Tomás

No final daquele dia, Tomás sabia bem o que iria acontecer e preparava-se para o pior, ou, pelo menos, assim pensava, pois o pior era, nessa ainda simples manhã de quinta-feira, algo bem diferente do que acabaria por se revelar ‘o pior’. Não sairia do gabinete de Filipe Soares sem a sua indemnização. Transferência feita online, à sua frente ou dinheiro vivo, saído diretamente do cofre da empresa, onde ia parar parte do crédito malparado, depois de cobrado à força de ameaças e socos, sem que o fisco desse conta. Tomás sentia as mãos frias, da transpiração, e um frenético ritmo cardíaco, enquanto a sua mente, em modo de visão em túnel, apenas conseguia focar um único assunto. Da boca saiam-lhe palavras desconexas e jorros de palavrões acompanhados de murros no volante. No peito um misto de autocondenação, por tamanha ingenuidade, e raiva absoluta e em estado puro. Nunca o tinha sentido assim, daquela maneira. Com aquela intensidade. Sentia-se em ebulição. Quente e exaltado. Experimentava muitos sentimentos novos e diferentes combinações e arranjos de velhas emoções. Ódio. Vingança. Desprezo. Autocensura. Comiseração. Uma outra forma de ódio, mais intenso e visceral. Mais doloroso. Absorvente. Doloroso. Qualquer coisa de demoníaco e urgente.

De vez em quando, como se não o tivesse já feito uma centena de vezes desde que, logo de madrugada, saíra de casa, onde nem chegara a conseguir dormir, levava a mão ao porta luvas. Abria o fecho. Espreitava lá para dentro. Observava o cano da pistola. Garantia que ainda lá estava. Que não a tinha esquecido, que havia balas. Voltava a fechar o pequeno compartimento, agora estojo de arma. Seria o repetitivo gesto uma tentativa de acalmar os nervos? De manter vivo na sua mente o prepósito que o movia e os meios que estava decidido a usar, caso fosse necessário? Ter pensado nesses meios, fazer-se acompanhar deles, não era já a declaração de que os usaria? Tinha bastante tempo ainda para pensar nisso. A viagem ainda era longa. Os escritórios centrais eram em Madrid. Certo é que já Portugal tinha ficado para trás há meia hora e o ímpeto sanguinário não se desvanecia. Enganado. Traído. Vilipendiado. O seu bom nome espezinhado daquela maneira. No final de um reles desfile de improváveis e jamais imaginados acontecimentos, ainda conseguiram roubá-lo de forma infame. Ele, mentor e dono da empresa acabava, ao cabo de um ardiloso e bem montado esquema, por ser escorraçado do seu próprio negócio, onde rendiam rodos de dinheiro patentes que saíam da sua engenhosa mente. Um volte-face que não conseguia engolir. Advogados e contabilistas todos metidos ao barulho… E aquele Filipe. O gigantesco e asqueroso réptil por detrás do golpe. Cínico. Tomás estava determinado. Não havia retorno naquela empreitada. Em tribunal recuperaria as patentes, assim o esperava, mas o dinheiro, esse regressaria a casa consigo ainda hoje. Com ou sem sangue. Isso era certo.

Era tamanha a frustração que percebeu que todo ele tremia. Levou a mão, de novo, ao porta-luvas. Voltaria a repetir aquele movimento um milhão de vezes ainda. O gesto ganhava tiques compulsivos. Olhou lá para dentro. Tudo desfocado. Chorava.

