Vou contar-vos como, desgraçadamente, perdi a mulher da minha vida, por causa da canção mais gay do planeta. E não, não é ‘I Will Survive’, de Gloria Gaynor. Isto tudo somado a um estúpido mal-entendido, um vídeo viral e à minha habitual falta de intuição ou, como lhe chamo, avaria no radar principal. O pior de tudo é que apenas o descobri agora, anos mais tarde, quando tudo já estava irremediavelmente comprometido, até mesmo aquilo que julguei um … Ler mais
Categoria: + Contidianos (Page 10 of 12)
Contidianos: Substantivo muito indefinido (porque definir já é delimitar), do género que mais aprouver (que somos por todos os tipos de liberdade), em número que se quer sempre muito pluralista (na medida em que quantos mais, melhor). Sobre eles dizem os mais eruditos, e alguns tolos também: “Um Contidiano por dia, não sabe o bem que lhe fazia!”
Estou Para Aqui à Espera Que Ele Morra
+ Precisa de ajuda?
– Desculpe?
+ Pergunto se precisa de ajuda. Vi-o a cambalear antes de se sentar e, não leve a mal a sinceridade, mas está pálido, verde, diria mesmo, com má cara. Precisa de ajuda? Quer que chame alguém?
– Não.
+ Sente-se bem?
– Não.
+ Vê?! Talvez não seja assim tão má ideia pedir ajuda. Está com um tom cinza esverdeado…
– Não se preocupe. Já estou à espera.
+ À espera? Vem ajuda a … Ler mais
Ele – Demoras? Espero por ti lá fora.
Ela – Ok. Estou, mesmo, mesmo a sair.
Ele – Já disseste isso três vezes…
(Dez minutos depois)
Ela – Já estou pronta, vamos? Fui só confirmar se as portas estavam fechadas.
Ele – Mas eu já tinha feito isso, só perdes tempo, se voltas a repetir as mesmas coisas que me pedes para fazer.
Ela – Fui só confirmar e ainda bem. Duas estavam mal fechadas e a janela pequena, das … Ler mais
Mulheres Seiva
Vinha de uma linhagem de mulheres secas. Secas e sérias. Mulheres substância, sem um único acessório que não sangue e nervos. Apenas seiva. Vida no estado puro, sem sensibilidadezinhas ou enfeites, adereços ou acessórios. Apenas o necessário para se ser gente. Apenas o necessário para sobreviver. Apenas o necessário. Nem mais, nem menos, nem qualquer outra coisa. Nem qualquer outra medida. Mulheres caladas que se expressavam nos atos, no agir, no fazer. Mulheres cujo pensamento não era adivinhável ou expectável … Ler mais
Sempre que o correio lhe trazia mais uma conta para pagar – fosse de eletricidade, água, gás, condomínio, empréstimo bancário ou outra, o que tanto era válido para o correio tradicional como para o eletrónico, ou até por via de recados deixados por baixo da porta pela vizinha Hermengarda, pouco familiarizada com qualquer um dos anteriores métodos de transmissão de mensagens, e sempre necessitada de deixar os seus pareceres sobre os mais diversificados temas relativos à boa vizinhança –, Joaquim … Ler mais
– Escolho o dia de hoje.
Ana tinha decidido. A escolha estava feita. Assertiva e resoluta, Ana não teve um segundo de hesitação sequer, quando anunciou ao Júri Vitae sobre qual o dia em que recaía a sua decisão. O brilho nos seus olhos pintava-os de um tom de verde impossível. Tão impossível era aquele verde que os jurados, treze ao todo, como de resto em todas as deliberações, estava prestes a dar o caso por encerrado, quando – já … Ler mais
Desde que se lembrava de ser gente, o que pode ter tardado, tendo em conta o pouco espaço de armazenamento na sua memória, que Inácio Boaventura Petinga sabia o que queria da vida: lidar touros, ou melhor, toiros, como pelas vastas campinas se dizia. Sonhava entrar numa praça apinhada de gente entusiasta, que gritaria o seu nome e o incentivaria a pegar a besta pelos cornos. No centro da mesma, ele. Ele de peito feito para o destino, olhos nos … Ler mais
Durante anos, a avó materna não passou de uma personagem distante, uma entidade abstrata, descrita por todos como uma mulher lunática, ou mesmo insana, enlouquecida. Distanciada da realidade. Uma tola, sem grande préstimo ou valor. Era tida por todos aqueles que a conheciam e mesmo apenas por aqueles que apenas dela ouviam falar, como a tontinha da família. A inútil. A imprestável. Sempre muito aquém do que era socialmente exigido, sempre muito para lá do previsível. Um ser à parte. … Ler mais
Tinha o vício confesso de olhar cada estranho como personagem de um qualquer enredo literário ou cinematográfico e tentar adivinhar-lhe uma profissão, as suas intenções, possíveis gostos, uma complexa e refinada teia de afetos, um código moral e até fragmentos de uma vida. Foi, portanto, com normalidade detectivesca que se atirou com ânimo e determinante empenho ao guião de um tipo que acabava de entrar no café. Era um espécime maravilhoso. Não era particularmente bonito, ao nível do que é … Ler mais
O que são totós?
Não. Esta não é uma recensão para pessoas que usam ou abusam de totós e, por totós, entenda-se aqui aquele penteado em que, dividindo ou apenas repartindo o cabelo em duas ou mais madeixas, estas são, depois, presas por elásticos que ficam junto ao couro cabeludo, pendendo as farripas de cabelo dos lados da cabeça ou noutras secções do crânio, à laia de rabos-de-cavalo noutros locais da cabeça, que não a parte de trás, na nuca. … Ler mais
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