Sete ferramentas indispensáveis para ser autodidata no mundo relacional e amoroso. Pensado para gente de todas as cores, credos, formatos e feitios, incluindo gente com mau feitio. Porque aqui não descriminamos… muito.

1 – Luxúria

Luxúria reúne o melhor de dois universos: o luxo e a Manchúria. O luxo, todos o saberão, é antónimo de lixo – daí a própria proximidade ortográfica – e significa faustoso, sofisticação, riqueza e outros mimos da significância. Manchúria, uma quase invenção japonesa, designa uma vasta região asiática e só isso já remete para exotismo, paisagens delicadas, desenhadas pela mão de Deus num dia de particular inspiração, e um sem-fim de prazeres sensoriais. Tudo junto e temos luxúria, que, com origem no sábio latim, nos fala de lascívia, de desejo sexual intenso e irresistível, forte apetência e atração pelos prazeres carnais – não confundir com apetites gourmet ou meros pratos de carne. Libertinagem, concupiscência e sensualidade são conceitos próximos e muito aceitáveis do termo. Fala-se ainda, a propósito de significados de luxúria, em satisfação desregrada, exacerbada ou mesmo obsessiva dos prazeres sexuais.

Assim, luxúria não é mais do que o paraíso na Terra. O Éden em vida, já que após esta sabe-se lá o que nos espera, se é que se dará ao trabalho de nos aguardar. Luxúria é o único Shangri-La desta vida, pelo que, sempre que acometido de luxúria, o indivíduo deve ceder-lhe incondicionalmente. Num mundo tão rotineiro, em que quotidianos guiados pelo marasmo, pelo stress urbano-depressivo e castradores horários, qual a probabilidade de se ser invadido pela luxúria? Nunca, é a resposta correta. Aceitemos, portanto, como abençoados os momentos e os indivíduos que ainda sentem algo que mereça a designação de luxúria e congratulemo-nos pela sua existência. Virar a cara à luxúria é igual a negar a necessidade de se comer para sobreviver e está ao nível de qualquer outra idiotice. Invente-se mesmo uma religião que preste sacerdócio ao prazer e ao hedonismo, pois sem eles apenas aspiraremos aos mínimos olímpicos do prazer. O primeiro grande pecado sexual é ignorar ou desprezar a luxúria e não ceder a ela cândida e docilmente. Faça-o sempre que possível, sempre que lhe for dado experimentar esta urgência, seja em casa, no trabalho, a dormir ou a conduzir, desde que acauteladas todas as regras de segurança, passe o pleonasmo, e do bom tom, porque as cores também importam. A lascívia só é recriminável nos outros. Ora, nós não somos os outros, correto? Luxurie-se à vontade. Não tem de agradecer. Estamos cá para isso e para algo mais.

2 – Gula

O apetite desmesurado, a ânsia de enfardar e a sofreguidão à mesa são, claro está, pecados capitais e isso é tão verdade para a Bíblia como para o sexo. Quem gosta de bestialidade no que toca ao palato? E de obesos na cama, com quem não se consegue rebolar livremente, sob risco de asfixia ou esmagamento? Quem acha sexy um marmanjo a salivar com os quentes aromas que chegam da cozinha ao invés de com a nova lingerie que a darling comprou nessa tarde quente? Quem tem paciência para indivíduos, de ambos os sexos, que é necessário conquistar pelo estômago? Que nojo!! O que é isso de conquistar pelo estômago? Endoscopias?

Comam com maneiras e se é para ter algum tipo de apetite que seja sexual e mesmo este exige delicadezas e educação, já que chafurdar não conduz a prazeres supremos e matar a fome não é o mesmo do que ficar saciado. Comam primeiro em casa, para que a única satisfação que procurem depois seja a sensorial, a carnal. Já agora, não se esqueçam de moldar o corpo no ginásio, ou em cima da bicicleta ou onde quer que prefiram para ganharem força e agilidade para quando for necessário. Badochas suados com gordura a escorrer pelos cantos da boca… não é sexy. Nem sequer é decente ou higiénico. Não há desculpa para gorduras extremadas. Fechem a boca e ponham-se a mexer. A única gula aceitável é aquela que atrai duas pessoas para o precipício dos lençóis, com ânsia, fúria e imaginação e com a meta conjunta de obterem uma boa ‘refeição’ para ambos, com todos os ingredientes e recomendados índices calóricos. Comer sem ter apetite ou comer algo de que não se gosta, não é alimentação que se recomende. Uma dieta saudável tem exigências ao nível do equilíbrio e do palato. Vejam lá isso das calorias e das balanças porque em dia de caça, procuram-se presas que deem luta e não que tropecem na própria gordura ou incapacidade física. Atenção: conseguir ver os próprios pés é exigência mínima.