By Josef Koudelka

Raquel

Raquel exultava. Voltava a sentir-se feminina. Inteira de novo. Queimaria todos os soutiens com enchimento que a acompanhavam desde que lhe removeram cirurgicamente as mamas. Sim. As mamas. Não eram seios. Não era peito. Nem essa coisa horrorosa que são as ‘maminhas’. Não sabia o que isso era. Ela nunca tivera maminhas. As suas eram mamas. Tinham sido as suas mamas. As duas. Arrancadas a golpe de bisturi. Sempre tivera mamas e tinham-lhas tirado. Para bem dela. Pela sua saúde. Voltava agora a ter mamas. Já não eram bem as suas, mas eram igualmente suas e já não eram amovíveis. Eram fixas. Rijas. Insensíveis, mas atraentes. Tinha agendado para essa noite a festa de inauguração das suas mamas novas e o decote daquele vestido, com o qual rodopiava no gigantesco provador, da loja mais cara onde lhe ocorreu entrar, cumpria o desejado. Revelar sem mostrar. Era absolutamente escandaloso sem ser vulgar e isso é tarefa complexa de se alcançar.

No final desse dia, Raquel retomaria a sua vida sexual. Fosse com quem fosse. Tinha decidido que seria a sua loucura comemorativa. Fosse com quem fosse. Acabaria a noite nos braços de um homem. Não precisava de uma cama. Apenas os braços de um homem. Um homem que não tivesse conhecido as suas mamas verdadeiras. Um homem capaz de amar as suas novas mamas. Por uma noite que fosse. Apenas isso. O regresso à atividade sexual. À sedução. Ao movimento sem complexos. O regresso a um peito que não cai, nem se desmonta, nem se desloca, nem se retira para dormir. Nem se arruma numa gaveta, ao lado das cuecas. Voltava a ser una. Nessa tarde, vindas de Lisboa, as suas três melhores amigas chegariam ao hotel, bem no centro de Madrid, perto da clínica onde andava a ser acompanhada. Ela e o seu moribundo cancro. Moribundo por agora, que em relação a cancros e pessoas violentas, nunca nada está completamente sarado. Sentimo-los sempre a rondar. À espreita. À coca, numa permanente e aterradora vigilância.

As ‘girls’ já estavam perto de Madrid. Já lhes tinha enviado as coordenadas do hotel. O vestido estava escolhido. Iria tomar um copo a uma esplanada. Fazer-se passar por madrilena, sempre com tempo e disposição para ‘una copa’, para dois dedos de conversa com o volume no máximo. Olharia em redor. Como foco de vigilância em noite de alerta máximo. Como farol em pleno temporal. Rasando todos os homens em redor. Fixando-se naqueles que não ficassem indiferentes. Não era boa a distinguir héteros de gays. Tentaria estar atenta. Logo que chegasse a Marta, estaria safa. Era o melhor radar de solteiros heterossexuais que alguma vez conhecera. Melhor do que qualquer aplicação dedicada ao tema. Chegava ao ponto de perceber se tinham ou não algum tipo de relação no momento. Mesmo quando mentiam, Marta sabia bem qual era o ponto da situação. Era uma predadora nata. Seguiria as suas indicações. Tinha de inaugurar as suas mamas novas. Perceber como funcionavam. Se funcionavam. Tinha de estabelecer uma boa relação com elas. Colocá-las à prova. Torná-las mais sensíveis, nem que fosse à custa de uso. Torná-las sugestivas a certas sensações. Ensinar-lhes coisas. Procurava já um bom professor. Alguém que parasse para ver. Que reparasse e lhes prestasse atenção. Não queria um príncipe encantado (que maçada!), nem um amor para a vida, mas também dispensava um apressadinho da noite. Daqueles que ainda nem tirámos o soutien e já se deram por satisfeitos, agarrados já ao telemóvel. Era capaz de matar um desses estafermos se lhe calhasse um em sorte nessa noite. Podia ser a Marta a escolher. Era tão doida que chegava a pôr a mão dentro de braguilhas, antes da ação, para perceber se a coisa era maneirinha e adequada, e se valeria o esforço. Imagine-se uma coisa descomunal que acabasse numa urgência hospitalar, ou tão ‘nanica’ que… Um tipo olhava-a fixamente. A felicidade tem este tipo de poder contagiante e atrativo. Não era mau de todo. Do tipo civilizado. Não babava, nem lhe tirava medidas com os olhos de forma ordinária. Sorria. Um sorriso giro e atrevido. Um ar cool. Não parecia madrileno. Não era. Aproximou-se de Raquel. Pediu licença para se sentar num português educado. Ela que perdoasse. Tinha-a ouvido inadvertidamente ao telefone e reconheceu logo a língua. Que saudades tinha de falar português. Apresentou-se:

– Chamo-me Filipe.

