragavam no seu cérebro, numa torrente de mal-estar que o timbre doce da sua voz não denunciava.

– Pois é. Devíamos deixar de fumar. Só nos faz mal.

Ele enterneceu-se e desesperou-se.

– Manco do caraças. Disse que estava quase a chegar e nunca mais chega.

Ela encostou-se a ele. Juntos, talvez não tremessem tanto, ou tremessem de outra forma, ou qualquer outra coisa que os fizessem sentirem-se melhor, ou menos mal. O encosto dela fez com que os joelhos dele cedessem. Caíram. Mantiveram-se no chão. Meio entrelaçados pela queda. Meio afastados pelo amor, que quando estavam assim não conseguiam sentir muitas coisas. Nem os tremores nem o amor. Talvez fosse mais seguro ficarem no chão. Não pensavam em segurança, é certo, e o chão não era uma opção, mas uma necessidade, já que não se conseguiam erguer, nem sequer conseguiam desejar erguer-se. O ânimo não chegava sequer para pensarem em levantar-se. Ficaram no chão. Ela tinha ficado sentada sobre um tornozelo dele. Ele inquietava-se com a dor que o ínfimo peso dela exercia naquela parte distante do seu corpo.

– Sai daqui.

Ela assustou-se com o grito. Não entendia.

– Sai de cima de mim, caraças! Estás a aleijar-me!

– Desculpa, Babe. Vou…

Ele empurra-a com o resto das suas forças. Os menos de 40 quilos dela rumaram, de supetão, para outro bocado da calçada. Um bocado pequeno, que ela não ocupava muito espaço, nem muito tempo, parecia. Tudo nela era breve. Resumido. Ali se arrumou, sem se conseguir mexer, a uns palmos dele. Ele gemia, ou apenas arfava. Era difícil perceber a diferença. Mantiveram-se estáticos na medida exata em que os seus tremores o permitiam. Olhos no chão. Olhos no nada. Ela ainda tentou roer as unhas, mas só já havia dedos, sem unhas. Chupou o sangue que esta inútil tentativa de acalmar os nervos suscitou num polegar. Parou.

Uns ténis colocaram-se no vazio que os seus olhos haviam retomado. Um pé assente no chão, o outro meio a balançar no ar. Era o Zé Manco.

– Zé…

– Como é que é?! Bem, o estado em que vocês estão. Toca a levantar, manos! Eiii, estão a ouvir? Querem isto ou não querem? Aí no chão não vai dar.

– Ehhhh, mano. CaFixePá. T’ás bué atrasado man. ‘Tamos a ressacar há bué.

– Vim quando pude, qu’isto não é ligar e aviar. ‘Bora lá, que aqui não dá.

– P’rá onde? Não me consigo mexer, man. A gaja deu-me cabo do pé, tou mais manco do que tu Zé. Passa aí isso, man!?

– Primeiro as garinas, nunca ouviste dizer?

Zé Manco baixa-se, a custo, e entrega um pequeno saco de pastilhas à miúda.

– Agora o guito, vá. Rápido, que tenho mais fregueses p’áviar, armados em príncipes da calçada? Bute, bute!

– Primeiro o produto.

– A miúda já tem tudo, vá. Passa pra cá os 80 paus, meu! Já!

Enquanto Zé Manco com um joelho no chão, tenta tirar a carteira do bolso do rapaz, este começa a bater na rapariga, arrastando-a até si pelos cabelos. Ela nada diz. Apática, de olhos, agora, na felicidade suprema da alienação. Pela boca aberta, num esgar que podia ser um sorriso ou qualquer outra coisa, um risco de saliva branca e espessa.

– Ela não tem nada, o saco está vazio. T’ásmenganar, pá. Dá-me essa merda, pá.

– Xiii, ela tomou tudo? Aquilo era para os dois!! Ena pá! Vou bazar meu. Chama a ambulância. A gaja ‘tá-se a passar, man.

Zé Manco ainda esbofeteia a rapariga.

– Teté! Teté? Ouve, ela ‘tá noutra. Passou-se. Liga o 112, Mário. Bazei, man.

Zé Manco ‘bazou’. Ela, inerte, flutuava acima de tudo aquilo, enquanto ele lhe batia com toda a força que ainda há pouco lhe faltava até para falar. Veio gente. Veio a polícia. Veio finalmente auxílio. Veio, depois, o pai. Vieram ainda outras coisas.

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