Categoria: + Contidianos (Page 12 of 12)

Contidianos: Substantivo muito indefinido (porque definir já é delimitar), do género que mais aprouver (que somos por todos os tipos de liberdade), em número que se quer sempre muito pluralista (na medida em que quantos mais, melhor).  Sobre eles dizem os mais eruditos, e alguns tolos também: “Um Contidiano por dia, não sabe o bem que lhe fazia!”

Fábrica de Sonhos

Era perseguido. Não sabia por quem, mas sentia, no mais fundo do seu íntimo, medo dessa presença, ainda que imaginária. Olhava para trás e nada. Então de quem eram aqueles passos que não os seus, que ouvia correrem atrás de si, a fazerem eco dos seus próprios passos? Parava, o outro também. Acelerava, o outro também. Nisto, uma sombra. Correu mais depressa e de forma mais aleatória, na tentativa que adivinhava vã de despistar o outro. Agora já um vulto. … Ler mais

Um Dilema Por Telefonema

Linha 1

– Consultório de Evidências e Cartomancias da Angélica, em que posso ajudá-la?

– Bom dia. O meu nome é Idalécia e preciso muito da sua ajuda.

– Minha querida, estou cá para isso mesmo. Estudei quase duas semanas da minha vida, precisamente para poder ajudar o próximo e o distante. Não foi à toa que andei a queimar pestanas, se bem que isso deveu-se a um caso de violência num estádio de futebol, que envolveu petardos e dois … Ler mais

O Lápis de Goya

Não sabia muito bem porque se entregava àquele enfadonho ritual todos os sábados de manhã. Cabelo, unhas, pés, uma massagem de quando em vez… Nunca apreciara aquela familiaridade de toque, aquele tutear de mãos seguras e determinadas sobre a sua pele e odiava quando o corpo cedia, lânguido, a um certo bem-estar, a uma certa lassidão, a um certo prazer que em tudo contrariava a sua mente, a sua forma de ver tudo aquilo. Uma futilidade sem tamanho. Um desperdício … Ler mais

Há tanto tempo que não te vejo!

Olhou para o telemóvel. Forçou um meio esgar, demasiado deficitário para chegar a sorriso. Já não via nítido àquela distância que sempre tinha sido a certa, a necessária. Tinha de afastar mais o ecrã para perceber os nomes na lista de contactos. Depois dos 40 toda a gente precisa de óculos. Depois, usá-los ou não, depende apenas do tamanho do braço. O seu era longo, estava com sorte. Por enquanto. Por enquanto. Helena Gustavo, era o nome que procurava. Imediatamente … Ler mais

O Inventor

 

bb39f1cd4da39b0f413c4a90f6f17aa1 e2bc53dbc2a8bdd3b0e37e0fbec2e0d2 f8dc8df1468242aac09385622c43b817 O Inventor estava cansado. Cansado e aborrecido também. E satisfeito. Orgulhoso, até, dos seus feitos. Dos seus inventos. Era criativo. Incansável. Temerário. Na sua mente de inventor apenas uma singular pergunta. A de sempre. A única. O quê? O como acabaria por se resolver por si mesmo desde que decidisse o que inventar. O que criar. E tanto no que refere ao número, como ao género ou mesmo ao estilo, nada tinha de que se envergonhar. Tinha inventado tudo … Ler mais

Offline

 19h45

– Ó mãe, é tão giro! É um projeto. Começou na sala de aula. Uma das professoras colocou-nos um desafio: fazermos algo impensável, dentro dos limites da lei, claro, não fosse algum louco desatar a bater em alguém. Do que é que eu me lembrei? Da coisa mais absurda do mundo? Fazer de conta que era uma Neandertal, quer dizer, não utilizar equipamentos eletrónicos, nem Net, nem chats… Fazer de conta que sou de outra era! Não é … Ler mais

Premissa de Vida

Há já vários dias… Correção. Há já várias noites que olhava aquele ponto escuro a flutuar no ar. No meio do nada. Uma bola feita daquele tipo de negrume que só existe no escuro e que contrastava com a luz do luar, ou, dependendo da perspetiva, da luz da rua que vinha dos candeeiros. Costumava sentar-se sempre naquele preciso banco de jardim, fronteiriço à casa onde vivia, muito provavelmente naquela mesma ponta do banco pelo que, agora que sabia o … Ler mais

Call Girl

BRANCA DE NEVE c85bd2b3109432522a7647bfc86e1fba

No escritório

– Eu trato de tudo. Não precisam de se preocupar com o que quer que seja.

Assim determinava o boémio do grupo pouco antes da hora de almoço. A conversa foi retomada no restaurante de sempre, a cinco minutos a pé do escritório, e o assunto continuaria a ser debatido ao longo da tarde, apimentado a cada coffee break, cinco ao todo. No final do dia de trabalho, o plano já tinha avançado para adjetivos como louco, … Ler mais

A Vida, assim tipo, Sem Ponto Final

– E, então?

– Ouve, foi uma cena bué estranha, tipo…

– O que é que ele disse?

– Começou com uma conversa tipo estou muito confuso ‘táza ver?

– Iá, ‘tou a ver e a cara dele? ‘Tiveste com ele?

– Não, foi p’lo t’efone, ‘táza ver’? Não tinha tempo e mái não sei quê… Eu disse p’a irmos tipo beber um café ou assim, e ele que não podia, tipo tinha ido para casa dos tios e não … Ler mais

Osga Maria

Logo que entrou em casa, viu-a. Os seus olhos pareciam ímanes a colarem-se, com todas as suas forças, alheias a si própria – bem o sentia –, a serem atraídos para ela. Como se nada mais do que ali estava existisse.Como se, estando lá, lá não estivesse verdadeiramente. Nem a parede que, a cerca de três metros, enfrentava a porta de entrada; nem, à esquerda, a porta de duplo batente que com ela formava um ângulo reto; nem o amplo … Ler mais

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