Zé Pedro

Zé Pedro tinha dado a si próprio o final desse dia como prazo limite para contar tudo a Rita. Não tinha sido intencional. Claro que não. Que homem seria ele se tivesse sido propositado. Que ser humano desprezível seria capaz de tal coisa? Ele próprio não o sabia na altura. Jamais o imaginara. Umas análises de rotina, promovidas pela medicina do trabalho, e uma notícia daquelas que não se espera. Que não se esquece. Daquelas que mudam uma vida. Das que ditam a morte. Haveria para sempre na sua vida um antes e um depois daquelas análises de rotina. Era seropositivo. Algo tão negativo, com um nome ‘positivo’. Seria para dar ânimo aos pacientes? Para os baralhar, num primeiro momento? Algo que, a meio do atordoamento inicial, pudesse levar a pensar que tudo estava bem, ainda assim? O que havia de positivo naquilo? Perdia-se em pensamentos. Perdia-se em desânimo e derrotismo. Esmagado. Há coisas que excedem em dimensão e volumetria aquilo que o nosso cérebro consegue abarcar.

Em que momento teria acontecido? Com quem? Em que circunstâncias? Teria sido pelo sangue? No dentista? Num jogo de râguebi, onde há sempre golpes e joelhos esfolados? Teria sido numa das raras ocasiões de sexo desprotegido? Daria tudo para ter certezas. Em que dia? Em que momento? Quem? Pensou depois que isso era mera curiosidade. Que isso nada alteraria. Se havia momento em que não valia a pena olhar para trás era aquele. Tinha de avisar apenas uma pessoa. A única com quem, nos últimos anos, mantinha uma relação tão próxima e regular que, por vezes, dispensava preservativo. Rita. Riscaria da sua lista de potenciais parceiras, antigas relações? Teria sido através delas que ficara infetado? HIV. Dizia-o pela primeira vez associando a sigla à sua pessoa. À sua vida. À sua morte. Já não se morre de SIDA, informaram-no. Pois não. Vai-se morrendo, não é? Ripostara.

O aumento da esperança de vida e da qualidade da mesma permite encarar o HIV apenas como uma doença crónica. As terapias são cada vez mais personalizadas e… A gente habitua-se a tudo, não é? Ou a quase tudo. Ou apenas dilui os venenos da vida no copo de água do quotidiano. As rotinas hospitalares. As recaídas. Basta ir rodando a colher no copo com um pouco mais de velocidade, para ver se fica tudo no turvo da água, sem sedimentações residuais no fundo do copo. O fundo do copo. Era lá que agora vivia. A Rita. Tinha de lhe dizer. Olhos húmidos nos olhos assustados. Também ela teria de fazer análises, com a angústia acrescida de aguardar o seu resultado com um asfixiante nó na garganta, um aperto no coração. Acompanhá-la-ia em tudo. Estaria ao seu lado. Ou não. Há momentos em que dispensamos companhia. Que temos de atravessar sozinhos. O nascimento. A morte. Absolutamente sós. Por vezes, apenas algumas batas brancas por perto. Apenas algum álcool à mão. Momentos em que todo o universo circunda apenas a nossa mente, preenchendo-a de buracos negros, nos quais ansiamos por cair em esquecimento, mas que apenas lá estão a cumprir propósitos de amedrontamento. Não nos sugam, apenas nos matam na perspetiva de que nos podem sugar a qualquer instante. Regem-se pela lógica do terror. Rita tinha uma filha. Já a tinha quando começaram a andar, mas… O contágio é lixado. O sangue de um qualquer dói-dói que a mãe suga com a boca. Boca onde pode haver uma pequena ferida… Zé Pedro voltou a encher o copo, com tanto whisky quanto o copo aguentava. Capacitou-o ao máximo. Transbordou. Ficou a olhar para o líquido enquanto escorria pelo vidro, dilacerando-se pelo tampo da mesa de raiz de nogueira e se encaminhava numa única direção. A mesa não estava nivelada. Bebeu até deixar de perceber a inclinação da mesa. Nesse ponto, procurou o nome de Rita no telefone e ligou-lhe.

