Categoria: Histórias Infantis para Adultos (Page 10 of 12)

Vamos colocar em pratos limpos alguns dos maiores enganos do universo infantil, lançando um foco de pós-modernidade e neurose sobre contos infantis que, com horrores de bisturi e ausência de anestesia, moldaram o espírito feminino durante milénios, deixando claro na mente ‘estrogénica’ as benesses do sacrifício, a alegria da dor, a felicidade da humilhação. Vamos repor a verdade dos factos, porque de parvas as miúdas têm apenas isto: NADA.

O Patinho Feio ou Paulinho, a Criatura Mais Horrenda do Universo

O último de nove filhos, a bem da verdade, não traz novidades a uma família. É apenas mais um. O único ‘mais’ que se lhe assiste é o de mais novo. Claro que acaba por ser desejado, talvez nem por isso planeado, mas lá para o nono mês já se ultrapassou a fase calamitosa, já se chora menos e já estão organizados os restos de coleção de enxovais anteriores. Claro que haverá digladiações maritais. Que o pai culpará a mãe … Ler mais

A Rã Que Quis Ser Boi ou a Gorda Sem Noção

Aguardava expectante que uma daquelas vozes de cana rachada chamasse o seu nome pelo microfone. Tinha especial carinho pelo timbre metálico dessas vozes. Vozes que, digeridas pela eletrónica, se tornavam indistintas entre si, quase mal denunciando o género dos falantes. Estridentes, histriónicas, esganiçadas. Como as de algumas vozes de ranchos folclóricos, mais a Norte do que a Sul, mais no feminino do que no masculino, é certo, mas timbres agudos que trazem, ainda assim, um certo conforto, porque nos lembram … Ler mais

A Rã e o Escorpião ou a Órfã de Pais Vivos

A mãe chorava. Agarrava o telemóvel nas mãos. Muito apertado. Contra o peito. A mãe chorava como ela, com soluços e baba e ranho que lhe saía do nariz e, também como ela, limpava tudo à manga do casaco. Não de pode fazer isso. Correu a ir buscar um lenço à mãe. Não chegava lá. Lembrou-se de papel higiénico. Também era bom. Também servia. A mãe sorriu a chorar e chorou ainda mais. Se calhar um lenço teria sido melhor. … Ler mais

O Soldadinho de Chumbo E Aquela Fulana Que Não Lhe Saía da Cabeça

Homem de constituição aparentemente frágil, Gonçalo Raso, de apelido e de patente, soldado na Guarda Nacional Republicana com pé de chumbo para lides demasiado físicas, vivia em conformidade com a imagem que transmitia: meio titubeante e pouco confiante dos seus méritos e capacidades. Era, não obstante, e até de modo paradoxal, homem ambicioso que colocava alta a fasquia dos seus sonhos. Uma espécie de Gata Borralheira da GNR. Passava os dias, por assim dizer, a esfregar tachos e a desencardir … Ler mais

A Lebre e a Tartaruga ou Apenas Duas Mulheres em Busca de um Rumo

Maria Tartaruga semicerrou os olhos. Não era um tique, longe disso, nem visava qualquer propósito sexy. Sabia bem que qualquer tentativa sua nessa direção – da sensualidade e do chamamento do sexo oposto com maneirismos femininos –, era desastre garantido. Mais do que isso, era humilhante, para si e para quem assistisse. Era desprovida de toda e qualquer ferramenta de marketing sexual e absolutamente inapta no que aos princípios básicos do sex appeal diz respeito. Não que os desconhecesse, … Ler mais

Pinóquio ou a Miúda Viciada em Encontros Online

Helena Gregório Góis tinha jurado a si própria que jamais, jamais mes-mo, voltaria aos sites de encontros, aos blind dates, aos arranjinhos casamenteiros da mãe, tias e amigas, aos encontros forçados com ‘rapazes muito jeitosos, honestos e trabalhadores’. De resto, nunca se sentira atraída por jeitosos, honestos e trabalhadores. Os primeiros eram demasiado vaidosos. Os segundos, demasiado maçadores e os últimos demasiado desinteressantes. Os primeiros raramente a olhavam como merecedora do seu charme, aos segundos faltava criatividade e aventura … Ler mais

A Galinha dos Ovos de Ouro ou o Gigolo e a Avozinha

Jani ajeitou o avental, no qual, sobre o fundo preto 100% algodão, se espreguiçava, a bege, o esboço do corpo – apenas do corpo, decepado no ponto exato em que começava a cabeça de Jani – de um Adónis indescritivelmente perfeito, musculado, másculo e jovem. Também ele se sentia assim, poderoso, sedutor e ainda mais sexy do que o seu avental. Por baixo deste, Jani usava apenas a sua pele, exfoliada, hidratada, eternamente bronzeada e suavemente perfumada. Assim deve ser … Ler mais

O Rei Vai Nu ou o Indivíduo Petulante e Hipermimado

Chef Mal’à-Guette trabalhava há anos numa receita ultrarrevolucionária com a qual ambicionava a sua terceira estrela Michelin. Melhor, com a qual estava seguro que conquistaria a sua terceira estrela Michelin, corolário que está para a culinária como os Óscares para o cinema, com o mesmo tipo de implicações, sendo a mais óbvia e injusta a garantia de quem nem sempre ganha o melhor. Uma crua – já que estamos na cozinha… – realidade que apenas cruza as mentes daqueles que … Ler mais

O Polegarzinho ou o Choninhas

Fernando Miguel estava a dar em doido, bem como o pobre do Champanhe, o caniche que trazia sempre ao colo ou a espreitar de um saco que usava a tiracolo. A mãe não se calava, com o nível de excitação no máximo ou para lá disso e o timbre a romper paciências. Champanhe borbulhava. A senhora já se embrenhava nas habituais e desnecessárias confissões as quais, um dia, esperava que o seu “filhinho” colocasse em livro. Uma obra para a … Ler mais

Pedro e o Lobo ou Loba e o Tolo

Esperava. Mais uma vez, ela esperava por ele. De cada vez que tal acontecia, e acontecia mais do que o desejado, até porque acontecia sempre, a solidão que ela sentia aumentava. Sentia que cada atraso se somava ao seguinte. O tempo que aguardava não era apenas o tempo de atraso dele em relação à hora combinada para aquele encontro. Era a soma desse tempo com todas as horas anteriores passadas à sua espera, em situações idênticas ou ainda mais embaraçosas. … Ler mais

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