Categoria: + Contidianos (Page 11 of 12)

Contidianos: Substantivo muito indefinido (porque definir já é delimitar), do género que mais aprouver (que somos por todos os tipos de liberdade), em número que se quer sempre muito pluralista (na medida em que quantos mais, melhor).  Sobre eles dizem os mais eruditos, e alguns tolos também: “Um Contidiano por dia, não sabe o bem que lhe fazia!”

Álcool & Co.

Sentia um frémito no corpo. Um bem-estar que estava próximo da felicidade. Exultava boas vibrações. Uma espécie de formigueiro de prazer, apenas porque se sentia vivo, porque estava terminado mais um dia de trabalho e regressaria a casa para junto da mulher e dos miúdos. O sorriso deles era o seu bem mais precioso. Estava mesmo a pensar em cometer uma loucura e comprar flores para a mulher e uns bolos para os miúdos. Eram o centro da sua vida. … Ler mais

Cocktail Abade de Priscos ou os Maias Para Leitores Pouco Exigentes

Capítulo I – Carlos da Maia

Apostado em diversificar o seu negócio, e também porque era pessoa do seu tempo, inquieto e criativo, Litos da Maia – Litos, de Carlitos e da Maia porque foi lá que nasceu e foi criado – fixava os olhos esbugalhados numas letras mal escritas no ripado que servia de estrado ao beliche superior, debaixo do qual dormia há já oito anos. Lembrava-se bem, entre a mágoa e a raiva, do primeiro dia que fixara … Ler mais

Béjinhos Para Todos

Que tonta que eu fui! Tão tonta! Na minha descontraída ignorância, acreditei piamente que Deus já tinha dado por terminados os Seus arrumos. Aqueles que varreram com vigores de fúria tantos recantos e armários de 2016. Que a casa estava finalmente em ordem. O pó limpo. O chão varrido e aspirado. Os cacos no lixo. O louceiro reorganizado. Todas as janelas lavadas. As madeiras tratadas. Que, na Sua majestosa forma de ver o mundo, tudo estava, por fim, em ordem. … Ler mais

Private ‘I’?

A agência estava calma. Tão calma que José Boga conseguia distinguir aquela espécie de ruído que o pó faz ao cair, suavemente, sobre a superfície de madeira dos móveis, conduzido, quase parecia, pelos raios de sol que se filtravam pelos estores entreabertos. Tanto a secretária, sobre a qual esticava as pernas ao bom velho estilo de Marlowe, como a cadeira rotativa e a estante onde arquivava, em dossiers, toda a papelada, eram de madeira de castanho, sólidos e sofisticados, … Ler mais

Deus é Um Maker

Tinha apenas uns dez minutos, para entregar o formulário de acesso a um financiamento a fundo perdido que, estava certo, mudaria a sua vida. Algo lhe dizia que, de alguma forma, conseguiria chegar a tempo, já que tudo o que se relacionava com o assunto lhe parecia chegar à última da hora. O próprio anúncio, tinha-o descoberto, quase por acaso, nesse mesmo dia, o último para a inscrição. Uma primeira fase, uma espécie de pré-seleção dos candidatos mais aptos e … Ler mais

O Homem Invisível

Demorou a perceber. Demorou, primeiro, a aperceber-se. A dar conta do fenómeno. A tomar consciência do facto, pois disso se tratava, de um facto. Durante imenso tempo, esteve cego. Não via. Não viu. Não deu conta. Tudo era um pouco novo e de tal forma bizarro que simplesmente não lhe ocorreu. Quem poderia imaginar tal coisa?! Demorou, depois, outro tanto, senão mesmo mais tempo a perceber. A compreender que era mesmo verdade. A conseguir dizê-lo para si próprio e até, … Ler mais

Maria Ribeira – Uma Menina, Um Rio e a Árvore de Natal

Maria Ribeira não sabia muita coisa ainda. Adivinhava-se quase que não viesse nunca a saber muito de nada. Mas também isso Maria não sabia. O pai, sim. Maria Ribeira olháva-o cheia de orgulho, uma palavra cujo significado o próprio pai lhe tinha ensinado. Maria Ribeira não sabia, mas o pai sim. O pai sabia tudo. Sabia até acordar todos os dias à mesma hora da madrugada, ainda noite cerrada, mesmo sem relógio, no instante em que as corujas deixavam de … Ler mais

Jésuck

Amira segurava o menino contra o peito. Amarrado nos seus braços com um forte e sôfrego nó feito das suas mãos. As suas mãos enoseadas. Apertava-o contra o coração. O coração batia descompassado. Aflito. Dorido. Amedrontrado. Não. Apavorado. Os batimentos arritmados do seu músculo vermelho a compasso com a forte batida das ondas no bote. Um bote de borracha. Uma onda forte e mais outra e as batidas do seu coração a adivinhá-las, a acompanhá-las, a antecipá-las, já. Os batimentos … Ler mais

Amizade Silenciosa

Não sabia há quanto tempo eram amigos… O texto não deveria começar assim. O correto seria iniciá-lo dizendo que não sabia há quanto tempo conviviam. Isso. Assim tem mais acuidade além de que permite não incorrer em desnecessárias, ainda que não propositadas, inverdades. E mesmo falar de convívio era já uma liberdade literária, daquelas que a ausência ou desconhecimento de palavras mais acertadas força. Coabitação. Era isso. Era isso mesmo. Vale a pena reiniciar tudo de novo.

Não sabia bem … Ler mais

Dei por Falta de Uma Palavra

Hoje dei por falta de uma palavra. Por mero ‘caso’, como a maioria das descobertas. E digo propositadamente caso e não acaso, porque o que me levou a perceber a ausência de léxico foi um caso triste. Muito triste. Na verdade, um caso tão extraordinário na sua negatividade e no seu drama que permite todo o tipo de adjetivação e exagero semântico, na medida em que seja qual for o grau empregue, ficará sempre aquém daquilo que mesmo quem está … Ler mais

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