Rita

Um telefone tocava insistentemente. No carro, onde o volume da música era tal que fazia reverberar os vidros, ninguém dava por isso. ‘Asereje’, das Las Ketchup era o insólito tema que tocava em loop há já alguns quilómetros. Uma espanholada meio algaraviada que acompanhava bem a boa disposição das ocupantes, que já circulavam por estradas espanholas. Com movimentos que se acotovelavam no ar e no tejadilho, tentavam replicar de forma febril a coreografia do tema. Quatro mulheres inebriadas por aquele tipo de felicidade que parece confinado à adolescência, à descoberta da liberdade, das primeiras verdadeiras amizades e de certas confissões e libertinagens que nos fazem sentir eternos e ligados para sempre. Momentos em que acreditamos que seremos sempre felizes e que está tudo bem. Para sempre, tudo bem. São apenas momentos perenes. Com sorte, cristalizam-se na memória. Com azar, desvanecem-se apenas e nunca mais regressamos a eles, afastados que fomos para o espetro dos cinzentos e das sombras. As quatro mulheres gritavam, esperneavam, riam e choravam. Manifestações de um tipo de felicidade que vem de dentro. Que existe sozinha. Por si só. Está presa à magia da amizade e da ideia sempre inspiradora de que se afastavam do de sempre e rumavam à aventura. Como quando roubavam o carro do pai de uma delas, para ir a clubes, ter com rapazes, cometer os primeiros excessos alcoólicos, ir a um concerto alternativo num bairro escuso. Como quando acreditavam que a vida seria sempre essa emoção de excitação e perigo, de bem-estar e satisfação plena. Não havia ringtone que se sobrepusesse a esse resgate do passado, a essa viagem sentimental. Um regresso ao bom passado das suas vidas que decorria naquele carro.

Marta, ao volante, não aguentava de tanto rir. Aflita com as dores abdominais, entrou na primeira estação de serviço que encontrou. Travou o carro abruptamente no mesmo instante em que abriu a porta e se mandou para o chão. Ria tanto que já não emita sons, apenas se contorcia no asfalto. Rita saiu a seguir, agarrada à barriga. Caiu de joelhos e vomitou. Do banco de trás, saíram depois Teresa e Manela, ainda a cantarem. Rita foi a primeira a sair daquela bolha de exaltação, chamada à realidade pela má disposição. Teresa estava atenta.

– O que foi agora, Rita? É a segunda vez que vomitas desde ontem.

– Não sei. Deve ter sido de rir tanto. Não estava a aguentar mais. A vossa companhia só me faz mal é o que isto quer dizer.

– Hummmm. Cá para mim estás grávida –, atirou a intuitiva Marta.

Acometida de novo vómito, Rita afasta-se.

– Só essa ideia, já me dá volta ao estômago –, admitiu Rita, de regresso.

– Mas tens tido o período? – Manela mostrava interesse pelo assunto.

– O mês passado, sim. Este mês ainda não, mas, para já, não está atrasado. Não me agoirem, vá!

– Mas não gostas do meu irmão? Acho que só vocês é que ainda não entenderam ou não querem aceitar como se amam. O Zé Pedro não vive sem ti, embora tenha a ideia louca de que é um eterno solitário.

– A Manela, como jamais terá filhos, a não ser que, um dia, feche os olhos e troque as meninas pelos meninos, está doida para ser tia, tu não a prives disso, Rita. Que maldade.

