Podendo escolher ser qualquer coisa, o que escolheria? O que queria? O que seria?
A questão surgiu do nada ou surgiu de tudo. O que escolheria ser? O que gostaria de ser? Pergunta difícil. Das mais complexas com que já se tinha deparado. Pior do que mistérios quânticos, bosões e fusões.
À sua volta deu-se início a uma glamorosa explosão de devaneios, vaidades e extremadas loucuras mais ou menos ditatoriais. Queriam este mundo e o outro. Mais o outro do que este. Mais ter do que ser. O normal, na verdade. Nada de surpreendente ou original na habitual estupidez e ganância humanas. O som tornou-se ruído, o desejo travestiu-se de absurdo e, com um pouco de exercício de concentração e a sua capacidade de subtração a ambientes tóxicos ou inócuos, apanhou o seu transporte privado para a imaginação.

De súbito, a inicial e intransponível geometria descritiva tornou-se paisagem clara, num fauvismo pertinente e compreensível.
Seria a breve rebentação da água na areia fina, de conchas perfeitas e depuradas pelo ar salgado, peneiradas em dia de eclosão de ovos de tartaruga ansiosas para tornar ao mar.
Seria o incansável vento que de noite e de dia esculpe o deserto e o deixa irreconhecível, despenteando as dunas e brincando com a paisagem e a própria mão de Deus.
Seria o reflexo da água fria de um rio, um traço de prata na profundeza da nascente. Ou antes o musgo, de um verde impossível, vestindo de veludo a pedra secular no bordo da densa floresta, tapetada de fetos.
Seria o laranja sereno sobre o coração plumado do pisco-de-peito-ruivo, num curto dia de sol baixo, ou o canto feliz e rasteiro do melro na madrugada que já se faz dia.
Porque não a sofisticada romã? Sim, uma romã, no seu alveolar e bem arrumado labirinto de bagas rubi, tão maravilhosa que nada se lhe iguala neste mundo nem nos seguintes. Uma rainha de tranquila e discreta beleza, com a sua tosca coroa, tudo guardando por dentro, nada expondo para fora, resguardadas as joias sob o manto da normalidade, da banalidade de uma casca grossa e sem história. Tudo por dentro. O sumo dos sumos e a mais estridente das cores em versão cristalina. Desnudando-se, uma câmara de cada vez, um bago de cada vez. Seria maravilhoso. E igual seria se fosse crina de cavalo vassourando do dorno o suror do esforço da cavalgada.

Podia ser a mutante folha que vai revelando a sua idade em variantes de cor que mudam toda a paisagem, linda mesmo quando se liberta da seiva e esvoaça pelo universo, aceitando o papel do húmus fertilizante, na base de todo o oxigénio, na raiz da mata. Uma única folha muda a cor do mundo e explica-lhe a complexa questão do tempo, que é como uma romã, apresenta-se um segundo de cada vez.
Seria a mão do pintor no gesto criativo. Feito de cor e de graça, de movimento e intenção, risco e intuição. Uma impossibilidade aparente perante a prévia inexistência de formas. O milagre da criação que coloca o impossível onde antes havia nada.
Seria isso e a refração das cores na humidade do ar, em arcos de embandeirar a imaginação e o riso.
Seria a campainha no guiador da primeira bicicleta, anunciando que o mundo não tem limites e que o desejo é o único passaporte. Pedala, pedala e nunca te canses.
Seria a magia do acreditar, que outra não existe. A capacidade binocular de ver mais longe, de chegar ao que antes não havia. O pensamento, a dúvida que mantêm a genica no pedal e o riso no peito. Seria crença e energia transformadora.
Uma chama de luz que salva e avisa os navios no mar em dia de tormenta e a tristeza no coração em momentos de desalento que há quem nos aguarda do outro lado. Uma mão doce que não larga a nossa, haja o que houver. O aviso que nos alerta no instante exato em que isso faz a diferença.
Seria a chama vibrante do fogo que aquece os pés e a solidão e o caldo quente que conforta e retempera. Do que mais necessitamos?

No oposto do termómetro, seria talvez a frescura da água que purifica, que sacia e dá alento à jornada. O cristal de gelo irrepetível, de geometria perfeita e beleza pura que, tal como a efémera, não teme o tempo curto, vivendo para o momento glorioso e único que conta. O reflexo do cristal na boca dos amantes e o rubi do vinho dançando no copo.
Seria a asa migratória, em voo livre e solto, sem esforço, apenas vento e fé. Que maior inspiração do que o primeiro ensaio de voo, o salto no vazio alimentado a instinto, vento e a algo mais que não se explica.
Podia ser a baga colorida que alimenta e encanta quando a terra dorme e pouco há em redor.
Seria o nó que se desata no peito e grita perante o perigo e salva e encoraja e afasta o medo e o bandido. A chuva que brinca ao vento, a cauda do cão que abana e diz tanta coisa no seu silêncio peludo. O gato que se enrosca no colo e, sem palavras ou alvoroços, nos segura o coração e todas as promessas de risos futuros.
Seria a cria do coelho numa lura abrigada onde a ternura não se prenuncia, os picos da castanha, a prece que reconforta.
Seria a vontade férrea de enfrentar a tempestade e deixar o pavor para depois. E os dedos sábios e trémulos cravados no leme aguardando a hora de se unirem em prece logo que os pés estejam em terra firme.

Seria o sussurro que segreda ao ouvido coisas para ninguém mais ouvir. Coisas boas que acalmam e alimentam, o amor e a alma e que esculpem em redor apenas otimismo e sonhos de encantar.
Se era para ser alguma coisa, que fosse a beleza indizível, que comove e promove frémitos que desconhecíamos e transformam a nossa vida para sempre. Aquele tipo de sentimento que se agarra às lágrimas e que as emoções amassam e cozem e transformam em substrato rico e inédito.
Seria o olhar de quem vê pela primeira vez. A voz de quem se ama.
Seria o frio e o calor, o vento que penteia a alma e o tornado que vira tudo do avesso, a onda a galgar o convés, a nuvem que se esgota sobre a terra e a raiz que aí ganha força e a semente que germina ainda, no escuro silêncio da sua determinação.
Seria magia.
Seria tudo isso. Uno e coletivo.
Não tinha dúvidas.
Seria um dia de outono.

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