3 – Avareza

Avareza, no sexo, é pensar única e exclusivamente em si, no seu prazer e nas suas coisinhas. Se pertence a este tipo de indivíduos, não vá para o recreio e aprenda a brincar sozinho. É que os outros meninos também têm desejos e brincadeiras que gostariam de experimentar, ao invés de se sentirem cobaias nas mãos de bullies mal resolvidos. Casal é sinónimo de dois, de par e não de um sobre o outro, ou contra o outro. Se só se preocupa consigo, não conte com os outros. Ninguém está cá para servir exclusivamente os interesses e gostos alheios. Todos temos uma agenda própria. Avareza não é cool, menos ainda na cama. Do acordo sexual – sim, é apenas mais um contrato de prazer – faz parte a satisfação mútua, preferencialmente simultânea. Se é um egoísta solitário, não mace seres vivos, vá antes à internet, que ela compreendê-lo-á melhor e sem juízos de valor. Vá lá à sua vidinha.

4 – Ira

Todos temos horas más, dias sofríveis e mesmo péssimos, anos medíocres, vidas complexas. O que ninguém tem é o direito de descarregar seja em quem for. Se acha que pode substituir uma boa dose de psicanálise por uns socos bem dados na sua cara metade, ou noutra qualquer metade, então, você é uma besta. Trate dos seus problemas e não os atire à cara de ninguém. Miúdas, ira não é amor. Ciúmes não são provas de afeto. Controlo não é proteção. Socos são apenas socos. Um estúpido é apenas um estúpido e uma besta tão-somente uma besta. Fujam destes energúmenos como o Diabo foge da Cruz e do alho. Do alho normal, não tentem espantá-lo com alho francês que não funciona e ainda é patético. Uma vez que seja, já é uma vez a mais. Bater nunca é para bem de quem quer que seja, menos ainda de quem leva. Assim, ao menor sinal, à mais ínfima suspeita de que aquele braço erguido cairia sobre si: grite, esperneie e fuja. Melhor ainda, atire-lhe com o primeiro martelo pneumático a que conseguir deitar a mão. Tipos desses não mudam, a não ser para pior. Vocês merecem felicidade, respeito e amor e nenhum deles é sinónimo de dor, sofrimento ou humilhação. Se ele não vos coloca nos píncaros, procurem o tipo certo, porque esse que têm está errado em tudo.

5 – Soberba

Ter orgulho em si próprio, em alguém ou algo é positivo. Achar-se acima dos outros, não. Se a pessoa que está consigo, e com quem pretende enfrentar a vida, se julga melhor do que você e acima de si, saiba que está com a pessoa errada. Este tipo de indivíduos, sem pinta, tende a escolher pessoas com baixa autoestima, pois só junto destas a sua estratégia arrogante e snob poderia surtir efeito. Qualquer pessoa com o amor próprio dentro do prazo de validade e dentro dos níveis regulares tidos como necessários, jamais engraçaria com um monte de esterco que se julga superior. Por norma, este tipo de gente tem deficiências várias e, não raras vezes, enfrenta mesmo complexos de inferioridade que disfarça como pode, até mesmo com arrogância e sobranceria. É tudo oco e muito pobrezinho de espírito. A seu lado queira um parceiro. Alguém que olhe para si de igual para igual, qualquer desnível que não se limite à diferença de altura física, caso esta se verifique, não é aceitável. Se o tipo se julga assim tão acima, ele que vá viver para os Himalaias.

6 – Vaidade

Vaidade q.b. é recomendável. Acima desse valor é in-su-por-tá-vel!! Não queira na cama um tipo todo depilado, que se penteia antes de lavar os dentes e que se perde em contemplações e acertos de visual no reflexo das montras. É ridículo e embaraçoso. Não precisa de ser um matarruano boçal e iletrado, mas um autodesignado Adónis também não se aguenta. Se tudo aquilo que ele faz, pensa ou possui é o melhor do mundo e, segundo o próprio, suscita invejas alheias de tão belo e bom que é… Nem se dê ao trabalho de parar para duvidar, suspeitar ou tirar dúvidas. Parta. Vá para longe e não olhe para trás, exceto para se certificar de que ele não a segue. Se é para usar de vaidade, que tenham vaidade em si e no seu valor.

By Robert Frank

7 – Preguiça

Molengas, preguiçosos, ociosos, procrastinadores, gente que lança sobre os outros o trabalho ou responsabilidades que a si lhes competia fazer e assumir, são gente muito mete nojo. Nem sequer por questões sociológicas ou de qualquer outro teor científico, não fique para analisar. É gente enervante, com moral inexistente, calões que jamais se chegarão à frente, que não cumprem com o necessário, pelo que não sabem o que significa nem para que servem a abnegação ou o cavalheirismo. São aquelas pessoas que nunca tiveram necessidade de fazer, porque alguém fazia por elas. Meninos da mamã e miúdas mimadas que entendem que o planeta gira exclusivamente em torno das suas necessidades, por mais idiotas que estas sejam. Não vá por aí. Já somos sete mil milhões em todo o planeta Terra. Há seguramente um amorzito melhor à sua espera. Alguém para quem centrifugação não seja o nome de um filme de ficção científica, e que sabe conjugar verbos como fazer e agir. Se é para você fazer tudo, tudo, para que necessita de um parasita a seu lado? Dá que pensar, não é? Também não vale a pena matutar demasiado, parta logo à descoberta.

 

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