Teresa, a menos dada a conversas ‘fofinhas’, como lhes chamava, atalhou a coisa, como sempre fazia:

– Se a criança for medonha, podes até dar-lha para ela adotar e tu segues a tua vida. E o Zé Pedro nem tem de saber de nada disso. Tudo era tão mais simples se fossemos desprovidos de moral, não acham?

Em uníssono, Marta, Rita e Manela gritaram-lhe que não. Que a esterilidade de sentimentos de que ela, por vezes dava, provas é que era assustadora.

Teresa acende novo cigarro. Pergunta se querem alguma coisa da loja e todas decidem acompanhá-la. Encontram-se na caixa, cada uma com algo para comer e muito ‘desperdício’ de dinheiro, na opinião de Marta: revistas com cusquices, pacotes de batatas fritas, óculos de sol cor-de-rosa… Manela, que não brincava em serviço, aproveitou bem o ecletismo da loja, com uma pequena secção de parafarmácia e entrega a Rita dois testes de gravidez. Rita corou. Todas as outras exultaram.

– No final deste dia, ficaremos a saber se vamos ou não ser tias. Podemos fazer uma videochamada para o Zé Pedro, enquanto fazes chichi para a palhinha –, gritou Marta – Ficaríamos todos a saber ao mesmo tempo.

– Não transformes a minha vida numa cena de comédia romântica de má qualidade. Acham mesmo que estou grávida?

– Na verdade, achei que seria apenas uma brincadeira, mas, agora, a tua pergunta vem dar nova probabilidade a um louco palpite de uma lésbica ansiosa por ser mãe, ou tia. – De novo a pragmática Teresa.

– Tété, quando perceberes que me amas, podemos engravidar as duas em simultâneo e duplicar a nossa família em apenas nove meses. O que me dizes?

– Com a minha pouca sorte e a escassez de homens interessantes, querida Manela, mantenhamos essa possibilidade em aberto.

Teresa e Manela riram e abraçaram-se e Marta diz a Rita que não precisa de fazer o teste. Ela aposta que está grávida. Do carro, uma canção volta a lançar a loucura no grupo. Era ‘Suddenly’, de Billy Ocean. Correm para perto do carro, aumentam o volume e começam a cantar e a dançar. Em plena hora de almoço, outros automobilistas à procura de um sítio para comer e descansar as pernas juntaram-se-lhes. Rita, de olhos fechados, aproveitava a euforia, pensando que, no final daquele dia, podia já não ter vontade de cantar. Outro filho? De outro homem? Gostava mesmo de complicar a sua vida, lá isso! O que pensaria Zé Pedro disso?

“Suddenly life has new meaning to me
There’s beauty up above and things we never take notice of
You wake up suddenly you’re in love”

No meio da gritaria demoraram a perceber que um veículo acabava de arrancar a porta do seu carro. Todo o estrondo parecia sugado para dentro da música e acabou incorporado por esta. Demoraram uns segundos a avaliar a situação, mas quem estava no restaurante, de frente para a enorme parede de vidro que dava para aquela zona do enorme estacionamento viu. Viu e acorreu. Aflita. Aos gritos. Também elas perceberam, então, que algo se passara. Que algo se passara com elas. Com uma delas. Olharam-se. Faltava uma. Faltava Rita. Marta não se conseguia mexer as pernas. Por causa do ataque de riso não tinha estacionado o carro, apenas o abandonara em pleno acesso… Era a culpada. Apetecia-lhe morrer. Teresa sabia que tinha sido ela a sair por aquela porta e a deixá-la aberta. Se a tivesse fechado… Manela não pensou, correu apenas. Contornou o carro. Percebeu o enorme buraco que a ausência de porta escancarava. Viu Rita deitada no chão, enrolada como um feto. Viu sangue. Um homem de joelhos sobre Rita. Desolado. Chorava de forma estranha.

by Helmut Newton

Tomás

Percebia que não estava em condições de conduzir. Tinha de se acalmar. Teria um colapso ou ataque cardíaco, ou AVC ou tudo em simultâneo, se não se acalmasse. Nunca tinha sentido o sangue literalmente a correr-lhe nas veias, as pulsações a empolarem a pele nas têmporas. Morreria antes de cumprir a sua missão. Uma estação de serviço. Tinha sede. Pararia ali até se sentir melhor. Limpou o suor da testa com as costas da mão. Curvou ligeiramente para entrar no acesso à bomba, todo ele ladeado de vegetação. Nisto, à sua frente, uma porta de carro, uma mulher. Tentou desviar-se. Travou. O estrondo foi assustador. Saiu de rompante. Uma criança deitada na estrada. Ajoelhou-se com a cabeça a arder. Pessoas em seu redor. Uma vozes que perguntavam porque não tinha ele visto, outras recriminavam o mau estacionamento daquele outro carro, oculto pela folhagem e em plena estrada, com tanto estacionamento livre. Outras vozes mais temperadas pediam calma. Que nem o homem vinha depressa, nem o carro estava assim tão mal parqueado, apenas aquela porta aberta. Não fora isso… Que os azares acontecem. Tomás vê-se rodeado de mulheres que gritam por Rita. Não é uma criança. É uma mulher. Encolhida. Há sangue. Terá morrido? Ele que só pensava em morte. Mal conseguia olhar para aquela mulher cujo pescoço palpava em busca de pulsação. Rita. Chamava-se Rita. Chamou por ela. Braços sobre os seus ombros. Ele que descansasse. Estava bem? Estava ferido? Não se preocupasse. Tratariam do resto. Era uma mulher. Alta magra. Ela sabia o nome da mulher que estava no chão. Aquela voz acalmou-o. Ofereceu-lhe água. Tomás recordou-se do revolver no carro. Estaria ainda no mesmo sítio? E se a polícia o encontrasse? Tinha de se ver livre dele, ou escondê-lo temporariamente. Sem ninguém ver é que seria complicado. Uma ambulância. Não tardaria a polícia. Tirou a camisola. Foi ao carro. Meteu a camisola dentro do porta-luvas, de onde retirou a pistola enrolada já na camisola. Dirigiu-se à casa de banho. Pelo caminho, atirou a arma para o meio de uma densa mancha de arbustos e silvas. Era preta, a arma, dificilmente a encontrariam, a não ser quem propositadamente a procurasse. Estupidamente, sentiu-se mais calmo. Atordoado, mas com menos aceleração cardíaca. A mulher estava deitada numa maca. Não tinha morrido. Uma mulher puxou-o para dentro da ambulância. Foi levado para o hospital. Rita também. Não tinham morrido. Tudo se resolveria. Aquela mulher alta, de voz tranquila, seguia com eles.

Rita

Tudo aconteceu muito de repente. Um ruído, era tudo aquilo de que se lembrava. Nada mais. Nem dor, nem susto. Estava de costas. Apenas um som brutal e o seu corpo que era projetado no ar. Depois. Nada. Depois, a ambulância e Teresa, a seu lado e um homem. Agora, sentia dores enquanto, de costas na maca contava o número de lâmpadas do teto que corriam como traços brancos num asfalto aéreo. Era levada. Para onde? Não percebia.

Teresa aguarda notícias. Avisa Raquel e envia a Marta e Manela as coordenadas do hospital. Elas tinham ficado com a polícia a tratar de papeladas e formalidades no local do acidente. Pensava em Rita e no homem. Sentia uma certa ligação àquele homem sozinho que, numa curva de azar nelas tinha esbarrado de forma tão brutal. O coitado não parava de pedir desculpa. Também ela não se cansava de o fazer, interiormente. Porque não fechara o raio da porta. Se ao menos tivesse sido ela a estar lá quando… Teria sido uma forma de repor a justiça da situação. Uma enfermeira pergunta pela pessoa que acompanha Rita e Tomás. Percebe que é o nome do homem, que julgam que estariam juntos, talvez. Não perde tempo e diz à enfermeira que há a possibilidade de Rita estar grávida, dado que é apontado numa ficha, onde a espanhola vai escrevinhando contactos, nomes… Tomás, agora sabe o nome do homem, surge, vindo do interior, daquele sítio vedado a Teresa. Apenas uns curativos e uns olhos perdidos. Negros e profundos.

– Desculpem-me. Não vi…

Teresa acalma-o. Desculpa-se também. Refere o descuido. Ele que se acalme e que reze com ela por Rita. Mantêm-se juntos. Calados. Marta e Manela juntam-se-lhes, nem sabe bem quanto tempo depois.

Lá dentro, Rita é sujeita a um sem fim de exames. Sangue para análise. Unira para análise. Raio-X. Ressonâncias. Lanternas nos seus olhos. Não tinha noção do tempo. Podia ter passado uma hora ou uma semana. Dizem-lhe que ainda é de dia. Que se acalme. Que o médico já vem ter com ela. Afinal, uma médica. Nova. Inexpressiva, mas simpática. Pega-lhe na mão. Rita pensa o pior. Um médico só nos pega na mão… Nunca. Deveria estar morta. Não. Apenas lhe avaliava o pulso. Olha-a nos olhos. Fala de forma calma e espaçada. Acena à médica, que sim, que compreende o que ela diz naquele castelhano serrado que, em todas as oportunidades, junta sibilados esses às palavras, enquanto as vai largando naquele ritmo tão próprio. No início não percebe bem. Não assimila. Está ‘embaraçada’, isso entende. Sempre era verdade. Que estava tudo bem. Que não se preocupasse. A partir daí tudo se complicou. Pediu que chamasse Teresa. Teresa vem. Teresa ouve e compreende. Fica pálida. Rita também já compreende.

– Há quanto tempo é seropositiva?

Rita cala um grito. Pensa em Zé Pedro. Tem de lhe dizer. Pensa depois no homem antes de Zé Pedro, aquele que Rita tinha deixado depois de perceber que era um toxicodependente funcional. Um consumidor de cocaína habitual. Pelos vistos, não snifava apenas. Voltou a olhar o teto. As lâmpadas eram diferentes das do corredor.

Raquel

Sai disparada após receber o telefonema de Marta. Filipe, percebendo o seu nervosismo, oferece-se para a levar ao hospital. Raquel aceita. Começava a escurecer. No seu peito novo e na rua. No átrio do hospital, Filipe é retido por um homem cheio de pensos no rosto. Curiosamente, também ele português. Não entende. O homem atira-se com fúria a Filipe. Polícia e seguranças acorrem. Não volta a olhar para trás. Desata a correr. O mundo da sua melhor amiga ruiu essa tarde. Tinha de a encontrar. Percebeu que estava perdida. Ala psiquiátrica. Tinha de perguntar indicações. Traumatologia ou obstetrícia? Ligou a Teresa. Um homem corre na sua direção. Desvia-se. De novo na entrada. Filipe e o português já separados. Uma distração dos seguranças e voltam a esmurrar-se. Não sabe o que lhe deu. Talvez a imagem ridícula de dois homens adultos a brigar no átrio de um local onde nasciam e morriam vidas humanas tornasse essa imagem insuportável aos seus olhos e entendimento. Talvez o medo de subir e encontrar Rita morta. Teresa estava sem bateria e não tinha ficado a perceber o real estado de Rita. Mas entendeu HIV. Isso entendeu. Dirige-se aos trogloditas que se digladiam. Mete-se no meio no instante em que um segurança utiliza um imobilizador para deter a contenda. Apanha Rita. Apanha-a no peito. O corpo de Rita estrebucha. Fica refém nos braços do segurança. No seu rosto um estranho esgar. Na sua cabeça o riso impossibilitado de chegar à boca, contido pelo choque elétrico. O riso e o escárnio da estúpida ironia de tudo aquilo. Tinham acabado de lhe fritar uma das suas mamas novas. Ainda assim, terminara o dia nos braços de um estranho.

By Aneta Ivanova

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